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Reportagens A 'blogosfera' galega e portuguesa indignam-se com Ferreira Fernandes
Sexta, 14 Setembro 2007 (7:00)

Ferreira Fernandes Numerosos cidadãos de aquém e além Minho já se dirigam ao Diário de Notícias solicitando uma rectificação ao tempo que o artigo se converte no mais 'popular' do veterano jornalista

PGL.- Até o passado dia 3 de Setembro, o nome do jornalista Ferreira Fernandes resultava totalmente desconhecido para a maior parte dos galegos. Porém, após ele ter publicado no Diário de Notícias o artigo "Modernices filhas de reaccionários" (com mais de 300 ocorrências no Google), no qual arremetia contra o ensino do galego nos jardins-escolas da Galiza e advogava por um melhor conhecimento do espanhol no nosso país, o seu nome converteu-se num dos mais comentados (e discutidos) da 'blogosfera' galega... e também da portuguesa, ainda não reposta dos arrebatos espanholistas de José Saramago para ler desta volta um compatriota «mordendo na própria língua», em referência ao galego-português da Galiza. [+...]

Uma das primeiras e mais contundentes reacções chegou, precisamente, de além Minho, quando o crítico literário Fernândo Venâncio acusava Ferreira Fernandes num artigo do seu blogue de fazer acusações falto de informação.

Pois bem, Senhor Ferreira Fernandes, segure-se porque talvez vá ser preciso. Essa língua que você crê andar vítima de «modernices» e em mãos «reaccionárias» é a mesma que você aprendeu na sua nativa Angola, a mesma que eu escrevo aqui, a mesma de que você se tem servido para mostrar-se um jornalista com mérito e currículo.

Essa língua que, nos jardins-escolas galegos, se vai falar às criancinhas é a sua - delas, minha, sua - língua materna. Lá chama-se galego, aqui passou a chamar-se português. Isto, quando foi preciso darmos nome à língua, aí pelo século XVI, e já se tinha esquecido quem no-la tinha feito. Como bons nacionalistas, e bons já então desconhecedores do galego, nem nos passou pela cabeça chamá-la senão assim.
Igualmente, enquanto Ferreira Fernandes finalizava o seu artigo original deostando o galego por não se situar na «primeira divisão» das línguas do mundo, o seu compatriota assinala-lhe que por o galego ser português é, «sabe-o você agora, uma língua da Primeiríssima Divisão, a sétima do Mundo».

Ainda em Portugal, o colaborador do Novas da Galiza para a secção Além Minho, Nuno Gomes, reconhecia estar admirado por comprovar como ao colunista do DN «nunca ninguém lhe explicou que o galego e o português fazem parte do mesmo sistema linguístico». Lembra também que para o espanholismo mais radical todas as línguas da Espanha diferentes do castelhano não passam de 'dialectos', pelo qual «para esses senhores, o português é apenas um dialecto do castelhano. Ou seja, se pensassem na 'I Divisão Mundial das Línguas', também não se ensinaria o português. Bastaria castelhano». Gomes conclui o seu artigo com uma reflexão breve e contundente: «basta uma investigação ligeira para se aperceber que, se há língua ameaçada em Espanha, esta não é certamente o castelhano».

Reacções na Galiza

Entre as primeiras reacções na Galiza, o presidente da AGAL, Alexandre Banhos, enviou ao director do DN (João Marcelino) e ao próprio Ferreira Fernandes uma mensagem reprovando as opiniões transmitidas, muito afastadas da realidade e que criticou por «fazer de alti-falante dos jornais de extrema direita espanhóis», uma atitude que ao seu entender «não parece muito inteligente».

Um outro vulto do reintegracionismo, o colaborador do PGL António Gil Hernández, contactou o provedor dos leitores do DN., José Carlos Abrantes, para desmentir algumas das falsidades transmitidas no artigo de Ferreira Fernandes.
[...] Leio no jornal de que o Senhor é Provedor dos Leitores um artigo dum quídam Ferreira Fernández (desculpe: Fernandes) em que amostra bastante ignorância (ou muita) sobre o que acontece na Galiza [...] e em geral sobre a organização "regional" ou "autonómica" do Reino da Espanha. Saiba que, segundo o art. 3 da Constitución española (1978) o "galego" (ou português da Galiza) é lengua también oficial, junto da castelhana, que é a "oficial del Estado".

Destarte no currículo escolar primário e secundário o "galego" (escrito com ortografia castelhana [...]) é língua de ensino obrigado para todos os estudantes, incluídos os de recente incorporação aos territórios da Comunidad Autónoma.

Para além, como na Catalunha e no País Valenciano e nas Ilhas Baleares com o catalão, assim como em Euskádi e Nafarroa com o basco ou eúscaro, o "galego" é oficial nos organismos espanhóis [...], de modo que qualquer cidadão, segundo lei, pode dirigir-se em "galego" aos poderes públicos e estes têm a obriga constitucional de os atender em "galego". Lamento as "badocadas" do seu colaborador, mas não posso mais do que protestar não porque se ocupe da Galiza e dos galegos, mas porque o faz com um acúmulo de ignorância impróprio em quem pretende dar lições a quem sabe e mesmo ensinar a quem não sabe.

Numa segunda mensagem, António Gil acrescenta de forma demoledora:
Compreendo que haja portugueses que não entendam o ordenamento legal do Reino da Espanha, mas é-me impossível de compreender que um jornal, como DN, que em tempos dignamente entrevistou o saudoso Prof. Rodrigues Lapa a respeito da situação do Português da Galiza ou "galego", permita os excessos de ignorância que evidencia o artiguinho do Ferreira Fernandes.

Campanha de protesto

Por sua parte, o jornalista Gerardo Uz assinala num artigo as principais falsidades da coluna de Ferreira Fernandes, em parte coincidentes com as indicadas por António Gil ao provedor do leitor e também com as apontadas desde Renas e Veados no artigo "A imbecilidade do dia". Igualmente habilita um formulário para enviar de forma instantânea mensagens de disconformidade para o director do DN e para o próprio Ferreira Fernandes, sem que até o momento nenhum dos dous (como tampouco o provedor do leitor) se tenham pronunciado sobre a questão.

Quem é Ferreira Fernandes

Embora até hoje não fosse conhecido polo público galego, sim o é em Portugal. Até começos de ano era redactor principal da revista Sábado, ocupação que deixou para acompanhar desde Fevereiro João Marcelino como director do DN; portanto, é um dos seus homens de confiança.

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