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. Este domingo câmbia a hora. Passamos do horário de verao ao de inverno, o que implica acurtarmos a distáncia entre a hora oficial e a hora solar e biológica. Podemos alegrar-nos, pois as únicas beneficiárias da existência do horário estival som as grandes companhias eléctricas: trata-se de umha medida economicista, que prioriza os interesses comerciais sobre a saúde e o bem-estar das pessoas. [+...]
Mas nom podemos alegrar-nos muito. A populaçom galega sofre já a perturbaçom crónica do seu ritmo biológico. Vítima da mosca tse-tse do colonialismo, Galiza é um país de zómbis desnorteados, bocejantes, com vontade permanente de ir para a cama. Consciente da triste situaçom, o poeta Eduardo Pondal deixou-nos programado um himno-despertador (o Hipno galego), que ressoa como brado de bardo nas ocasiões solenes: "desperta do teu sono, desperta do teu sono". Os galegos e galegas parecemos rebulir umha miga quando o Hipno chega a essa frase, mas sempre nos vence o Pedro Chosco e, tras golpear o despertador, damos volta, arreconchegamo-nos bem e tapamos a orelha com o cobertor para dormir mais um bocadinho. Aliás, as autoridades coloniais preocupam-se de cortar o Hipno na segunda estrofe: se perigoso é o de "naçom de Breogam", mais perigoso ainda é um segundo apelo ao acordar colectivo.
Mas, como fixo o Império Pequeno para adormecer deste jeito os corpos e as consciências? A VA-CA, umha organizaçom que nasce para desvelar as estratégias do ressesso colonialismo espanhol mediante o humor, a paródia e o surrealismo político, explica-vos umha das formas mais subtis da dominaçom colonial: o roubo da hora. Para isso necessitamos umhas breves explicações astronómicas:
fuso horário = longitude / 15
A partir da Conferência de Roma de 1883, dividiu-se a circunferência da Terra (de 360°, obviamente) em 24 fusos horários de 15°, o que se corresponde com o ângulo que a Terra gira em umha hora . Assim, toda a área situada dentro de um fuso passou a ter umha mesma hora. Como na altura Inglaterra era a potência hegemónica, adoptou-se o meridiano de Greenwich como ponto zero (GMT, Greenwich Mean Time). Portanto, conforme se passa de um fuso a outro, deve-se aumentar (a leste) ou diminuir (a oeste) umha hora no relógio. Os minutos e os segundos continuam na mesma.
hora civil = GMT +/- fuso horário
Portanto, dada a nossa posiçom geográfica fisterrá-atlântica, Galiza deveria estar no horário GMT e nom no GMT+1 que se utiliza actualmente como conseqüência da submissom colonial (no verao, GMT+2). Curiosamente, a metrópole concede o desfrute da sua hora real a umha outra das suas colónias, o arquipélago das Canárias (cfr. "una hora menos en Canarias"), atendendo à sua condiçom insular e ultra-periférica. Porém, mantém a Galiza excluida do seu fuso horário natural, também conhecido como WET (Western European Time) ou Zulu, que compartilha com Portugal, Inglaterra, Gales, Escócia, Irlanda e os arquipélagos - pouco europeus - de Canárias e Madeira. O horário WET contrapóm-se ao CET (Central European Time), que é o que corresponde ao Império Pequeno e outros países europeus, como os nossos admirados Països Catalans, por cuja descolonizaçom luita a nossa organizaçom irmá, a Lliga Anticolonial.
Como conseqüência da colonizaçom, os galegos e galegas encontramo-nos distantes umha hora do horário solar e biológico. Betanços, Benidorm, Bratislava e Bucareste tenhem oficialmente a mesma hora. Porém, se a betanceira ou betanceiro acorda de noite, o habitante das estepas húngaras fai-no com o sol ascendente, ambos às 8 da manhá segundo o relógio. No entanto, em Portugal e Irlanda dormem como bebés. Como explica o Dr. Santiago Casares Méndez, médico internista corunhês, o organismo nunca se adapta a isto, pois o relógio biológico depende da rotaçom da Terra e nom das decisões de políticos e economistas. É como cambiar-lhe o nome ao mês: por mais que a Dezembro lhe chamemos Julho, segue sem prestar irmos à praia.
As conseqüências do roubo da hora
O roubo da hora provoca nas pessoas umha dessincronizaçom do ritmo biológico, que se reflecte num descontrolo pessoal do tempo, além de diversos sintomas, a saber: desordens psicológicas, somnolência diurna, irritaçom, depressom, fadiga, baixos rendimentos no trabalho e na escola, maiores taxas de erro, de violência, de acidentes. Isto agrava-se com a falta de planificaçom urbana, a distância entre a vivenda e o centro de trabalho, as vilas e cidades atravessadas por eixos de trânsito nom isolados acusticamente, a convivência com veículos, equipamentos e electrodomésticos barulhentos.
Merece especial atençom a produçom de acidentes laborais e de trânsito por causa da somnolência zómbica. Como nos erguemos ao amanhecer, há problemas de visibilidade à hora de circular, afectando mesmo as operações aéreas nos aeroportos, cobertos por umha névoa falsamente matinal. Com estas medidas colonialistas restam-se-nos horas reais de vida e aumentam sensivelmente a taxa de suicídios e as despesas farmacéuticas (somníferos, ansiolíticos, etc.).
Insubmissom horária activa
Contra o imperialismo e pola saúde (que nunca falte), a Via Ánti-Colonial Activa propóm a insubmissom horária, que se concreta em duas iniciativas ánti-coloniais :
- O próximo domingo 27 de Outubro, os relógios deverám atrasar-se duas horas: às 03h00 será a 01h00 –e non as 02h00, como afirma a insidiosa propaganda do Império Pequeno–. Com esta medida, reintegraremo-nos de vez no fuso horário que nos corresponde. Avante com o fuso-reintegracionismo!.
- A terça-feira 31 de Dezembro celebraremos (celebraredes) por todo o país festas de entrada no novo ano à meia-noite real, às 00h00 galegas. Isto implica começar a cear quando TVE prescreve comer as uvas. Insubmissom à Puerta del Sol!. O 2003 começa a descolonizaçom mental da Galiza. Entremos com bom pé!
Comité Homologador Central da VA-CA
P.S. Na foto: Nesta pouco conhecida instantánea de 1940 podemos mirar o Afonso Rodrigues Castelao, ilustre polígrafo rianxeiro, poeta em Nova Iorque, filho dumha pátria desconhecida e pai da mesma, profeta n'A Nossa Terra, excepçom que confirma a regra, man in black, quatro-olhos e precursor do reintegracionismo horário, encaramado no alto dum arranha-céu a pôr o relógio em hora, pola velha, protagonizando umha acçom reivindicativa digna dum especialista em cenas de risco, Vicente Risco.
Nota: Comunicado da Via Ánti-Colonial Activa (VA-CA)
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