A nossa diáspora

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RICARDO FLORES: O PATRIARCA DOS ESCRITORES GALEGOS

Ricardo Flores Pêrez nasceu um primeiro de Maio de 1903 no concelho de Sada, na área periférica da Corunha. A sua era umha família de agricultores e, portanto, o meninho tivo que compartir a formaçom académica elementar com a ajuda em tarefas diárias da fazenda como o cuidado do gado e a sementeira ou recolecçom dos produtos agrários. Desde os dez anos assistiu às aulas unicamente duas horas pola noite durante os meses de inverno. Na sua formaçom autodidacta tivérom especial relevo a leitura da Virgem de Cristal e os comentários públicos posteriores ao primeiro mitim pronunciado em galego, o que ocorreu em Betanços com a intervençom de Lugris Freire.

A este “galeguismo natural” -seguindo a definiçom do próprio Flores- segue-lhe um contacto directo com o colectivo mais dinámico na reivindicaçom galeguista do primeiro terço do século XX. Durante a realizaçom do Serviço Militar em Ferrol assistiu a numerosas veladas teatrais organizadas pola Irmandade da Fala local e dirigidas polos célebres Charlón e Hermida. De regresso em Sada, Ricardo Flores estreou-se como autor teatral escrevendo várias peças curtas (Um filho de bendiçom, Conselhos do Tio Joám e Querer de comenência) que depois seriam encenadas no Pavilhom Moragra e no Salom Suíço da sua vila natal.

Em 1929, Flores emigrou a Buenos Aires. Nesta cidade combinou o trabalho assalariado no sector metalúrgico com as actividades artísticas de escritor, director e actor teatral. Em qualidade de impulsor do movimento associativo galego foi Presidente da Sociedade Coral Os Rumorosos, Secretário de Actas do Conselho da Galiza e membro das directivas da Irmandade Galega e da Comissom Intersocietária.

Com Eduardo Blanco Amor, Ramón Suárez Picallo, Manuel Campos Couceiro, Moisés da Presa e António Zapata Garcia -entre muitos outros- foi Ricardo Flores um destacado membro da Sociedade Galega Pondal e um activo colaborador do seu órgao de expressom: a revista A Fouce. Vários dos seus artigos recolhidos nesta publicaçom -todos eles escritos com a norma histórico-etimológica- permitem-nos qualificá-lo como um adiantado do reintegracionismo, como o fora Joám Vicente Biqueira em A Nosa Terra.

Da sua obra dramática estám publicados os títulos Un ovo de duas xemas. Comedia rideira en dous pasos (Rueiro, Buenos Aires, 1956) e A nossa terra é nossa. Um remédio Malfadado e O afiador (Cadernos da Escola Dramática, Corunha, 1992). Dos seus contributos à música popular podemos achar umha amostra na Escola de cantigas galegas (Caixa Ourense, 1984) e nas Trinta cantigas galegas (Reflexos da doma) editadas pola Associaçom Civil dos Amigos do Idioma Galego.

Ricardo Flores faleceu em Julho de 2002

Para saber mais a respeito deste autor:

LOURENZO, M. e PILLADO MAIOR, F.: O teatro galego, Ed. do Castro, Sada, 1979.

PENABADE REI, B: “Outra voz na procura da emancipaçom nacional: Ricardo Flores”, in Agália, nº 41, Março-Junho de 1995.

PÉREZ RODRÍGUEZ, L.: Breve Historia do Teatro Galego na Arxentina, Ed. da Escola Dramática Galega, Corunha, 1991, nº 89.

RODRÍGUEZ GÔMEZ, J.: “O reintegracionismo na Argentina: o teatro de Ricardo Flores”, in Homenagem a Carvalho Calero, Universidade de Santiago de Compostela, 2000.

 

ENGENHEIRO EDUARDO PARAJUÁ

Este filho de galegos tem também as suas raízes nas terras montanhosas luguesas. A aldeia de Parajuá está na paróquia de Romelhe, no concelho de Samos. Em 1922 pai e mai emigraram à Argentina desde os seus lugares de nascimento: Sam Pedro de Farnadeiros e Abragám, no Corgo. Trás realizar os estudos primários e secundários, Eduardo Parajuá matriculou-se na Escola Nacional de Náutica, onde se graduou como maquinista naval. Com posterioridade trabalhou como técnico na reparaçom de navios e simultaneamente cursou estudos de engenharia, obtendo a licenciatura em 1964.

A sua relaçom com a Galiza intensifica-se notavelmente com motivo da sua primeira visita ao lugar de que eram originários os seus devanceiros. Era o ano 1982. Ao regresso matriculou-se nos cursos de Língua e Literatura impartidos polo professor Higino Martins, naquela altura no Centro Galego. Como complemento, para obter um conhecimento mais profundo do nosso idioma, acudiu a cursos de gramática na Faculdade de Filologia da Universidade de Buenos Aires e realizou os cursos de português do Brasil no Centro Brasileiro e de português de Portugal no Centro Português.

Da mao de José B. Abraira, em 1985 Eduardo Parajuá passou a assumir um compromisso essencial em benefício de toda a colectividade ao se involucrar nas tarefas organizativas do Congresso em Homenagem a Rosalia de Castro. Desde esse momento até a actualidade os seus trabalhos infra-estruturais som imprescindíveis para o funcionamento tanto da associaçom Amigos do Idioma como para a continuidade do boletim Adigal.

Além do labor associativo, Eduardo Parajuá é também autor de artigos em que se manifesta um grande gosto polo documentalismo e de diversas criaçons literárias de narrativa breve. Em colaboraçom com Manuel Iglésias e o professor Martins participou na elaboraçom dum monumental dicionário informático do idioma galego-português.

Eduardo Parajuá faleceu em Buenos Aires em dia 13 de Setembro de 2004.

FIZ A. FERNÁNDEZ: O INTELECTUAL COMPROMETIDO COM A CAUSA DOS POVOS

“Catalogado como médico, como historiador ou como antropólogo, os coñecedores da obra de Fiz Antonio Fernández coinciden que que é un humanista profundamente preocupado polas civilizacións precolombinas e moi crítico ao observar a forma en que se desenvolveu a conquista de América pola Coroa de Castela, feito que el define como a incorporación dun territorio a un poder político”. Deste jeito tam sugestivo começa a apresentaçom de Fiz A. Fernández que se recolhe no volume Gallegos en el mundo, editado polo governo galego em 1993 com motivo da celebraçom do ano jacobeu..

perfil biográfico

Fiz António Fernández é originário dos Ancares. Nascido no concelho de Cervantes em 1916, com só cinco anos -em 1921- emigrou com a sua família à Argentina.Compaginando trabalho e estudo, conseguiu o doutoramento em Medicina pola Universidade de La Plata em1943 e desde entom alternou o complemento da formaçom académica com a prática sanitária emdiversos hospitais bonaerenses. Em 1973 incorporou-se à docência e obtivo a cátedra de História da Medicina na Universidade Nacional de Buenos Aires, impartindo cursos específicos e matérias relacionadas com a sua especialidade: História da medicina, História das doutrinas médicas ou Medicina das culturas indígenas.

Como resultado do seu amplíssimo labor investigador, Fiz Fernández conta com numerosas obras publicadas de entre as que salientamos Cara a unha medicina sem fronteiras (1952), Antropologia, cultura e medicina indígena em América (1977) e Propostas para a educaçom e a cultura (1981). A Asociaçom Médica Argentina e a Sociedade Argentina de Historiadores distinguírom-no com o título de membro vitalício.

Intelectual comprometido com o indigenismo

Desde a perspectiva de intelectual comprometido, propujo reiteradamente a criaçom dum instituto de culturas indígenas e o substentamento de programas de assistência nas comunidades de sobreviventes. Mas as suas tentativas resultárom infrutuosas. Por isso é crítico com a responsabilidade dos governos dos países americanos ao relegarem as investigaçons histórico-antropológicas sobre a Colonizaçom e o período das Descobertas, atitude que qualifica como umha forma de cumplicidade com o genocídio que ainda se segue levando a cabo, já que os poucos povos que subsistem tivérom umha civilizaçom esplendorosa e umha riqueza cultural imensa e hoje som apenas uns fantasmas.

A respeito do indigenismo, é notável a coincidência de análises com as teses defendidas por Antón Avilés de Taramancos. Da Nova crónica das Indias, o livro de relatos publicado por Avilés em 1992 para mostrar umha nova interpretaçom da colonizaçom americana, Fiz Fernández afirma que o entusiasmou a sua leitura e que “acrescenta um novo enfoque ao guardado na minha biblioteca”. O próprio Fiz Fernández é autor dum romance centrado nos costumes do povo guarani. O seu título é Panamby. Vida paixom e morte dun amor guarani. A história está ambientada no Virreinato do Peru, numha área estratégica para espanhóis e portugueses limitada ao Sul polo Rio da Prata e ao Norte polo Amazonas. Segundo o autor, o romance “discorre numha trama de antropologia actóctone de América, com o desejo de que os indoeuropeus conheçam melhor os indoamericanos”.

Fiz Fernández na diáspora galega

Desde a mocidade, sendo um estudante universitário, Fiz Fernández estivo vinculado con notável protagonismo em todas as instituiçons representativas do nacionalismo galego no exílio bonaerense. Com a chegada de Castelao, participou da fundaçom da Irmandade Galega -a instituiçom catalizadora das actividades políticas do galeguismo-. Em 1946 também estivo em primeira linha e foi membro fundacional da Comissom Intersocietária de Entidades Galegas, organismo encarregado da coordenaçom da comemoraçom das datas patrióticas: Banquete de Conjo, Dia da Pátria, Dia dos Mártires...-. Desde o 11 de Julho de 1960, com Antón Alonso Rios -como Secretário Geral-, Ramón Suárez Picallo e Elpídio Villaverde, foi eleito Conselheiro dentro do organigrama do Conselho da Galiza, responsabilidade que renovou em 1963. Na actualidade, com Ricardo Flores e António Mêndez, é um dos patriarcas da Associaçom Amigos do Idioma Galego, a instituiçom que mantém permanentemente os cursos de idioma ao serviço da colectividade e que periodicamente edita a revista Adigal.

 

ANTONIA LUNA

Esta filha de Joaquim Luna (1879) e de Dominga Rodríguez Ons (1880), originários da Alvariça e a Barquinha em Noia, nasceu em Buenos Aires com outros dous irmaos, Daniel Álvaro e José Tomás. Depois de realizar o ensino primário, ingressou num instituto privado da capital argentina e posteriormente diplomou-se na especialidade de Serviço Social na Universidade de Buenos Aires e complementou a formaçom académica com os estudos de Assistente Social. Profissionalmente desenvolveu o seu trabalho como docente em escolas de discapacitados, sendo durante vários anos directora dum centro especializado na atençom de pessoas com minusvalias.

Antónia Luna está desde a infáncia em directo contacto com a cultura galega formalizada. Seu pai foi presidente fundador da Sociedade dos Filhos do Partido Judicial de Noia em Buenos Aires. Nessa instituiçom foi também director dumha companhia de teatro, com actuaçons incluídas nos programas de actividades promovidas polos sectores galeguistas mais comprometidos. Ricardo Flores, o patriarca das letras galegas, lembra que nos intervalos das funçons a meninha Antónia recitava poemas de Rosalia de Castro perante um auditório que a seguia emocionado.

Entre as primeiras leituras de Antónia Luna estám livros e jornais galegos ou relacionados com a Galiza. Na biblioteca familiar tivo ao seu dispor as obras de Rosalia e Curros. A informaçom mais actualizada chegava-lhe por via do dominical El Correo de Galicia, de Lence, que introduzia algumhas notícias ou colaboraçons em galego.

Desde 1977 foi assistente às aulas de Língua e Literatura Galegas que os professores Higino Martins Estêvez e Antom Santamarinha ditárom no Centro Galego. Precisamente quando o ajudante de Higino Martins retornou à Corunha, Antónia Luna foi escolhida como professora colaboradora nestes cursos. Actualmente continua esta actividade docente.

Esta fundadora da Associaçom Civil Amigos do Idioma Galego tem participado como relatora em vários das ediçons do Congresso Internacional da Língua Galego-Portuguesa na Galiza. Os seus contributos estám recolhidos nas Actas. Outras colaboraçons escritas estám publicadas na revista Adigal.

 

HIGINIO MARTINS ESTÊVEZ, ERUDITO DA LINGÜÍSTICA GALEGO-PORTUGUESA

Ao ano seguinte de finalizar a Guerra Civil espanhola (1940), Higino Martins Estêvez nascia em Buenos Aires numha família formada por moços originários de Santa Maria de Oia, na comarca galega do Baixo Minho.

Na Universidad del Salvador da cidade de Buenos Aires frequentou estudos de Direito e Filosofia e Letras, egressando nestas disciplinas. Embora sempre tivesse vocaçom para a filologia, Higino Martins iniciou a sua experiência profissional como funcionário da banca no Banco Español del Río de la Plata, entidade em que chegou a ser Secretário Geral.

A mesma universidade em que realizou a sua formaçom académica recebeu-no mais tarde como professor na Faculdade de Filosofia e Letras, encarregando-se primeiramente da cadeira de História da Língua Castelhana e mais tarde de Linguística Románica e Introduçom à Linguística. Em 1977 os membros do Instituto Argentino de Cultura Galega, dependente do Centro Galego, escolhêrom-no como professor coordenador dos cursos de língua e literatura a ditar-se nessa instituiçom. Antes assistira como aluno aos cursos de galego de Eduardo Blanco Amor, organizados pola Associaçom Argentina de Filhos de Galegos.

É Higino Martins autor de amplíssima e muito variada obra de investigaçom linguística e literária. Com ajuda de António Santamarinha Delgado -professor colaborador nos mesmos cursos- é autor dumha Gramática Galega, posteriormente reformada e editada sob o título de Quadros de Gramática Galega polos Amigos do Idioma Galego em 1993. Som directrizes gramaticais dirigidas preferentemente à orientaçom do alunado dos cursos celebrados no Centro Galego e com posterioridade noutras entidades galegas. Em 1996 finalizou a redacçom dum Ensaio de Gramática do Céltico Antigo Comum, ainda inédito. Esta obra é o resultado de vários cursos teórico-práticos ditados polo próprio autor e nela recolhem-se, com carácter divulgativo, as noçons gramaticais do céltico acompanhadas dum vocabulário final e da traduçom de textos de conhecimento geral (v. gr. O Nosso Pai). Outras obras som Estudos Célticos e Românicos em Campo Galego, a traduçom directa da Táin! Bó Cúalnge ao galego (segundo o Livro de Leinster) e tem em preparaçom Nomina Gallaeciae - Anmana Kallaikias (Léxico Toponímico da Galiza).

Boa amostra do seu trabalho erudito som as ediçons críticas da obra galega rosaliana. Publicados os Cantares Galegos pola Caixa Ourense, tem aperfeiçoado essa ediçom e tem também ultimada umha ediçom com características semelhantes de Folhas Novas. Da mesma autora tem traduzido Nas Ribas do Sar. De Emilia Pardo Bazán também traduziu Os paços da Ulhoa e de Wenceslao Fernández Flórez O bosque animado. Actualmente está a traduzir O senhor das botas azuis.

Este labor desenvolveu-se no quadro dos cursos de galego reintegrado, ditados ininterrompidamente desde o ano de 1977. Deles também nascêrom como derivados os cursos de proto-história galega e de linguística e filologia célticas. Também deles nasceu Amigos do Idioma Galego, associaçom civil argentina que defende a reintegraçom galego-portuguesa.

Bibliografia de consulta imprescindível:

-"Dos tres Lugoves Arquienos ou do que duas inscriçons latinas nos ensinan sobre o passado da Galiza", estudo publicado no número 59 da revista Grial (1978).

-"Luz léxica sobre a história da cultura galega", texto da palestra pronunciada no I Congresso Internacional da Língua Galego-Portuguesa (Ourense, 1984); publicado nas Actas (1986).

-"Novas olhadas no léxico galego", texto da palestra pronunciada no II Congresso Internacional da Língua Galego-Portuguesa (Ourense, 1989); publicado nas Actas (1990).

- "Mais vozes a resgate da memória dos galegos", texto da palestra pronunciada no III Congresso Internacional da Língua Galego-Portuguesa (Vigo, 1992); publicado nas Actas (1993).

 

Um dos incansáveis motores do nacionalismo galego na República Argentina foi José Bieito Abraira, quem tivo especial protagonismo no labor infra-estrutural necessário para organizar diversas actividades colectivas. Como homenagem particular a este filho de Meira e, simultaneamente, à associaçom que ele mesmo contribuíra a fundar pouco tempo antes da sua morte, recolhemos esta magnífica notícia biográfica publicada no número 5 do boletim Adigal (Julho-Setembro, 1997). Além desta publicaçom, coincidente com o décimo aniversário do seu passamento, a Associaçom Civil Amigos do Idioma Galego tem-lhe dedicado ua modesta biblioteca em Buenos Aires. Na Galiza, no entanto, o reconhecimento público dos seus contributos ainda é ua matéria pendente.

 

JOSÉ BIEITO ABRAIRA, UM BOM E GENEROSO

José Bieito Abraira nasceu em Meira, na província de Lugo, o 31 de Julho de 1904, ainda que nos papéis apareça nado o 1 de Agosto. Na sua vila natal fijo a escola completa. Seu pai era lavrador e a par desenvolvia-se como canteiro. Ele trabalhou algo neste ofício e, também em Meira, desempenhou-se depois num comércio de roupa para homens.

De 17 anos, decide percorrer o caminho fatal dos galegos. O 25 de Maio de 1922 parte para Buenos Aires, junto dum primo coirmão homónimo, José Abraira, e desembarcam o 14 de Junho. A pouco de chegado, emprega-se na loja de roupa de homens duns patrões betanceiros, chamadas Los Petizos. Trabalha as longas jornadas entom consumadas com zelo e eficácia, tanto que, quando os donos liquidam a loja, eles mesmos se encarregam de colocá-lo num comércio de chapéus, de propriedade duns catalães, chamado Tadeo. Ali Carlos Gardel compra os seus famosos Orion, de feltro rígido e borda revirada e simpatiza com ele. Nesse âmbito os seus patrões nom falavam outra língua que a sua própria, o que fai cismar na necessidade de defender a língua e o sentimento da pátria. Falando a língua galega recuperaremos a dignidade e a liberdade, romperemos o assovalhamento colonial de séculos do povo galego. Desses anos moços conservava a memória dum amigo, Ramom Rial Seixo, as actividades da revista Céltiga e as dos coros, que daquela cumpriam a funçom que hoje os conjuntos de música celta. No Ultreia, dirigido por Manuel Prieto Marcos, cantou e ali conheceu a que seria sua mulher. Ali cresce a sua paixom galeguista, ainda que nom foi membro da Sociedade Nacionalista Pondal. Conhecia e era amigo dos mais dos seus membros, mas o compromisso fai-se nele activo na época posterior, na guerra civil. Em 1930 casa com Mercedes. Na festa da boda, na casa da noiva, cantou Suárez Picalho e tocou o piano Eduardo Branco Amor. Na casa dos sogros viverá um tempo até que, em 1934, se estabelece na rua Federico Lacroze, nº 4086, no bairro da Chacarita, onde nascerám os filhos e terá tenda de roupa no ramo que melhor conhece. Por entom já participa activamente na vida da colectividade. No ‘36 nasce-lhe o seu filho Carlos, no ano seguinte o segundo -Demétrio-- e no ‘51 Maria do Carmo.

O centenário do nascimento de Rosalia, em 1936, nom se pudo comemorar polos acontecimentos da guerra civil, na pátria e na emigraçom. No mês de Julho de 1939 fijo-se em Buenos Aires ua semana de actos, brilhantes e dignos da cantora do Sar. Abraira foi o secretário da comissom organizadora. Nestes anos já é o nacionalista activo que deixou pegada em todos os que o conhecêrom.

Associado ao Centro Galego de Buenos Aires, participa na fundaçom da agrupaçom interna A Terra. Como secretário dela no ‘40 concorre a Montevideu para receber o Guieiro Castelão, quando este veu para a Argentina. Nos dez anos posteriores da vida de Castelão, Abraira foi um dos seus amigos mais fiéis. E nom duvidava ao afirmar que conhecer Castelão foi o acontecimento central na sua vida. Desde essa chegada até a morte da senhora Virgínia -viúva de Castelão-, Abraira e a sua mulher, junto de Manuel Puente, Rodolfo Prada, Perfeito López, Luís Seco e outros, tivérom sempre o cuidado do bem-estar do ilustre matrimónio. Mortos Puente e Prada, Abraira foi recolhendo com zelo quanta documentaçom do Guieiro topou com o intuito de restituí-la à Terra. O Museu de Ponte-Vedra dispom hoje dum importante fundo da obra de Castelão mercê da constância teimuda do nosso infatigável “Tavão”. Rematando este seu labor de verdadeiro testamenteiro, em Junho de 1984 acompanhou a repatriaçom dos restos do prócer. Viajou do seu pecúlio, enquanto os que em vida lha figeram impossível fôrom com passagem oficial pagada à conta do povo galego. Deu Abraira assim, mais ua vez, cumprimento à sua obriga de lealdade a Castelão e à Galiza.

Extenso e afervorado foi o seu labor patriótico do Tavão. Ao criar-se em 1941 as Irmandades Galegas, instrumento da política galeguista de Castelão, entom presidida por Antom Alonso Rios, Abraira é seu secretário e como tal organiza as de Mendoça, Rosário e Montevideu. Aqui vemos ua constante de toda a sua vida: nunca figura adiante, sempre trabalha num segundo plano como verdadeiro motor. Pudera pensar-se que por nom ter estudos superiores lho coutava, mas equivocaríamos a análise. Por um lado, era homem de muita leitura e grande conhecimento do mundo e da política, que frequentara pessoas do maior nível intelectual; por outro, palpitava nele a paixom da eficácia estratégica e ua entrega aos ideais que reflectia fielmente a que vira em Castelão, entrega que apurou de todo qualquer rasto da vaidade pessoal, que no fundo deveu de ter mas que reprimiu.

No período 54-58, em merecido reconhecimento pola tarefa desenvolvida no seio da colectividade, integrou como vocal a Honorável Junta Directiva do Centro Galego de Buenos Aires, colaborando na comissom de cultura e acçom social. No ‘56, coincidindo com o centenário do histórico “Banquete de Conjo”, celebrou-se em Buenos Aires o Primeiro Congresso da Emigraçom Galega em América. Assistírom, entre os delegados vindos de todo o continente, Emílio Gonçález Lôpez, por Nova Iorque; Gerardo Álvarez e Maximiliano Matalobos, por Cuba; Marcial Fernández e Francisco Comessanha, por México; José Velo Mosqueira, pola Venezuela; Luís Tovio, Canaval, Meilám e Martínez Castro, por Montevideu; e Ramom Suárez Picalho, polo Chile, além de inúmeras e importantes representações da colectividade galega da Argentina. Deste congresso, presidido por Manuel Puente, Abraira também foi secretário.

Em 1968 celebrárom-se nesta cidade os “Jogos Florais do Idioma Galego”, aos que assistírom, entre outros escritores argentinos de importância, Jorge Luís Borges e Francisco Luís Bernárdez, de antepassados galego-portugueses. Abraira participou da sua organizaçom, sempre de atrás, ainda que apareça como secretário de actas.

Apaixonado, generoso e às vezes desmesurado, o seu amor à Galiza era total e irrestrito. Impulsou com Manuel Pedreira o periódico reintegracionista Pátria Galega, cujo primeiro número apareceu em Abril de 1982. Nesse mesmo ano, assina o manifesto reintegracionista que ADIGAL vem de reproduzir no seu número 4, como antecedente histórico desse movimento. Aqui quadra novamente precisar que ele era o promotor, o autor da ideia, o que punha a trabalhar os que deviam redigi-lo, assiná-lo, enfim, o que na penumbra imaginava, concebia, juntava, aguilhoava. Sua foi a ideia dos “Simpósios Internacionais da Língua Galego-Portuguesa” organizados em Buenos Aires polos Amigos do Idioma Galego, que entom eram alunos dos cursos reintegracionistas, daquela sem outra estrutura orgânica que o seu cérebro febril. O primeiro reuniu-se na Biblioteca do Centro Galego de Buenos Aires, os dias 12 e 13 de Agosto de 1983, com assistência de linguistas da Galiza, área luso-brasileira, Catalunha e a Argentina, e com a presença especial da doutora Maria do Carmo Henríquez Salido, presidenta da AGAL. O segundo Simpósio, em memória de Rosalia no centenário do seu passamento, celebrou-se no mesmo âmbito, os dias 22, 23 e 24 de Agosto de 1985, com a presidência de honra da doutora Henríquez Salido e do insigne professor doutor Ricardo Carvalho Calero. Repitamos o que já se dixo desses acontecimentos: “Cúmpre salientar que tanto nua como noutra ocasiom a organizaçom dos actos contou com a animaçom de José Bieito Abraira, o Tavão, sempre aguilhoante, às vezes enfadonho mas nunca claudicante”.

O sábado, 5 de Setembro de 1987, já convalescido dua intervençom cirúrgica, estivo como sempre nas aulas de galego reintegrado, entom ditadas fora do Instituto a causa da atitude prevalente. Sente-se mal, concorre ao Centro Galego e, ingressado, morre às dez e trinta do dia seguinte. Em 1983, ante a presidência da AGAL, predixera que antes de cinco anos teria de reunir-se com os que se adiantaram a partir. Muitos som os que lembrando as suas palavras desses momentos tenhem a convicçom de que ua percepçom quase extra-sensorial dos acontecimentos políticos que na Galiza estavam para produzir-se deitou a gota que transbordou a copa da sua tristeza e o levou a deixar-se morrer. Que a paz esteja com ele, que tempos melhores virám e o seu espírito estará presente.

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