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Celso Alvarez Cáccamo
29 Fevereiro 2004
Assistim ontem a parte do interessante I Fórum da Língua organizado polo Movimento Defesa da Língua, com a presença de numerosos colectivos luso-reintegracionistas do país. Estivem como público nas sessões
sobre ensino obrigatório da língua, e sobre locais sociais. Uma das preocupações
condutoras do que ali se falou referia-se, naturalmente, à questão central do
luso-reintegracionismo: como espalhar o uso da língua! Isto foi explícito na
intervenção de Ignácio Orero, o representante da Fundaçom Artábria na mesa sobre
locais sociais: ele perguntou retoricamente pola (inexistente) "fórmula
mágica" para promover a ré-galeguização. [+...]
A experiência comum relatada por
várias associações é que a tímida transmissão do idioma entre os jovens
espanhol-falantes ou neo-falantes que acodem aos locais se dá por "osmose", e
que uma "osmose" semelhante se dá também entre os própios activistas da
língua nos locais, que vão incorporando-se ao luso-reintegracionismo gradualmente, por
pura "naturalidade"
Com efeito, esta "osmose" é parte
consubstancial no processo de naturalização social do idioma. Mas, em que
consiste exactamente este processo, do ponto de vista sociolinguístico? Como se pode
incidir nele? Como se pode acelerar a transmissão no trabalho de base?
Para abordar este processo, é fundamental
compreendermos, focarmos e privilegiarmos a noção de rede social ou retícula
social, e compreendermos também o valor da língua como recurso transmitido
socialmente. Uma rede social é um conjunto de pessoas ligadas por relações sociais mais
ou menos habituais, e conectada com outras redes por linhas mais ou menos fortes ou
débeis de relação também social. Cada pessoa faz parte de múltiplas redes sociais
interligadas. Teoricamente, cada um(a) de nós pode ser concebido/a como o centro de uma
rede, que conecta com outras. Frente à noção de grupo, que destaca o
indeterminado (um "grupo" é como um conjunto de pontinhos movendo-se soltos
dentro dum círculo, dum "conjunto boleano"), a noção de rede destaca a
relação e a troca e circulação de recursos: materiais (como objectos, bens) e
simbólicos (valores culturais, ideologia, língua). Uma rede pode ser vista, assim, como
um conjunto de pontinhos (pessoas) ligados por linhas que simbolizam a sua interacção
mais ou menos habitual ou mais ou menos frequente. A maior interacção entre as pessoas,
maior reforçamento das linhas de relação. E, enquanto o solapamento de
"grupos" consiste na superposição desses círculos, desses "conjuntos
boleanos" a que algumas pessoas "pertenceriam" e outras não (como se
"pertencer" a um "grupo" consistisse em levar um boletim de identidade
no cérebro), a ligação (mais ou menos débil ou forte) entre redes descansa no agir dos
indivíduos em mais de um esquema de relações bi-direccionais. Contrastem-se estas duas
representações dos "grupos" e das redes:
A transmissão da língua e da cultura ao
longo destas redes só ocorre e só pode ocorrer a meio das práticas sociais,
que são sempre, práticas de intercâmbio de algo: actividades conjuntas,
conversas, o empréstimo dum objecto cultural (livro, revista, música, software), que
adquire assim um valor simbólico: não é só o livro físico o que se troca, mas o que
contém, e até parte da história do seu itinerário de circulação. Por
exemplo, amiúde estamos tentados a aceitarmos mais facilmente um objecto cultural que
chega de uma pessoa "de confiança" do que o mesmo objecto se chegasse dum
desconhecido ou dum "adversário", porque o objecto transporta com ele o
simbolismo duma cadeia de relações. Certas seitas religiosas sabem isto muito
bem!: deixam-che na casa um livrinho, que nem lêes, mas que é pretexto simbólico para a
breve conversa que tivestes na porta e para futuras conversas esperáveis sobre o mesmo
pretexto. A Opus Dei totemiza o seu Camino como objecto de troca, e nos grupos
dos partidos marxistas circulava e/ou circula o Livro Vermelho de Mao, o Que
Fazer, o Marta Harnecker...
A "osmose" na naturalização social
da língua é fruto, portanto, da circulação de recursos (incluída a língua) entre
participantes duma rede social, e da sua eventual passagem para outras redes. Por
isso, a presença de materiais lusófonos e lusógrafos nos locais sociais (já não
materiais "galegos", mas galego-portugueses) é, como veremos, crucial para a
transmissão do reintegracionismo.
Acho que é fácil, portanto, compreender a
função da circulação de recursos quando estes são materiais. Ora bem, como
entra especificamente o recurso e prática da fala neste processo? Visto que a
fala não é "material" (as palavras têm uma base física acústica, claro, mas
não são permanentes), como se "distribui" então a fala ao longo das redes? E
para que serve?
Com efeito, quando eu falo em
galego-português ("galego reintegrado") não transmito materialmente
nada: depois de escutar-me, o meu ouvinte não "possui" materialmente nada novo.
Se era dominantemente espanhol-falante, não deixa de ter esta competência em espanhol.
E, sim, se era também galego-falante, aspectos da minha competência --um uso
linguístico, uma construção, um pedaço de calão-- podem ser assimilados por ele/a, e
repetidos posteriormente. Mas nada disto é material. Em função de que processo social,
então, podem estes actos de fala contribuir para espalhar o idioma entre falantes não
habituais, se, afinal, a escolha de um ou outro idioma vai continuar a ser um acto individual?
Um livro em português que nos emprestaram há que devolvê-lo, e contribuir assim para o
reforçamento das relações de rede. Mas, uma conversa escutada em português há que
devolvê-la também?
É aqui onde entra a noção de prática
social, e da fala como prática. Frente a um acto individual (como
escovar-se os dentes, por exemplo), uma prática social é um acto que manifesta
valores colectivos, sempre interpretáveis no contexto (modernidade ou
"tradição", utilidade ou inutilidade, camaradagem ou hostilidade, normalidade
ou anormalidade, urbanidade ou ruralidade, resistência ou acomodação, poder ou
subalternidade), manifesta também ideologias e fragmentos de identidade(s), relaciona
indivíduos e portanto cria e reforça redes, e (de maneira fundamental) cria
expectativas sobre as próprias formas das relações futuras, incluída a língua
utilizada. Por exemplo, se certa conversa de grupo se desenvolveu majoritariamente em
galego, a língua associa-se de maneiras subsconscientes a outros componentes da
situação: as pessoas, o lugar, o momento, o tema, o tom ou "humor" geral, os
objectos manipulados como recursos (bebida ou comida, revistas), etc.
Neste sentido, é frequente --e por isso é
fundamental para a naturalização do idioma-- o facto de a língua utilizada numa
primeira interacção com uma pessoa ser com frequência a língua dominante dessa
relação, quer dizer, desse fragmento de rede. O interlocutor associa
aspectos da prática do falante com o contexto, e também com aspectos da
"identidade" do outro falante e da sua "ideologia" (dos valores que
dão certo tipo de coerência aos seus actos). Certo, a "identidade" não
pré-existe: não somos o que "somos", mas o que fazemos que somos
("somos" muitas cousas à vez, mas fazemos-ser algumas destas cousas
selectivamente). E, certo, a "ideologia" não se vê: faz-se também,
através das práticas. Mas, precisamente por isso, na mente do nosso interlocutor (que é
onde se constrói o social), geram-se expectativas não só sobre como nos vamos
comportar no próximo encontro (que práticas vamos levar a cabo), mas também sobre quais
serão as próprias práticas sociais mais adequadas dele ou ela. E assim, em
encontros posteriores, o que se vai "trocar" entre as pessoas vão ser também
as palavras que se ajeitem a essas expectativas de conduta. Inclusive nos casos em que
ambas pessoas sejam no fundo (por extracção linguística) espanhol-dominantes, se a sua
primeira conversa foi em galego, é muito possível que esta prática do galego se
mantenha entre eles... se o contexto continua a ser favorável.
Mas, o que fazer precisamente para que esse
contexto continue a ser favorável? Porque, o que acontece numa situação bastante
gueotizada do galego, é que as ligações entre o conjunto de redes jovens
galegófonas e o conjunto de redes sobretudo hispanófonas são muito débeis. Quer
dizer: Existe uma "fronteira" na ordem sociolinguística que consiste em que
amiúde as práticas galegófonas dos locais sociais e outros âmbitos restritos não
transcende para outros âmbitos porque não há suficiente fluídez e superposição de
redes: numa cidade, os poucos jovens galegófonos reintegracionistas são simultaneamente
membros da mesma associação cultural, do mesmo grupo de amigos, do mesmo grupo
político. Fazem-se, portanto, redes densas (e intensas), mas pouco ligadas com outras. Os
contactos com outros tipos de pessoas são mais débeis e ocasionais. E, embora a prática
monolíngue continue fora da rede "guetoizada" por parte dos indivíduos, não
existe Aí Fora (fora das paredes do local social) suficiente densidade de
práticas galego-falantes como para produzir a "osmose". Por contra, os outros
"guetos" dos jovens espanhol-falantes que se reúnem noutros lugares não são
tão guetos: as suas práticas (a língua) encontram-se e contribuem para consolidar outras
redes sociais: familiares, profissionais, do mundo público, e, sobretudo, da grande rede
social que é o imaginário colectivo de "España".
A questão fulcral, portanto, é como
ampliarmos gradualmente as mais escassas redes jovens onde domina o galego, e conseguirmos
que a fala e os recursos de língua associados (escrita, música, cinema, software)
ultrapassem essa fronteira invisível. A questão não é só que os locais sociais
cresçam por dentro, mas que as suas práticas e significados saiam fora. Estas
duas gráficas poderiam representar idealmente o começo do processo:
Em circunstâncias favoráveis, com o
estabelecimento de novos contactos pola rede lusófona, a prática da fala deveria
estender-se. Nas circunstâncias mais desfavoráveis, não aconteceria nada novo. Mas uma
cousa é evidente: a fluidez entre redes não pode ser negativa para a lusofonia,
pois em geral a prática monolíngue entre essas redes está tão assente que, a partir
desses centros de irradiação da língua, não haveria risco de experimentar o processo
contrário (assimilação ao espanhol).
Para favorecer este processo ideal, a circulação
de recursos que acompanha a fala lusófona deve ser suficientemente captivante para
os membros das outras redes como para que, de pouco a pouco, poda ser alternativa
efectiva às culturas anglófona e hispanófona dominante. Deve produzir-se uma
identificação crescente entre estes recursos lusófonos e o imaginário da
"Galiza", e, mais ainda, da "Galiza jovem" (e mais ainda, duma Galiza
internacional!), sem por isto exigir uma total viragem na adscrição social
(identificação) dos neo-falantes. O negativo "efeito gueto" reforça-se quando
determinada prática (a fala lusófona) vai indefectivelmente unida a uma dada
"ideologia" e a uma dada "identidade" que se tornam em contra-senhas
de adscrição. Por exemplo, quando um neo-falante potencial não compartilha aspectos
importantes das "ideologias" e "identidades" dos seus interlocutores
numa rede galegófona fechada, e quando estes valores estão ferreamente unidos à
prática da língua, pode ser mais fácil para o neo-falante potencial assinalar e
destacar o seu posicionamento não mudando de língua: mantendo-se no espanhol.
E, de maneira complementar (ainda que poda soar paradoxal), em circunstâncias
específicas a prática monolíngue em galego sem fissuras perante um neo-falante
potencial pode não ser a melhor táctica para um necessário reconhecimento mútuo
e posterior convergência na lusofonia: falar a linguagem da outra pessoa às
vezes transcende falar numa língua dada, e certos usos muito pontuais e simbólicos do
espanhol podem favorecer uma inicial linguagem comum.
Em conclusão, é tarefa das associações de
base e locais sociais desenharem as tácticas concretas para a consolidação, alargamento
e ligação das redes lusófonas habituais, também fora dos locais. Para
começar, precisa-se, acho eu, duma quantidade maciça de materiais lusófonos e
lusógrafos atraentes que veiculem as relações sociais, face a obter-se uma maior
visibilidade da língua como referente natural das culturas urbanas. É
importante, por exemplo, que destes materiais se vá destilando e utilizando a necessária
linguagem específica (o calão jovem) que veicule novas relações de rede. Estas
utilizações simbólicas das gírias luso-brasileiras, inseridas na fala galega e até no
espanhol, invocam inconscientemente um distinto imaginário.
E para isto também se precisa, sem dúvida,
da articulação efectiva com outras redes lusófonas sólidas ali onde se dão
com toda naturalidade: em Portugal (por pura proximidade geográfica e social). O
intercâmbio de actividades e visitas de pessoas com outros locais sociais e associações
de base de Portugal, por exemplo, seria um bom instrumento para as associações
contribuírem para a construção dum novo imaginário com base real (não apenas
mítica), talvez mais efectivo do que qualquer umbiguista acto minoritário no que estão
ou estamos os de sempre.
Apesar de que dalgumas perspectivas se queira
negar, do que estamos a falar é em definitivo do contributo "de abaixo" para a construção
duma língua nacional, até quando por ideologia se recuse chamá-la assim. Porque
uma língua nacional não é a língua duma "nação": é uma língua internacional.
Evidentemente, sem trabalho de elite "de acima" por parte das instituições,
partidos e "grupos" (quer dizer: redes!) dirigentes, nunca haverá língua
nacional neste país. Mas, se por acaso se está a caminhar nessa direcção, quando a
situação madurar (digamos, daqui em vinte anos), se não houvo antes caldo de cultivo
"de abaixo", poderá existir tal vazio de língua portuguesa nos grupos
mais jovens que se encontrará majoritariamente ainda mais resistência a ela do que
agora.
Mas esse é um segundo capítulo por escrever.
Se há interesse, também o podemos debater.
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