|
Reproduzimos a entrevista a Celso Álvarez Cáccamo publicada no número 56 do Novas da Galiza, na seqüência da decisom da RAG de dedicar o Dia das Letras do ano de 2008 ao seu pai, Xosé Maria Álvarez Blázquez
Por Eduardo Maragoto
Já temos ‘persoeiro’ para homenagear em 2008. Tudense, escritor e director de Ediçons Castrelos desde 1967, foi também membro das Mocidades Galeguistas no pré-guerra e da Real Academia Galega a partir do ano 1964. A RAG volta assim a homenagear um antigo membro da mesma que nesta ocasiom nos obriga a salientar um dado biográfico curioso. Xosé María Álvarez Blázquez (1915-1985) tivo três filhos escritores, todos em plena actividade ainda. Interessou-nos a posiçom de um deles, afastada da RAG em muitos aspectos. [+...]
Sabemos que é o teu pai biológico, mas em termos de legado cultural e como reintegracionista sentes-te filho de Álvarez Blázquez?
Nom gosto de me definir como reintegracionista. Sou simplesmente escritor galego em português. Pratico a unidade da língua portuguesa como pratico a unidade da língua inglesa, que também escrevo. Ainda, quero esclarecer que meu pai tivo seis filhos: Maria Luísa, que morreu e era enfermeira; Xosé María e Alfonso, escritores ambos; Maria Elena, auxiliar de clínica; eu, que sou professor; e Berta, que é pintora. Mas prefiro nom aplicar as metáforas familiares aos campos culturais, da mesma maneira que nom gosto de conceber os países como grandes famílias ou pátrias. Deixa-me entom reformular a pergunta: ‘Sinto-me herdeiro do legado cultural do meu pai?’ Evidentemente. Sinto-me aliás herdeiro de todas as pessoas que deixárom algo para as culturas.
Fai sentido nos dias de hoje que o acontecimento anual mais importante da cultura galega gire em torno da homenagem a pessoas falecidas há décadas?
É evidente que o Dia das Letras é qüestionado por diferentes motivos. Eu nom sou pessoa de homenagens nem de Dias, e creio que se meu pai fosse vivo nom daria muita importáncia a esta homenagem, embora a tivesse agradecido, nom cabe dúvida. Nom é o meu papel julgar as Academias, porque reconheço que nom me interessam. Em geral, as culturas geram instituiçons deste género para defenderem os seus interesses, e eu nom me sinto implicado com isto.
Qual é o contributo mais importante que deixou teu pai, a ti e à cultura galega?
Talvez seja o mesmo contributo. Para mim, foi sobretodo um pedagogo e um divulgador, herdeiro do ensino da República. Umha cousa que temos em comum quatro filhos de Álvarez Blázquez é sermos educadores. Eu destacaria ainda que O Catecismo do Labrego de Lamas Carvalhal, editado por Castrelos na colecçom O Moucho, foi o primeiro livro (nem sequer o primeiro em galego) que entrou em muitos lares da Galiza.
Há algumha faceta dele que che pareça mais aproveitável nos dias de hoje?
Um trabalho que está por fazer é a da introduçom da letra impressa em português de umha maneira comparável a como meu pai foi divulgador do livro popular em galego da altura.
O levantamento franquista foi especialmente difícil para a tua família...
Na minha família houvo um assassinato, o do meu avô Dario Álvarez Limeses, para além do desterro do meu pai, retaliado pola posiçom política dele e da família. Na altura, meu pai pertencia às Mocidades Galeguistas e já tinha escrito um texto mui duro: Berro em Lembrança dos Heróis de Carral. O seu desterro a Coreses (Samora) foi duríssimo, longe da família naquele dramático momento, e por isso deixou o magistério passado mais de um ano. É curioso que umha ideologia dominante e excludente como a espanhola castigue alguém desterrando-o fora dos limites do país que essa ideologia nega.
O franquismo deu a volta à legalidade de umha forma perversa. Assim, todos os que antes eram republicanos, naquele momento passavam a ser traidores à legalidade que acabavam de instaurar. Meu avô era democrata e anticlerical e foi acusado, entre outras cousas, de cumplicidade com os comunistas. Umha das ‘provas’ foi que um dia o viram na rua a explicar como se fazia umha bomba, quando, como médico, estava a explicar como se punha umha ligadura. Depois, era freqüente aparecerem os delatores por casa tomar café, para ‘consolarem’ a minha avó. Havia que deixá-los entrar.
E de Alexandre Bóveda, que vos lembrava o teu pai?
Tivérom muito contacto, pois durante umha temporada XMAB viveu na casa do seu tio Gerardo Álvarez Limeses, genro de Bóveda. Lembro que dizia que cantava mui bem (já agora, há umha gravaçom da Coral Polifónica de Ponte Vedra onde canta Bóveda editada por Ouvirmos). Depois escreveria a sua biografia, onde lembra que o animou a publicar um texto n’A Nossa Terra.
Ideologicamente, que palavra definiria o teu pai com mais precisom?
Um humanista com traços libertários e grande compromisso com a liberdade. É fascinante ler o que pensava após a morte de Franco em relaçom a como imaginava a Galiza de 2000. Pensava que a educaçom seria totalmente em galego, universal e gratuita.
No entanto na casa falávades castelhano, nom é?
Meu pai usava o castelhano connosco e minha mae nunca falou galego, embora o lesse. No meu caso, a passagem para o galego foi na Universidade. Porém, na casa ouvia-se o galego, que meu pai usava com falantes habituais e nas reunions que fazia com amigos e intelectuais da época. Era umha língua de cultura na minha casa.
Em relaçom ao lusismo que professas, o que pensava ele?
Álvarez Blázquez nom foi reintegracionista, embora tenha um poema em português e outro de 1934 escrito numha norma aproximada, ambos inéditos. Conheceu muitos intelectuais portugueses como Oliveira Guerra, Hugo Rocha, Rodrigues Lapa e Fernando Pires de Lima. Com os dous últimos mantinha um amplo contacto, nomeadamente com Lapa aquando a publicaçom da Escolma da Poesia Medieval de meu pai. Portugal era para ele umha outra parte da Galiza nom contaminada polo sangue e a repressom da guerra.
Que relaçom tivo com o galeguismo através das suas diferentes etapas?
Até a guerra meu pai seguiu o caminho de todo o galeguismo e embora fosse mais novo que a gente do Seminário de Estudos Galegos, mantivo umha grande amizade com grande parte dos vultos galeguistas da altura. Conserva-se numerosa correspondência com Outeiro Pedralho, Cuevilhas, Del Riego... Com a repressom do pós-guerra regressou à parte castelhana da sua cultura, tanto no idioma como na estética. Mas já a partir dos anos quarenta começou a escrever de novo em galego (em 1949 publica com o seu irmao Emílio Poemas de ti e de min).
Na última etapa tornou-se conhecido sobretodo como director de Castrelos, umha editora de carácter mais divulgador que Galáxia e em certo modo a sua concorrência. Mesmo assim, quando chegou a altura de vender a editora decidiu, por compromisso galeguista, deixá-la a Galáxia, que oferecia um montante menor em relaçom a outras ofertas. Galáxia matou esse fundo editorial.
Que livro de teu pai nom podemos perder?
O Cancioeiro de Monfero (1953). Tem umha história deliciosa. Declarou no prólogo que o encontrara no mosteiro de Monfero. Aos poucos dias reconheceu que fora um jogo literário, mas nom evitou que alguns amigos que tinham acreditado cegamente na história se zangassem com ele.
Outros conteúdos do número 56
O jornal soberanista saiu em Julho com doze páginas mais das habituais devido ao suplemento de humor O Pasquim (que sairá todos os meses e já foi noticiado neste portal) e o suplemento de lazer alternativo Tempos Livres, habitual no mês de Julho.
A reportagem central do número 56 é dedicada aos investimentos na Galiza de Antonio Pinal, acusado de corrupçom e recentemente relacionado com o financiamento irregular do PSOE balear. NGZ também leva à capa deste número a unidade do independentismo para a convocatória da manifestaçom do Dia da Pátria, a compra de A Nosa Terra pola construtora San José, o cultivo de vinho alvarinho fora da Galiza (que vai ser permitida polo Ministério da Agricultura) e umha crónica sobre o perfil do jornalista Julio Fariñas, o acompanhante e avalizador mediático das estratégias que o Estado dirige contra o independentismo, segundo o Novas da Galiza.
O suplemento de lazer Tempos Livres transporta-nos ao Vale do Xalma para pôr em questom as teorias sobre a origem deste dialecto divulgadas nos últimos anos na Galiza, que pretendem desvincular o galego-português da Estremadura dos falares portugueses vizinhos. Também nos leva polos paraísos naturais da Galiza e por algum dos festivais musicais deste Verao. Finalmente introduz-nos na banda desenhada e nos desportos tradicionais galegos.
Entre os opinadores deste mês salienta Joám Lopes Facal, ex-deputado da Esquerda Galega no Parlamento autonómico, que reflecte sobre a qualidade do galego oral entre os políticos galegos, e umha entrevista a Gonzalo Boye, um dos advogados que mais destacárom no julgamento do 11-M.
|