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Reportagens Díaz Pardo insiste: “O galego está a morrer; se nom se abrir à naçom irmá, que pode sustentá-lo, nom vai ficar em nada”
Sábado, 22 Março 2008 (7:00)

Entrevista completa ao galeguista cedida polo Novas da Galiza

PGL - Meses depois da publicaçom de Tentando Construir uma Esfinge de Pedra, reproduzimos a entrevista completa realizada ao autor polo jornal reintegracionista no número de Fevereiro, umha vez que nesta publicaçom foi avançada umha versom resumida da mesma. Sempre interessantes, as declaraçons do polígrafo galego voltam a surpreender pola sua dimensom e sinceridade, reflexo de umha personalidade insubornável.
[+...]

Sole Rei - Após toda umha vida de trabalho em prol da cultura da Galiza, nos últimos meses Isaac Díaz Pardo tem saltado às páginas de todos os jornais devido ao conflito desatado no seio da empresa que ele próprio fundou e que agora lhe vira as costas: Sargadelos.

Os apoios e os reconhecimentos polo caminho andado nom tardaram a chegar-lhe de todos os cantos da Galiza, por meio de artigos, abaixo-assinados, concentraçons e mesmo fóruns de informaçom e debate.

Na mesma tarde em que devia ir recolher a Medalha de Ouro da cidade de Compostela, como reconhecimento ao trabalho do Museu do Povo Galego, que também preside, e na semana em que colectivos de ideologia espanholista começaram mobilizaçons polos direitos dos castelhano-falantes e contra iniciativas como a implantaçom nas escolas de 50% de cadeiras em galego, o Novas da Galiza foi conversar com este homem, que já tratou figuras como Castelao, Seoane ou Branco Amor, sobre o futuro idiomático do País.

Em Setembro Edicións do Castro publicou Tentando construir uma esfinge de pedra e, para além de outras consideraçons chama a atençom a normativa escolhida para a escrita do livro. Quais som os motivos para essa aposta no reintegracionismo lingüístico?

Eu vou para os 88 anos, e sempre fum um pouco reintegracionista. E bom, estas cousas, afinal… pois és reintegracionista. Creio que é o meu dever moral fazê-lo assim. Acho que para a Galiza, Portugal ficou com a nossa língua, e devíamos, cria-o também Castelao, voltar outra vez a nos integrarmos.

Nom a isso que se di lusista, a falar em português… nom. Porque os portugueses também teriam que reintegrar muito, teriam que reintegrar muito porque tenhem muita influência do castelhano, do francês, de muitas cousas. Mas nós, sobretodo, temos que familiarizar-nos com o Norte de Portugal. E isso é mais importante do ponto de vista económico que já do da lingüística.

Mas ademais, se o galego está a morrer, se nom se abre à naçom irmá que pode sustentá-lo, que pode continuar, pois nom vai ficar em nada. Ficará como umha língua clássica, como o latim, que se estudará nas universidades, umha língua litúrgica, e mais nada. Nós estamos a ver que a gente cada vez fala menos galego. E as empresas geralmente nom som galegas, entom a gente procura um trabalho numha empresa e, se falarem castelhano, fala castelhano.

Esta é a cousa. Entom eu cuido que haveria que fechar a porta a Castela; refiro-me às instituiçons da língua como a Academia Galega… Eu levo-me mui bem com os da Academia Galega, porque umha cousa nom tem a ver com a outra: umha cousa é o que pense eu como ideal e outra cousa é o que me vejo obrigado a fazer para conviver. E creio que a Academia Galega fai moi bem em todas as cousas, menos na da língua galega.

Pois pouco mérito lhe concedemos entom…

(risos) Porque, claro, abre as portas de Castela, tem abertas as portas de Castela e tem fechadas as do reintegracionismo. E claro, todos os demais que tenhem interesses por ali, pois vam por onde lhes convém, compreende? As instituçons autonómicas fam o mesmo. O Instituto da Língua, também o mesmo. Como se costuma dizer: ‘Onde vás Vicente? Onde vai a gente.’

O facto de publicar em reintegrado é ir um pouco contra a Academia, contra as instituçons e contra o Instituto da Língua…

Polo menos é deixar umha nota aí. Claro que os da Academia me porám verde, e os outros também… Mas, total, dentro de pouco, eu muitos mais anos nom vou viver. Entom, aí fica isso. Este desgraçado deixou-nos isto! Bom, que se lhe vai fazer!

Historicamente as elites culturais ligadas ao galeguismo tenhem estado mais conscientes da importáncia do reintegracionismo; falava há um momento de Castelao, e como ele outros muitos…

Mas Castelao foi esquecido. Fam-lhe umhas estatuas, fam-lhe algumhas cousas… mas o que realmente queria fazer Castelao, isso nom o fam.

E se antigamente existia essa consciência da existência de um tronco comum do galego e do português, em Castelao e noutra gente do seu tempo, qual crê que tenhem sido as mudanças que levárom as elites culturais actuais a defenderem este afastamento?

Em todo se vê que há umha acomodaçom às cousas. Por exemplo, o facto de chamar ao Governo galego ‘Junta’ é um erro. Aos reaccionários interessava chamar-lhe Junta por seguir umha tradiçom que havia.

As Juntas eram os inimigos da Galiza, porque as Juntas nom eram mais do que a representaçom das sete cidades que havia, com dous procuradores por cada cidade: a única funçom que cumpriam era a de arrecadar dinheiro e levas de homens para as guerras. Esta era a funçom que cumpriam as Juntas, e isso era negativo para a Galiza.

Mas claro, aos espanholistas, aos espanholeiros, interessava-lhes continuar com isso. E claro, os políticos, os galeguistas de agora, e os nom galeguistas, fôrom acomodando-se. Assim é.

Falta-nos valor?

E que lhe havemos de fazer? As cousas som assim, e claro, umha pessoa tampouco pode fazer umha revoluçom…

Mas pensa entom que talvez falte um pouco de espírito crítico entre a intelectualidade, o professorado…

Sim, claro. Mas aconteceram muitas cousas. Há que dar-se conta de que o franquismo durou quarenta anos. E umha pessoa passa quarenta anos em Inglaterra e vem falando inglês, ainda que nom queira. E se tem filhos também falam inglês, claro.

Depois está a transiçom que houvo em Espanha. Na Europa varreram o fascismo nazi por todos os lados, e em Portugal a revoluçom dos Cravos varreu também com o salazarismo, mas aqui houvo que transigir. Aqui nom se passou nada. Todos ficaram no seu sítio. Os franquistas ficaram e ficam ainda. Compreende?

E nom digamos na justiça; aí nom se moveu nem um pelo. Os juízes que estivérom a nos perseguir a todos, continuárom a perseguir depois. Isto é assim. E que se lhe vai fazer? Quanto ao idioma, eu digo à Marisol, que me levo mui bem com ela: ‘esta é umha grande mulher que está a fazer todo o possível para o galego morrer, para que fique bem enterrado.’ Ela ri.

Sabia que Marisol López recusou ao Novas da Galiza, enquanto publicaçom em galego, a possibilidade de receber subsídios pola normativa empregada?

Ai é? Ah, claro! Já se sabe, claro. Concedem cousas só a quem convém. Mas som-che assim as cousas, eu nom tenho nada que fazer-lhe. Eu só digo o que há.

Cada ano que passa a Galiza perde maior número de galego-falantes, e nos últimos tempos, estamos mesmo a assistir a umha radicalizaçom das posturas por parte dos espanhol-falantes, que dim sentirem-se agredidos pola língua galega. Pensa que umha aposta no reintegracionismo poderia ajudar a incrementar outra vez o número de galego-falantes?

Bastaria simplesmente com que fechassem a porta do castelhano e abrissem a porta do português. E que deixassem avançar as cousas. Ademais, a Galiza e o norte de Portugal formam umha regiom económica que tinha que ter mais comunicaçom nesse terreno.

Algo se irá fazendo, eu creio que algo se irá fazendo, porque parece ser que há bastante gente da Galiza que vai trabalhar a Portugal, e gente de Portugal que vem trabalhar à Galiza. Se nalgumha circunstáncia determinada isso melhorar, pode haver algumha reacçom.

Entom, talvez fosse precisa umha mudança na orientaçom da política económica, tentar rentabilizar mais a relaçom com Portugal, segundo isso que me di…

Claro. É que, ademais, do ponto de vista económico, por exemplo nas editoriais, teria sido umha grande cousa que se pudessem publicar livros reintegrados, chegando-nos a Portugal, porque abriríamos o mercado.

O mercado da Galiza é um mercado mui pequeno, e as pessoas nom lem. A gente nom lê porque nom está ainda preparada. É um mercado mui pequeno o do livro galego. Entom, o que estamos a fazer é amorear livros nos stocks.

Se nom chegamos a três milhons de pessoas, e ademais esses dous milhons e meio nom lem… somos moi poucos. Eu nom digo que nom haja alguém que leia, mas som mui poucos. No entanto, se nos abríssemos a Portugal haveria 200 milhons de pessoas, e outros possíveis sectores.

Na justificaçom de Tentando Construir uma Esfinge de Pedra di que “os tempos têm mudado no vestuário das cousas, mas os problemas dos homes seguem a ser os mesmos”. Quais esses problemas?

Aqui referia-me aos problemas vitais do homem, a problemas como procurar umha saída à existência, que nom tem saída. As gentes andam à procura de Deus e nom o encontram nengures, porque nom há deus que o encontre, claro.

Para além disso, o drama é que nom temos capacidade para entendermos as cousas; e ponho o exemplo de como nom podemos compreender o infinito. Ninguém pode compreender o infinito. Porque o finito é o que finaliza aqui, porque o infinito é o que nom termina em nengumha parte.

Entom, está visto que se o homem e a mulher dam com que o seu conhecimento nom lhe serve para entender sequer essas cousas, quer dizer que nom entendemos nada, que estamos a sonhar, verdadeiramente.

O librinho todo é umha metáfora. Porque afinal a esfinge quarteia toda (ri). De nada serve que um esteja a trabalhar, que esteja a dar-lhe voltas, que afinal quarteia toda.

Ao longo da sua vida presenciou momentos mui diversos, e alguns mui duros…

Essa é umha história enorme. Somos mui poucos os que ficamos. Somos Paco del Riego, Avelino Pousa Antelo e eu. Quando morrermos os três que estivemos a luitar pola autonomia da Galiza no ano 1936, nom ficará ninguém dessa geraçom. Acabou o testemunho daquela época.

Tivo um papel activo naqueles anos, que valor lhe concede à recuperaçom da memória histórica, e que opiniom lhe merece a maneira em que está a ser encarada na actualidade?

Bom, nós nom figemos mais do que recuperar memória histórica. O que figemos na América, com essa gente que estava ali, essa dúzia de intelectuais, Luís Seoane, Lourenço Varela, Rafael Dieste, Branco Amor, Lois Tobio... enfim, toda esta gente importante, e verdadeiramente todos perguntavam: se algum dia podemos voltar à Galiza, que convém fazer? O que convém fazer é recuperar a memória, porque nos desbarataram muitas cousas: o Seminário de Estudos Galegos, o Movimento renovador da arte galega...

Enfim, destruíram-nos todo, a desfeita do ano 36 foi tremenda e havia que recuperar; e recuperar para que a gente soubesse que foi o que aqui aconteceu. Claro, a memória estivo proibida durante 40 anos. Ninguém podia recuperá-la, ninguém podia dizer: vamos investigar a quem matárom. Nom havia forma.

E nom se trata de recuperá-la de forma revanchista, de querer vingar-se; nom, nada disso. Simplesmente é que a memória há que recuperá-la; senom, vivemos na ignoráncia, se construímos um castelo sem tê-lo apoiado, sem raízes, esse castelo vem abaixo.

Eu e Luís Seoane figemos umha instituiçom que era o Laboratório de Formas, para recuperar memória histórica ao voltarmos aqui. Tratava-se de fazer instituiçons que recuperassem essa memória. Claro, temos muitos inimigos por isso (ri). Porque há muitos que continuam sem querer que se recupere a memória.

Em Edicións do Castro temos umha série que se chama Documentos que está integramente destinada a recuperar a memória, e passa já das 200 publicaçons. E claro, muitos nom gostam de que se recuperem os tempos aqueles. Nom só os que viveram aquela época, tampouco os filhos. E nom há, nom está feito com nengumha intençom de revanchismo, de nengumha maneira.

Pensa que se sentem acusados por este tipo de iniciativas?

Sim. Eu defendim Dionísio Pereira na imprensa quando o levaram perante os tribunais. Em todas as famílias houvo de todo, de um lado e do outro, porque estava mui dividido o País.

É um erro querer recuperar agora a dignidade do meu bisavô se nom se portou bem. Homem, pois que lhe vamos fazer... Mas nom querem falar disso, começando por esse senhor do PP, o Rajoy. A memória histórica para ele é má, já se sabe!



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