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Opiniom Osmose e redes sociais na transmissão da língua: O papel dos locais sociais
Segunda, 1 Março 2004 (10:37)

Celso Álvarez Cáccamo

Celso Alvarez Cáccamo
29 Fevereiro 2004

Assistim ontem a parte do interessante I Fórum da Língua organizado polo Movimento Defesa da Língua, com a presença de numerosos colectivos luso-reintegracionistas do país. Estivem como público nas sessões sobre ensino obrigatório da língua, e sobre locais sociais. Uma das preocupações condutoras do que ali se falou referia-se, naturalmente, à questão central do luso-reintegracionismo: como espalhar o uso da língua! Isto foi explícito na intervenção de Ignácio Orero, o representante da Fundaçom Artábria na mesa sobre locais sociais: ele perguntou retoricamente pola (inexistente) "fórmula mágica" para promover a ré-galeguização. [+...]


A experiência comum relatada por várias associações é que a tímida transmissão do idioma entre os jovens espanhol-falantes ou neo-falantes que acodem aos locais se dá por "osmose", e que uma "osmose" semelhante se dá também entre os própios activistas da língua nos locais, que vão incorporando-se ao luso-reintegracionismo gradualmente, por pura "naturalidade"

Com efeito, esta "osmose" é parte consubstancial no processo de naturalização social do idioma. Mas, em que consiste exactamente este processo, do ponto de vista sociolinguístico? Como se pode incidir nele? Como se pode acelerar a transmissão no trabalho de base?

Para abordar este processo, é fundamental compreendermos, focarmos e privilegiarmos a noção de rede social ou retícula social, e compreendermos também o valor da língua como recurso transmitido socialmente. Uma rede social é um conjunto de pessoas ligadas por relações sociais mais ou menos habituais, e conectada com outras redes por linhas mais ou menos fortes ou débeis de relação também social. Cada pessoa faz parte de múltiplas redes sociais interligadas. Teoricamente, cada um(a) de nós pode ser concebido/a como o centro de uma rede, que conecta com outras. Frente à noção de grupo, que destaca o indeterminado (um "grupo" é como um conjunto de pontinhos movendo-se soltos dentro dum círculo, dum "conjunto boleano"), a noção de rede destaca a relação e a troca e circulação de recursos: materiais (como objectos, bens) e simbólicos (valores culturais, ideologia, língua). Uma rede pode ser vista, assim, como um conjunto de pontinhos (pessoas) ligados por linhas que simbolizam a sua interacção mais ou menos habitual ou mais ou menos frequente. A maior interacção entre as pessoas, maior reforçamento das linhas de relação. E, enquanto o solapamento de "grupos" consiste na superposição desses círculos, desses "conjuntos boleanos" a que algumas pessoas "pertenceriam" e outras não (como se "pertencer" a um "grupo" consistisse em levar um boletim de identidade no cérebro), a ligação (mais ou menos débil ou forte) entre redes descansa no agir dos indivíduos em mais de um esquema de relações bi-direccionais. Contrastem-se estas duas representações dos "grupos" e das redes:

A transmissão da língua e da cultura ao longo destas redes só ocorre e só pode ocorrer a meio das práticas sociais, que são sempre, práticas de intercâmbio de algo: actividades conjuntas, conversas, o empréstimo dum objecto cultural (livro, revista, música, software), que adquire assim um valor simbólico: não é só o livro físico o que se troca, mas o que contém, e até parte da história do seu itinerário de circulação. Por exemplo, amiúde estamos tentados a aceitarmos mais facilmente um objecto cultural que chega de uma pessoa "de confiança" do que o mesmo objecto se chegasse dum desconhecido ou dum "adversário", porque o objecto transporta com ele o simbolismo duma cadeia de relações. Certas seitas religiosas sabem isto muito bem!: deixam-che na casa um livrinho, que nem lêes, mas que é pretexto simbólico para a breve conversa que tivestes na porta e para futuras conversas esperáveis sobre o mesmo pretexto. A Opus Dei totemiza o seu Camino como objecto de troca, e nos grupos dos partidos marxistas circulava e/ou circula o Livro Vermelho de Mao, o Que Fazer, o Marta Harnecker...

A "osmose" na naturalização social da língua é fruto, portanto, da circulação de recursos (incluída a língua) entre participantes duma rede social, e da sua eventual passagem para outras redes. Por isso, a presença de materiais lusófonos e lusógrafos nos locais sociais (já não materiais "galegos", mas galego-portugueses) é, como veremos, crucial para a transmissão do reintegracionismo.

Acho que é fácil, portanto, compreender a função da circulação de recursos quando estes são materiais. Ora bem, como entra especificamente o recurso e prática da fala neste processo? Visto que a fala não é "material" (as palavras têm uma base física acústica, claro, mas não são permanentes), como se "distribui" então a fala ao longo das redes? E para que serve?

Com efeito, quando eu falo em galego-português ("galego reintegrado") não transmito materialmente nada: depois de escutar-me, o meu ouvinte não "possui" materialmente nada novo. Se era dominantemente espanhol-falante, não deixa de ter esta competência em espanhol. E, sim, se era também galego-falante, aspectos da minha competência --um uso linguístico, uma construção, um pedaço de calão-- podem ser assimilados por ele/a, e repetidos posteriormente. Mas nada disto é material. Em função de que processo social, então, podem estes actos de fala contribuir para espalhar o idioma entre falantes não habituais, se, afinal, a escolha de um ou outro idioma vai continuar a ser um acto individual? Um livro em português que nos emprestaram há que devolvê-lo, e contribuir assim para o reforçamento das relações de rede. Mas, uma conversa escutada em português há que devolvê-la também?

É aqui onde entra a noção de prática social, e da fala como prática. Frente a um acto individual (como escovar-se os dentes, por exemplo), uma prática social é um acto que manifesta valores colectivos, sempre interpretáveis no contexto (modernidade ou "tradição", utilidade ou inutilidade, camaradagem ou hostilidade, normalidade ou anormalidade, urbanidade ou ruralidade, resistência ou acomodação, poder ou subalternidade), manifesta também ideologias e fragmentos de identidade(s), relaciona indivíduos e portanto cria e reforça redes, e (de maneira fundamental) cria expectativas sobre as próprias formas das relações futuras, incluída a língua utilizada. Por exemplo, se certa conversa de grupo se desenvolveu majoritariamente em galego, a língua associa-se de maneiras subsconscientes a outros componentes da situação: as pessoas, o lugar, o momento, o tema, o tom ou "humor" geral, os objectos manipulados como recursos (bebida ou comida, revistas), etc.

Neste sentido, é frequente --e por isso é fundamental para a naturalização do idioma-- o facto de a língua utilizada numa primeira interacção com uma pessoa ser com frequência a língua dominante dessa relação, quer dizer, desse fragmento de rede. O interlocutor associa aspectos da prática do falante com o contexto, e também com aspectos da "identidade" do outro falante e da sua "ideologia" (dos valores que dão certo tipo de coerência aos seus actos). Certo, a "identidade" não pré-existe: não somos o que "somos", mas o que fazemos que somos ("somos" muitas cousas à vez, mas fazemos-ser algumas destas cousas selectivamente). E, certo, a "ideologia" não se vê: faz-se também, através das práticas. Mas, precisamente por isso, na mente do nosso interlocutor (que é onde se constrói o social), geram-se expectativas não só sobre como nos vamos comportar no próximo encontro (que práticas vamos levar a cabo), mas também sobre quais serão as próprias práticas sociais mais adequadas dele ou ela. E assim, em encontros posteriores, o que se vai "trocar" entre as pessoas vão ser também as palavras que se ajeitem a essas expectativas de conduta. Inclusive nos casos em que ambas pessoas sejam no fundo (por extracção linguística) espanhol-dominantes, se a sua primeira conversa foi em galego, é muito possível que esta prática do galego se mantenha entre eles... se o contexto continua a ser favorável.

Mas, o que fazer precisamente para que esse contexto continue a ser favorável? Porque, o que acontece numa situação bastante gueotizada do galego, é que as ligações entre o conjunto de redes jovens galegófonas e o conjunto de redes sobretudo hispanófonas são muito débeis. Quer dizer: Existe uma "fronteira" na ordem sociolinguística que consiste em que amiúde as práticas galegófonas dos locais sociais e outros âmbitos restritos não transcende para outros âmbitos porque não há suficiente fluídez e superposição de redes: numa cidade, os poucos jovens galegófonos reintegracionistas são simultaneamente membros da mesma associação cultural, do mesmo grupo de amigos, do mesmo grupo político. Fazem-se, portanto, redes densas (e intensas), mas pouco ligadas com outras. Os contactos com outros tipos de pessoas são mais débeis e ocasionais. E, embora a prática monolíngue continue fora da rede "guetoizada" por parte dos indivíduos, não existe Aí Fora (fora das paredes do local social) suficiente densidade de práticas galego-falantes como para produzir a "osmose". Por contra, os outros "guetos" dos jovens espanhol-falantes que se reúnem noutros lugares não são tão guetos: as suas práticas (a língua) encontram-se e contribuem para consolidar outras redes sociais: familiares, profissionais, do mundo público, e, sobretudo, da grande rede social que é o imaginário colectivo de "España".

A questão fulcral, portanto, é como ampliarmos gradualmente as mais escassas redes jovens onde domina o galego, e conseguirmos que a fala e os recursos de língua associados (escrita, música, cinema, software) ultrapassem essa fronteira invisível. A questão não é só que os locais sociais cresçam por dentro, mas que as suas práticas e significados saiam fora. Estas duas gráficas poderiam representar idealmente o começo do processo:

Em circunstâncias favoráveis, com o estabelecimento de novos contactos pola rede lusófona, a prática da fala deveria estender-se. Nas circunstâncias mais desfavoráveis, não aconteceria nada novo. Mas uma cousa é evidente: a fluidez entre redes não pode ser negativa para a lusofonia, pois em geral a prática monolíngue entre essas redes está tão assente que, a partir desses centros de irradiação da língua, não haveria risco de experimentar o processo contrário (assimilação ao espanhol).

Para favorecer este processo ideal, a circulação de recursos que acompanha a fala lusófona deve ser suficientemente captivante para os membros das outras redes como para que, de pouco a pouco, poda ser alternativa efectiva às culturas anglófona e hispanófona dominante. Deve produzir-se uma identificação crescente entre estes recursos lusófonos e o imaginário da "Galiza", e, mais ainda, da "Galiza jovem" (e mais ainda, duma Galiza internacional!), sem por isto exigir uma total viragem na adscrição social (identificação) dos neo-falantes. O negativo "efeito gueto" reforça-se quando determinada prática (a fala lusófona) vai indefectivelmente unida a uma dada "ideologia" e a uma dada "identidade" que se tornam em contra-senhas de adscrição. Por exemplo, quando um neo-falante potencial não compartilha aspectos importantes das "ideologias" e "identidades" dos seus interlocutores numa rede galegófona fechada, e quando estes valores estão ferreamente unidos à prática da língua, pode ser mais fácil para o neo-falante potencial assinalar e destacar o seu posicionamento não mudando de língua: mantendo-se no espanhol. E, de maneira complementar (ainda que poda soar paradoxal), em circunstâncias específicas a prática monolíngue em galego sem fissuras perante um neo-falante potencial pode não ser a melhor táctica para um necessário reconhecimento mútuo e posterior convergência na lusofonia: falar a linguagem da outra pessoa às vezes transcende falar numa língua dada, e certos usos muito pontuais e simbólicos do espanhol podem favorecer uma inicial linguagem comum.

Em conclusão, é tarefa das associações de base e locais sociais desenharem as tácticas concretas para a consolidação, alargamento e ligação das redes lusófonas habituais, também fora dos locais. Para começar, precisa-se, acho eu, duma quantidade maciça de materiais lusófonos e lusógrafos atraentes que veiculem as relações sociais, face a obter-se uma maior visibilidade da língua como referente natural das culturas urbanas. É importante, por exemplo, que destes materiais se vá destilando e utilizando a necessária linguagem específica (o calão jovem) que veicule novas relações de rede. Estas utilizações simbólicas das gírias luso-brasileiras, inseridas na fala galega e até no espanhol, invocam inconscientemente um distinto imaginário.

E para isto também se precisa, sem dúvida, da articulação efectiva com outras redes lusófonas sólidas ali onde se dão com toda naturalidade: em Portugal (por pura proximidade geográfica e social). O intercâmbio de actividades e visitas de pessoas com outros locais sociais e associações de base de Portugal, por exemplo, seria um bom instrumento para as associações contribuírem para a construção dum novo imaginário com base real (não apenas mítica), talvez mais efectivo do que qualquer umbiguista acto minoritário no que estão ou estamos os de sempre.

Apesar de que dalgumas perspectivas se queira negar, do que estamos a falar é em definitivo do contributo "de abaixo" para a construção duma língua nacional, até quando por ideologia se recuse chamá-la assim. Porque uma língua nacional não é a língua duma "nação": é uma língua internacional. Evidentemente, sem trabalho de elite "de acima" por parte das instituições, partidos e "grupos" (quer dizer: redes!) dirigentes, nunca haverá língua nacional neste país. Mas, se por acaso se está a caminhar nessa direcção, quando a situação madurar (digamos, daqui em vinte anos), se não houvo antes caldo de cultivo "de abaixo", poderá existir tal vazio de língua portuguesa nos grupos mais jovens que se encontrará majoritariamente ainda mais resistência a ela do que agora.

Mas esse é um segundo capítulo por escrever. Se há interesse, também o podemos debater.

Nota: Pode fazer descarga do arquivo em formato pdf aqui ou ainda pode lê-lo em formato html aqui.



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Re: Osmose e redes sociais na transmissão da língua: O papel dos locais sociais (Pontuaçom: 0)
por Visitante em Segunda, 1 Março 2004 (11:08)
Acho este artigo simplesmente fantástico.Há tempo que andamos a dizer que precisamos de uma teoria da praxe, ou não sei muito bem se uma "sócio-didáctica linguística aplicada" ao caso da Galiza, e artigos como este contribuem para que as pessoas que andamos a trabalhar no ámbito do reintegracionismo de base sejamos capazes de estruturar um discurso que oriente o que há tempo que andamos a fazer, nem sempre com a ideia clara do que realmente estamos a fazer e para que serve.

Os meus parabéns e agradecimento ao Celso, e também ao PGL pola celeridade e o esforço do seu trabalho.

Afinal, pode ser que @s "lusópatas" não estejamos unid@s sob as mesmas siglas, mas irremediavelmente, o conjunto dos esforços acaba por beneficiar o colectivo.



Re: Osmose e redes sociais na transmissão da língua: O papel dos locais sociais (Pontuaçom: 0)
por Visitante em Segunda, 1 Março 2004 (15:27)
Celso es um farsante, sociolinguística? é sentido comum! o que se passa que o coeficiente intelectual do galego médio... temo-lo bem fraquinho...
É brincadeira.
Obrigado por abrir-nos olhos nalgo que era evidente...
Parece que temos que tingir as terápias de genialidade científica para nos dar conta dw que são úteis. Afortunadamente há gente que as codifica para que as possamos usar.
A ver se aceleramos...



obrigado (Pontuaçom: 0)
por Visitante em Segunda, 1 Março 2004 (20:00)
Apenas agradecer a Celso o seu contributo.

Valentim



Extenso, mas bom. (Pontuaçom: 0)
por Visitante em Segunda, 1 Março 2004 (21:10)
Se quadra o texto é mais extenso do necessário (opinião pessoal), mas apesar desse defeito, a claridade da exposição (agradecem-se os gráficos) faz difícil perder-se. E acho que um dos comentários de aqui acima tem razão quando afirma que é de sentido comum o que pões, mas nem sempre o evidente é visto :)

Cumprimentos (e obrigado).

Edu
--//-



Sentido comum, ma non troppo (Pontuaçom: 0)
por Visitante em Terça, 2 Março 2004 (0:28)
Obrigado a tod@s polos comentários.

Bom, é de "sentido comum" que a fala se distribui socialmente. Mas oxalá o fosse para um verdadeiro "plano de normalização" do idioma! Porque amiúde se essencializa tanto a língua que não se vêem as árvores.

A noção de rede ultrapassa e tem mais implicações do que está brevemente exposto aqui. Por exemplo, a distinção entre redes abertas e fechadas é fundamental para compreendermos a introdução do espanhol nos âmbitos urbanos com o crescente processo de urbanização (=desruralização). E a distinção entre redes "simplex" e "multiplex" também o é para compreendermos a pervivência do idioma nos âmbitos rurais durante séculos. E, por último, a concepção das comunidades como conjuntos de redes ajuda a distinguirmos entre uma *comunidade de fala* (aquela que está composta por redes onde circula polo menos uma variedade linguística comum) de *comunidade linguística* ou *de língua* (o conjunto de *usuários* dum idioma, estejam onde estejam).

Assim, a Galiza constitui uma *comunidade de fala*, mas não está ligada à comunidade de fala (de interacção frequente) de Portugal ou Brasil, embora os três países fagam parte da mesma *comunidade linguística*. Eis a fronteira que o movimento lusofónico deve romper também.

Grande parte da sociolinguística galega, e quase toda a "oficial", foca-se nos construtos de "comunidade linguística" sem descer aos usos reais da fala. O "Plan Xeral de Normalización da Lingua Galega", por exemplo, que tivem a oportunidade de conhecer, não aborda absolutamente para nada o *como* da expansão do "galego", porque não trata a língua como uma prática social.

Esta visão interaccional das comunidades de fala provém em última instância de Bloomfield, via Gumperz e Milroy. Se interessarem as referências, cito-as.

-celso



Re: Osmose e redes sociais na transmissão da língua: O papel dos locais sociais (Pontuaçom: 0)
por Visitante em Terça, 2 Março 2004 (10:18)
bravo bravo!
tanto polo conteudo como pola rapidez com que chega este texto. Como faláramos o outro dia ao final da mesa, realmente precisamos este tipo de artigos, por favor, mais!
Bravo de novo, e obrigadão.

Germám



Redes "reintegracionistas" e "isolacionistas" (Pontuaçom: 0)
por Visitante em Quarta, 3 Março 2004 (16:27)
Jesus Requena pergunta:

"Um corolário um pouco espinhento que acho se deriva da tua discossom é o que fazer á respeito das redes "isolacionistas". Estas redes som de muito fácil penetraçom e propícias á osmose, como demostra o facto de quasi todos os/as luso-reintegracionistas terem sido "isolacionistas" inicialmente (activa ou passivamente), eis o meu caso. Opinas que umha táctica máis flexível (como quando falas dumha prática nom monolingue com os hispanofalantes) seria ajeitada? Eu acho que amiude a actitude dominante nos círculos (redes) luso-reintegracionistas é a contrária."

Bom, polo que eu entendo, realmente nos locais sociais "galegófonos" convivem falantes de todo tipo: os que se identificam com o reintegracionismo como projecto, e os que se identificam com a política linguística oficial e para-institucional, isolacionista (embora eles não o chamem assim, claro). Mas na fala as diferenças entre uns e outros são mínimas, e não tenho observado que certos traços identificadores (morfologia em "-ção", formas verbais, etc.) tenham um grande papel unificador ou separador de redes. Por contra, em conjunto a fala monolingue "monitorizada", que se chama (aquela onde há uma consciência de regularidade) é a que divide mais os grupos galego-falantes: aqueles que "possuem" (possuimos) a língua como objecto, falamos dela, e lhe assignamos um papel central, e aqueles que falam variedades altamente castelhanizadas, ou rurais, não-padrão. Por exemplo, no meu vecindário e no meu prédio ninguém me identificaria como "reintegracionista", até porque nem sempre "falo em -ção" ou em "-ível".

Por isso a identificação entre redes e sub-redes "isolacionistas" ou "lusistas", acho eu, dá-se sobretudo através da escrita. E aqui, em geral (em geral), não está o forno para bolos como para que realmente as minorias sociais alfabetizadas activamente em galego-castelhano ou galego-português andemos a estabelecer fronteiras absolutas na prática. Seria impossível, por exemplo, nem ler algum material de jornais ou semanários simplesmente porque está na norma RAG. No seio de certas associações, sim, é evidente que há claras hegemonias. Mas no fundo, apesar do conflito entre ambos campos, sabemos que há algo em jogo que ultrapassa estas evidentes diferenças.

E este facto, acho eu, deve jogar e joga precisamente no nosso favor, no do galego-português escrito. Há que aproveitar (como acontece já em alguns locais sociais) a confluência com o isolacionismo em certas tarefas galeguizadoras, promovendo que se dê nos neo-falantes uma associação entre FALAS GALEGAS e ESCRITA GALEGO-PORTUGUESA com toda naturalidade, como relatavam alguns/algumas representantes dos locais sociais. E esta associação deve dar-se polo protagonismo no activismo linguístico que levem adiante as pessoas luso-reintegracionistas, a meio da difusão de materiais ESCRITOS, DOCUMENTANDO esta relação fala galega-escrita portuguesa, até quando pareça supérfluo. Por exemplo, se há um concerto, passar aos assistentes uma pequena folha em português com o programa do acto, mesmo se são quatro palavras. Por exemplo, onde possível, fazendo uma "mailing list" para @s associad@s duma agrupação, ora em papel impresso, ora virtual (uma lista electrónica), para informar dos eventos EM PORTUGUÊS (por exemplo, elegendo servidores de grupos electrónicos em português, correios gratuítos em português, etc.). Por exemplo, privilegiando os materiais LUSÓGRAFOS das bibliotecas. Por exemplo, pondo as listas de preços e ementas (se há) dos bares dos locais em português. Por exemplo, rotulando as informações que houver que rotular em português. E assim por diante.

Portanto, as "redes" isolacionistas verão-se envolvidas num "reintegracionismo" do ambiente. Disso se trata.

Não sei se me expliquei.

Saúde,

-celso



Atentados literários (Pontuaçom: 0)
por Visitante em Quarta, 3 Março 2004 (20:42)
Aqui no Brasil, uma emissora de TV fez uma campanha, há alguns meses, para incentivar a leitura na população em geral. A campanha, chamada "Atentados Literários" consistia em que as pessoas deixassem livros não mais usados ou consultados em locais públicos, para que outras pessoas os pegassem e lessem.
Que tal se fizésseis atentados de tal natureza aí, com obras em escrita galego-portuguesa ou mesmo portuguesa? Boas obras e bons escritores é o que não falta na nossa lusofonia, e também, por que não, boas traduções.
Obras de apelo à juventude poderiam ter um forte efeito nesse aspecto. Bom, apenas uma idéia.


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