A citação serviu-me para documentar que na Galiza do dealbar da Modernidade, a língua castelhana era ainda um bem escasso mas (ou precisamente por isso) socialmente cotizado e cobiçado.
Anos mais tarde, pude ler de primeira mão as referidas
Memórias editadas por Richard Herr
2. Fruto de desordenadas pesquisas, dei ainda com um papel dum filólogo que professava na Universidade de Santiago de Compostela.
No dito papel, que lamentavelmente não posso referenciar com precisão, o filólogo esforçava-se por averiguar se e até que ponto no castelhano usado por Posse na sua autobiografia latiam resíduos de substrato linguístico galego. Apesar dalgum «refaixo» ou dalgum «fole» detectados com acuidade, creio recordar que o resultado da análise filológica foi que não: o padre Posse escrevia num castelhano certinho.
O propósito destas notas não é corrigir nem corroborar a conclusão do filólogo, mas chamar a atenção para certos pormenores que a sua agudeza analítica, absorvida em detectar vestígios de galeguidade, passou por alto.
Nado em Santo Estevo de Soesto (ele dirá San Estévan), perto de Vimianço, filho duma família rústica de posses não medíocres, Juan Antonio Posse é destinado aos estudos eclésiasticos. Depois de aprender a Cartilha com um mestre-escola local, empreende viagem para León, onde o espera um seu tio sacerdote.
Quando sai do país em 1779, é um rapazinho de doze anos e meio que mais tarde se recordará espantado pelo enorme contraste entre a sua terra e o país que o acolhe:
Todos los objetos que veía eran tan diferentes de los de mi tierra, que creí hallarme en un nuevo mundo. Bueyes, carros, montes, árboles, pan, lenguaje, todo se me figuraba y era realmente diverso.
Conservará grata recordação das gentes leonesas, que lhe foram «muy amantes y cariñosas»:
MI LENGUAJE tan diferente del suyo — diz — les agradaba; me preguntaban como se llamaba en mi tierra cada cosa […]. A mi tio no le gustaba esta familiaridad; no sé si esto era por avergonzarse de la gerigonza de su país, o porque no creyesen que me traía hambriento de casa.
O trecho parece-me interessantíssimo por vários motivos. O mais óbvio é que nos mostra que quando sai da Galiza, e apesar dos seus estudos de primeiras letras, Juan Antonio Posse não sabe falar castelhano. Constatamos ainda que Posse não dá nome próprio ao que falava: chama-lhe «linguagem» e, logo a seguir, pondo-se no lugar do tio, «gerigonça». Deveremos presumir que o parente, sendo um sujeito que abrigava tais opiniões a respeito da linguagem nativa do mocinho, não seria a pessoa mais apropriada para lhe incutir sentimentos de lealdade e estima pela língua galega.
Mas, há ainda um outro pormenor, porventura mais interessante: o agrado e a curiosidade cordial que manifestam os leoneses pela fala nativa do rapaz são indícios de que ainda não se instaurara no imaginário da sociedade «espanhola» (passe o anacronismo) a crença na bondade da homogeneidade linguística. Ou, por outras palavras, a superstição moderna da Unlinguismo, que logo em breve o estatalismo se encarregaria de instituir e popularizar, era desconhecida pelos leoneses de finais do século XVIII.
Em León passará três anos a estudar, sob a férula brutal e ineficaz do tio, Gramática (quer dizer, Latim), Lógica e, mais tarde, Filosofia. Não guardará boas lembranças dos seus estudos, que qualifica de «barbárie gótica»:
Se nos enseñaba a hacer silogismos, los predicamentos, las causas finales, la distinción material y formal con otros tratados de física y metafísica, que se tenían por muy importantes. De los meteoros, de la gravedad, del movimiento y demás tratados de verdadera física ni lo entendían los maestros, ni podían explicarlo, porque no se ocupaban sino en ventilar las disputas entre Tomistas y Escotistas y el peripatetismo en todo su rigor.
A despeito das suas inclinações, é enviado para Valhadolid a cursar Teologia. Valhadolid descobre-se-lhe como uma cidade mais refinada e onde se fala melhor castelhano:
Las costumbres y modales de Valladolid eran muy diferentes de las de León, más urbanas, más nobles, más suaves, y las gentes por lo común sumamente cariñosas. Entre los estudiantes había mucha pulidez y elegância, outro lenguaje más castellano y más puro […].
Na Primavera de 1790, empreende, a pé, o regresso à Galiza. Vem ver a terra nativa e os pais:
Todo me parecia diferente de otros tiempos: montes, caminos, sendas, arbustos; todo se había mudado, todos eran objetos diversos de los que había visto y andado; apenas podía crer a mis ojos.
Chegado à «pátria», quer dizer, à aldeia, com os olhos arrasados em lágrimas,
Me senté sin saber lo que hacía, contemplando estos objetos com tanta ternura, cuando una joven que venía a buscar ganado, viéndome lloroso, me saludo com mucho interés y me preguntó por qué lloraba en SU LENGUAJE.
Entre MI LENGUAJE e SU LENGUAJE decorreram onze anos. E, sim, tudo mudara.
Durante a sua estadia na terra, Juan Antonio Posse não se apeará do seu majestoso castelhano, o que lhe conferirá uma auréola de prestígio entre os seus admirados compatriotas:
Yo hablaba castellano, y esto era más que suficiente para primar en una tierra en que todos deseaban saberle, aunque a mí me pareciese incomparable la dulzura y flexibilidad de la lengua gallega, sobre todo en la boca de las mujeres. Por outra parte, yo parecia un Argos a gente tan remota del mundo literario.
A autobiografia do irrequieto padre Posse tem um valor inegável como documento histórico e pode ser abordada de várias maneiras. Richard Herr considera-o «um dos documentos mais curiosos da literatura espanhola» e trata-o como «um testemunho precioso do que foi o Iluminismo [Ilustración] espanhol». Um agudo filólogo exerceu-se em espiolhar-lhe «galeguismos».
Quanto a mim, preferi lê-lo como o depoimento inocente dum processo de aculturação e alheamento, como exemplo típico dum percurso formativo em que instrução e castelhanização se confundem. As
Memórias de Don Juan Antonio Posse (1766-1854) ajudam-nos a captar como funcionou o mecanismo da substituição linguística no nosso Pais.