Colocada: Sex, 08-Set-2006 3:25 pm Assunto: A pronúncia do Norte.
Floribella estraga-se
Quando me apercebi de que «Floribella» era uma série de sucesso, o linguista em mim entrou em êxtase. Portugal inteiro poderia transformar-se num grande laboratório linguístico. Muito concretamente, podia dar-se o caso de a pronúncia nortenha de Flor levar a desacelerar processos activos na nossa fala. Quem sabe se, mesmo, inverter um ou outro.
Luciana Abreu dizia «primêiro», não «primâiro». Dizia «dôu», não «dô». Isso era um novidade em ficção televisiva nacional, decerto em personagem de relevo. Os dois ditongos «êi» e «ôu» vêm da Alta Idade Média, tendo-se formado no Noroeste peninsular acima do Douro (do «Dôuro», claro). Para sermos mais exactos: são invenções galegas puro-sangue. Foram, mais tarde, levados assim para o Brasil, onde se mantêm.
Em Portugal, os dois ditongos sofreram, em séculos recentes, transformações no Sul. Assim, «ôu» deixou de ser ditongo para passar a simples vogal, «ô». (Uma interessante hipercorrecção a Sul - as hipercorrecções são sempre reveladoras - é grafar-se «poude» para reproduzir a pronúncia «pôde»). O ditongo é ainda hoje audível acima do Mondego, mas isso cada vez menos, e aceleradamente.
O caso de «êi» foi diferente. Poderia ter-se vocalizado em «ê» (e, na realidade, nós, os alentejanos, fizemo-lo), mas o eixo Coimbra-Lisboa resolveu a coisa diferentemente, modificando o ditongo para «âi». E o processo continua, aproximando-se da pronúncia «ái». Por vezes, numa série portuguesa, não percebemos se a personagem diz «Sei», ou «Sai!». E em alguns locutores é difícil saber se os trabalhadores apresentaram «queixas», ou «caixas».
Ora, que aconteceu a Floribella, a linda mocinha de Gaia? O «êi» mantém-se-lhe. Veremos por quanto tempo ainda. (Tempo, decerto, haverá, já que os autores do script vêem jeito de, a cada eposódio, evitarem cinco vezes, in extremis, o final da série. Isso diverte imenso a pequenada, que adora quiproquós, e que lhe contem, cem vezes que seja, as mesmas histórias). Mas o «ôu» de Luciana, ao fim de uns meses de ambiente meridional, já se perdeu na maioria dos casos.
É isso. Do empolgante laboratório nacional, resta o deprimente condicionamento de Luciana Abreu. A norma de Lisboa soma vitórias, e uma delas está em ecrã todas as noites.
Restam-nos os miminhos. Esses, vá lá, parecem garantidos.
Os dois ditongos «êi» e «ôu» vêm da Alta Idade Média, tendo-se formado no Noroeste peninsular acima do Douro (do «Dôuro», claro). Para sermos mais exactos: são invenções galegas puro-sangue. Foram, mais tarde, levados assim para o Brasil, onde se mantêm.
Acho que não é verdade essa parte do Brasil. E penso que o "ei" de Coimbra é diferente do de Lisboa, ou seja, em Coimbra ainda é como no norte.
Pois estamos-che bons! Vai resultar que o Acordo (que segundo algumas pessoas era só para os portugueses e mailos brasileiros), só vai servir agora para os brasileiros e mailos galegos, visto os portugueses andarem às carreiras para se parecerem mais cada vez com o espanhol (primeiro>primero, touro>toro...).
Registro: Non 0, 0000 Mensagens: 202 Morada: Terra Brasilis
Colocada: Sáb, 09-Set-2006 8:14 pm Assunto:
Mentres escreveu:
Citaçom:
Os dois ditongos «êi» e «ôu» vêm da Alta Idade Média, tendo-se formado no Noroeste peninsular acima do Douro (do «Dôuro», claro). Para sermos mais exactos: são invenções galegas puro-sangue. Foram, mais tarde, levados assim para o Brasil, onde se mantêm.
Acho que não é verdade essa parte do Brasil. E penso que o "ei" de Coimbra é diferente do de Lisboa, ou seja, em Coimbra ainda é como no norte.
Essa parte é a mais pura verdade, pois tanto eu quanto todos que conheço falam dessa maneira. Dizemos o primeiro e a maneira da mesma forma arcaica em todas as partes do Brasil, até onde sei.
1. É opinião pacífica entre os entendidos, pese embora a afirmação do nativo Ganesh, que o ditongo /ow/ desapareceu da pronúncia corrente e geral do Brasil, quer em posição tònica quer em posição átona, pelo que <poupa> e <popa> se confundem na oralidade. Poderá ocorrer uma vez por outra na pronúncia culta e tensa por necessidade de ênfase.
2. Pelo menos na pronúncia carioca, o ditongo /ey/ sofre redução para e fechado antes de j, x e r (bêjo, pêxe, primêro), mantendo-se em geral nos restantes casos. Essa redução ocorre também em dialetos portugueses.
3. É bom não esquecerr que o Norte de Portugal (tendo como linha grosseira de demarcação a do Mondego) apresenta uma grande diversidade de dialetos. Alguns destes evidenciam também as evoluções notadas em 1 e 2, sendo falacioso contrapô-los aos do Sul neste aspecto. A tentação de contrapor o Norte ao Sul nos tons inflamados de alguns é simplesmente politiqueira.
4. A confusão entre ow/o é antiga e talvez se possa filiar no próprio latim, onde por exemplo Claudius alternava com Clodius. Uma palavra como <pobre>, que é já da época arcaica, talvez se deva explicar pela monotongação latina.
5. É evidente que as tranformações fonéticas de um qualquer dialeto português não se podem explicar por "os portugueses andarem às carreiras para se parecerem mais cada vez com o espanhol (primeiro>primero, touro>toro...)", como lamenta CDurao. Pode é haver fatores comuns à evolução do português e do espanhol, o que não é de estranhar, pois são línguas-irmãs como é sabido.
6. Os dialetos são o que são, não havendo do ponto de vista estritamente linguístico, melhores ou piores. E, do ponto de vista democrático, poderá o falante mudar de dialeto ou de língua, sem ter que prestar contas aos salvadores de pátrias (vade retro!).
Sim, Peregrino, é como dizes; eu só queria apontar para o evidente, que o Acoirdo parece mais bem pensado para nós, galegos, do que para muitos a S da raia: se a pronúncia maioritária de ou é o e de ei é e, então para que conservar os ditongos, e não fazer como os espanhóis? Seria "mais barato", como dizia um professor meu há tempos.
Registro: Non 0, 0000 Mensagens: 202 Morada: Terra Brasilis
Colocada: Dom, 10-Set-2006 7:20 pm Assunto: Non meu amigo...
Não mesmo...o Ganesh não quer "convencer" a nadie.
Seria no mínimo cortês que não se colocasse em dúvida a veracidade do meu comentário, pois pode parecer que vossa mercê está querendo dizer que sou mentiroso.
Porém não cabe que eu fique aqui agora começando uma campanha para provar que aqui falamos "assim" ou "assado", pois seria desnecesário. Tenho uma cunhada paraibana, inclusive, que é vítima das bromas da nossa família por dar ênfase exagerada a esses ditongos...e ela até às vezes se irrita, pois não é muito dada a bromas. Agora se você nunca viu ou não quer crer...ok...direito seu.
Colocada: Seg, 11-Set-2006 2:50 am Assunto: Re: Non meu amigo...
Ganesh escreveu:
Seria no mínimo cortês que não se colocasse em dúvida a veracidade do meu comentário, pois pode parecer que vossa mercê está querendo dizer que sou mentiroso.
1.Ei Ganesh, pelo menos eu nunca pretendi dizer que vc estava mentindo. O fato de na língua CORRENTE E GERAL o antigo ditongo /ow/ ter-se monotongado no Brasil, não significa que não ocorram casos como o seu e outros que vc conhece em que há preservação do ditongo. Esse uso seu não será excepcional, mas é decididamente minoritário, é isso o que assevera por exemplo Celso Cunha em sua Gramática do Português Contemporâneio. A nível culto, foo esse também o resultado apurado na pesquisa NURC (Norma Urbana Culta).
2. De notar que a variante brasileira introduziu um segundo dtongo /ow/ proveniente da vocalização do l final de sílaba: /vowtar, sów/, quer dizer, <voltar, sol> e normal no Brasil no uso corrente e geral do idioma.
Colocada: Seg, 11-Set-2006 3:31 pm Assunto: Ditongo "ou" no Brasil...
Olá, amigos:
Em primeiro lugar, não sou nativo do Brasil, mas ultmamente escuto bastante música brasileira. É pena ter o meu computador estragado, porque poderia subir aqui arquivos de canções em que o ditongo "ou" é pronunciado /ow/ duma maneira clara e indubitável, mais, talvez, do que nos falares septentrionais de Portugal onde é grande a influência dos média no sentido da monoptongação. Assim, em numerosas canções e baladas de Roberto Carlos o ditongo "ou" soa bem clarinho, mas não só. Tenho música no computador da chamada "sertaneja", gravações mais ou menos recentes em que o "ou" aparece, entre outras "pêrolas", como o /r/ alveolar, e um vocalismo átono quase totalmente idêntico ao galego, mesmo às vezes com uns "os" átonos mais abertos do que o que se pode escutar em falares rurais do galego com fonética bem conservada (como na aldeia de meu pai, em Lugo, por exemplo).
Quando tiver o computador arranjado prometo subir aqui, para melhor apreciardes e opinardes, e prometo dizer os autores concretos que agora não consigo lembrar...
Abraços...
José Luís Valinha
(...) Tenho música no computador da chamada "sertaneja", gravações mais ou menos recentes em que o "ou" aparece, (...)
Se assim é, então se explica por que a tal "cunhada PARAIBANA" de Ganesh "é vítima das bromas da nossa família POR DAR ÊNFASE EXAGERADA a esses ditongos".
Registro: Non 0, 0000 Mensagens: 202 Morada: Terra Brasilis
Colocada: Qua, 13-Set-2006 3:26 am Assunto: Re: Ditongo "ou" no Brasil...
Peregrino escreveu:
jlvalinha escreveu:
(...) Tenho música no computador da chamada "sertaneja", gravações mais ou menos recentes em que o "ou" aparece, (...)
Se assim é, então se explica por que a tal "cunhada PARAIBANA" de Ganesh "é vítima das bromas da nossa família POR DAR ÊNFASE EXAGERADA a esses ditongos".
Peregino
Normalmente nós pronunciamos o "ou" das palavras...mas no caso dela esse "ou" fica mais longo...não sei explicar aqui....há coisas em que só por meio sonoro se pode entender.
Colocada: Qua, 13-Set-2006 4:27 pm Assunto: como subir...
Ainda tenho estragado o meu computador, mas quando o tiver pronto vou ter o problema de não saber como subir essa música para todos poderdes ouvir. Alguém me pode explicar como se fai? (Não sou douto em temas informáticos)
José Luís Valinha
Neste fórum você: Nom pode colocar mensagens novas Nom pode responder a mensagens Nom pode editar as suas mensagens Nom pode remover as suas mensagens Nom pode votar neste fórum