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Falar com Jeito 10.- Por suposto
Pelo Professor Fernando Vázquez Corredoira



Falar com Jeito



Quem veja os filmes da TVG ouvirá com frequência *por suposto empregue como advérbio de afirmação:

  • Vens à festa?

  • Por suposto.


  • Então, aceitas?

  • Por supostoque não.

[para *desde logo com o mesmo valor, ver Falar com Jeito 4]

Haverá que advertir que por suposto é uma adaptação cativa da locução espanhola "por supuesto"?


Que em galego espontâneo se diga sempre "por supuesto", deveria prevenir-nos: isentos de cuidados puristas, os galegófonos nativos não pretendem disfarçar de galego o que é castelhano e dizem como sempre ouviram: por supuesto.

São os galegófonos "com vontade de estilo" que dizem e escrevem por suposto.

O Diccionario Xerais Castelán – Galego de Usos, Frases e Sinónimos inclui o verbete supuesto mas não a locução. O pontilhoso Diccionario Crítico de Dúbidas e Erros da Lingua Galega (Ediciós do Castro) nem uma cousa nem outra.

Dispomos na nossa língua de vários advérbios e locuções adverbiais equivalentes ao espanhol por supuesto: claro, claro que sim / não, é evidente, evidentemente, certamente, de certeza, com certeza, naturalmente, e logo não? [esta última, exclusiva da Galiza]. Assim:

  • Aceitas?
  • Claro [que sim / aceito]

  • Vens?
  • Claro [que vou]/de certeza

  • Então, és lusista?
  • E logo não? (= claro que sou, como não havia de ser?)

  • Ele, evidentemente / certamente / com certeza / de certeza, não vai querer trabalhar.

  • Não foi ela. Isso é evidente!

No Brasil é mui comum para indicar assentimento a locução pois não.

  • Posso falar com a Helena?
  • Pois não. (= claro, com certeza)

Igualmente, as locuções espanholas en este supuesto e en el supuesto de que não admitem uma transposição literal para a nossa língua. Diz-se:

  • Na hipótese de ele ser eleito. [ = En el supuesto de que sea elegido]
  • Na hipótese de que não haja vagas disponíveis, ...
  • Nessa hipótese... [= En ese supuesto...]

Os seguintes exemplos mostram alguns dos usos de suposto:

Como adjectivo:

  • Luísa Garcia é a autora suposta dessa obra.

  • A bruxaria é o suposto exercício de artes sobrenaturais.

  • A carta foi assinada com nome suposto.

Como vemos, suposto-a equivale a PRESUMÍVEL, FICTÍCIO ou PRETENSO.

Como advérbio:

  • Não foi trabalhar porque supostamente estava doente. (= alegava, dizia estar)

Como locução:

  • Ainda suposto (=admitindo) que seja como ele afirma, não tem desculpa.

  • Iremos, suposto (=supondo) que tenhamos tempo. (= ... se tivermos tempo.)

  • É suposto terem lido os apontamentos das aulas anteriores.









Fernando Vázquez CorredoiraFernando Vázquez Corredoira (Corunha, 1965)

É licenciado em Filologia Galego-Portuguesa pola Universidade da Corunha onde fijo, também, os Cursos de pós-graduaçom.

Frequentou o Curso de Língua e Cultura Portuguesas para Estrangeiros na Universidade Clássica de Lisboa e o Curso de Formaçom de Professores de Português, Língua estrangeira, na Universidade do Porto.

Foi Professor na Universidade Federal de Goiás (Goiânia-Brasil). Trabalhou na Escola de Língua de Ourense e na actualidade trabalha na de Ponte Vedra.

Tem colaborações e trabalhos sobre temas de Língua Galego-Portuguesa em publicações periódicas da Galiza, Portugal e o Brasil, entre os quais "A Melhor Orthographia" (Língua e Cultura, Sociedade da Língua Portuguesa, 1997), "Cultismos Estranhos" (Agália, 1998), A Construção da Língua Portuguesa (Laiovento, 1998), "A Questão da Ortografia. Poder, Impotência e Argalhadas" (Análise Empresarial, 2001).


Falar com Jeito

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Publicado em: 2003-07-28 (2320 visitas)  Imprimir

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