Pátri Casal, estudante, desportista e luitadora: «Sonho com correr com a camisola da Galiza nos Jogos Olímpicos algum dia»

Pátri Casal, estudante, desportista e luitadora: «Sonho com correr com a camisola da Galiza nos Jogos Olímpicos algum dia»

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Patrícia Casal (2)

Patrícia Casal (5)Patrícia Casal é de Viveiro, nasceu em 1995 e cursa Filologia Inglesa em Santiago, ainda que não seja o que gostaria de estudar. Define-se como reintegrata, desportista, umas vezes masculina outras feminina (dependendo do dia, do momento), um pouco tola, feminista, inconformista, rebelde… uma explosão de gargalhada e pura energia que tem muito interesse em participar e aprender tudo sobre a língua. Além disso, adora correr, pertence a um clube de atletismo em Santiago, e compete meio fundo. 

Adoras atletismo, qual é a tua especialidade? que desportos praticas, onde competes e tens competido… onde gostarias de correr nos próximos anos?

Já figem fitness e joguei futebol, mas escolhim o atletismo porque é o que mais me agrada. Futebol, agora só jogo de quando em vez, aborreceu-me um pouco. Tivem algumas más experiências, mas no atletismo, além de ser o que mais me agrada, nunca saquei nada negativo…

Eu treino para competição de meio-fundo, mas com vistas a fazer fundo mais adiante. Devo dizer que adoro qualquer prova e distância. Tudo o que seja correr é a minha paixão. O que mais me custa a assimilar é o descanso.

Sempre corrim pela minha conta, até apenas tivem a oportunidade de competir no futebol, onde passei por vários clubes de sala e campo, começando no Viveiro de futebol sala até chegar como máximo à segunda divisão com a SD Compostela. Para mim foi muito importante a SD, hoje já desaparecida a secção feminina, porque era um dos meus sonhos, primeiro poder jogar futebol campo (que em Viveiro não há) e jogar numa equipa que, além de admirar e mais que isso, representava e significava muito para mim.

Dei-me conta que preferia correr quando o meu irmão me corrigia erros no futebol e me dizia que corria debalde, e eu sabendo isso, gostava de correr, debalde e sem necessidade, durante o partido. O futebol começou a me cansar e parei, mas atletismo nunca me cansou, correr fascina-me: não a sensação de terminar de correr, como dizem muitas/os, quando acabo de correr entristeço, porque não posso ir além…

Patrícia Casal (1)Este ano é o primeiro que tenho a oportunidade de competir na pista (de atletismo), já que em Viveiro não há equipa e nunca puidem correr para um clube, e sempre corria sozinha… Mas este ano a por todas!!!!

Tenho que fazer controles prévios para ver o tempo exato na pista, mas nas corridas na rota depende da distância, não posso dizer um tempo nem uma distância exatos porque não andam bem medidos… São apenas referências, mais ou menos, em dezembro começa o bom, a pista!!!

Calculo que nos 5 km o meu tempo é inferior a 20 minutos e bastante superior a 15 minutos, mas não posso dizer muito mais. Figem uma prova de milha neste fim-de-semana (que nem era milha, estava mal calculada a distância), mas não se publicaram os tempos, ou de momento… (melhor porque corrim fatal, ou pior! (hahaha).

Gostaria de correr sempre formando equipa com o meu adestrador, Pablo Ríos, uma das pessoas mais importantes da minha vida. Todas as palavras lhe são poucas, assim que não me enredo… Admiração, como atleta e como pessoa, e agradecimentos!

Seria um sonho poder dedicar-me e viver do atletismo, treinar várias vezes por dia (às vezes fago-o, ainda que Pablo não esta de acordo pelo momento… e eu sei que não devo, mas apetece-me hahaha).

O objetivo número um é divertir-me, curtir, ser feliz neste desporto. O seguinte e conseguir os máximos êxitos possíveis. Defender a Galiza, nos Olímpicos… Seria o máximo para mim.

Qual a tua relação com a língua? Falas galego desde sempre ou és neofalante?

Sempre falei as duas línguas, dependendo da situação, da gente… Mas costumava empregar mais o castelhano.

O meu contato com o galego é o típico caso de filha criada em castelhano, mãe, pai e avós falam galego… Quase todas as minhas “amizades” falam castelhano, e a sua não aceitação da minha mudança ao reintegracionismo levou-me a perder o contato e, claro, a “amizade” com algumas. Também com familiares me aconteceu o mesmo. Foi difícil, incompreensível, mas agora isso pouco me importa, até o contemplo como algo positivo, saber um pouco mais de quem me rodeio.

A minha vida sempre foi um pouco complicada, devo dizer, ainda que ao mesmo tempo é egoísta dizê-lo: todas/os temos vidas complicadas e com dificuldades… Mas é o mais sincero que posso dizer, o que sinto. Desde pequena fui maltratada e desprezada, por gostos, ideias… agora sei que por insatisfações dos maltratadores com eles mesmos. E provavelmente isso me motiva a querer justiça em todos os âmbitos: seja com o galego, o reintegracionismo ou todas as cousas.

Agora estou na Universidade, estudo Filologia Inglesa em Santiago, ainda que não seja o que gostaria de estudar. O meu máximo interesse é o atletismo. Sinceramente, é o que me motiva. Além do atletismo, motiva-me luitar por fazer justiça. Isso e ajudar a minha mãe, que vive uma situação de maltrato. Não sou capaz de centrar-me em estudar, mas quero sair deste círculo quanto antes e poder fazê-lo, para poder ter supostamente mais probabilidades no futuro de encontrar um trabalho… Ainda que já não tenha claro se vai ser assim…

Compatibilizas, daquela, estudos com o atletismo, como foi o teu contato com a estratégia reintegracionista sendo tão nova?

Sim, um pouco assim, mas agora não sou quem de me centrar muito na carreira… Estudo Filologia Inglesa e no segundo ano cursei as matérias de Sociolinguística e Tipologia, lecionadas por Teresa Moure.

Poderia dizer-se que cheguei ao reintegracionismo graças à minha professora, a Teresa Moure. Foi nas suas aulas quando conheci o reintegracionismo, e também aprendim coisas muito importantes sobre as línguas, sociedade, justiça… Então optei por mudar a minha atitude e contribuir no que fosse possível…

Tornei-me radical, considero que qualquer pessoa que more na Galiza deve entender o seu idioma, e que esse idioma não é outro que o galego-português, galego, português, com os matizes que as pessoas que o falamos lhe ponhamos. Toda pessoa que esteja na Galiza assentada devia entender o galego, que não quer dizer partilhar, mas sim entender e respeitar. Porque há gente que desconhece o galego, ignora tudo e ainda assim estão fixas/os na sua ideia, não se abrem, são contra… É apenas uma questão de respeito e diversidade cultural, aceitar as culturas não quer dizer excluir outras. E ainda que penso que pouco posso aportar, este tipo de desrespeitos não se podem passar por alto e ficar indiferente.

Ainda que as cousas mudaram, tal como destacas, passar a ser uma ativista galego-falante por vezes é uma cousa complicada. Reivindicar, ou tratar de fazê-lo no reintegracionismo mais ainda, como é a tua experiência?

Patrícia Casal (3)Uff… Todas essas cousas… Não é fácil. Perdim “amigas” e “amigos”, até mesmo as minhas relações, especialmente comprometeu a imagem que tinha dalgumas pessoas, fiquei “decepcionada” nesse sentido, mas ao mesmo tempo satisfeita de conhecer bem mais às pessoas…

Na minha família e amizades há quem não entendeu isso. Tentei explicar-lhes o tema e consciencializá-las mas penso que não tem a ver com o reintegracionismo, mas com a minha pessoa…

Tivem muitos outros casos gratos e não gratos, cada um diferente. Ainda predomina a burla e o desrespeito cara a mim e à minha escrita e fala. Muitas vezes me desencorajo, estes debates e desencontros deixam-te sem forças, mas continuo com vontade de seguir a luitar.

Teresa Moure é a minha outra adestradora, muitíssimo importante, no atletismo e na vida, a minha referência, ajuda, guia… Um verdadeiro ídolo e bela pessoa.

Agora tenho uma atitude mais controladora e reservada. Fui aprendendo e agora miro mais com quem emprego esta estratégia, como a emprego… Para que resulte o mais efetiva possível e, ao mesmo tempo, que não me suponha algo que me “prejudique”, para dizê-lo dalgum jeito. Aprendi a controlar mais com quem pode ser eficaz este discurso, e a língua que falo, seleciono-a dependendo muito da pessoa à que me dirijo, se convém ou não. Tenho muito que aprender ainda. Assim que o estou a tomar algo mais relaxada, mas sem pausa.

Onde mais respeitam que fale galego é no clube de atletismo.

Por onde deve caminhar o reintegracionismo e/ou o movimento normalizador?

Não entendo bem a pergunta, mas penso que se deveria expandir a todos os campos possíveis, o galego direitinho deve ser ensinado de nascimento às crianças.

Muitas vezes não sei como me explicar… Quero dizer que há que conseguir que em todos os campos se empregue o galego original da Galiza, a variante do português na Galiza, que não deixa de ser português.

Como está a questão língua no mundo do atletismo? 

Em atletismo dão igual as línguas, acho que a questão não preocupa, mas é que o atletismo está um pouco à margem, não sei é comparável o desinteresse pela língua à pouca atenção e importância que se dá ao atletismo fronte a outros “desportos”.

Agora, onde mais respeitam que fale galego é no clube de atletismo, respeito máximo. E mesmo companheiras e companheiros passam a me falar na nossa língua quando eu me dirijo em galego a elas/es. Especialmente o meu adestrador, que é uma pessoa muito aberta e justa. Mas, em realidade, todas e todos os atletas som gente que não mostra problemas para me falar numa língua ou outra, gente aberta, isso observo.

Na beira do tópico… Já há quem comparou o reintegracionismo e os reintegracionistas como corredores de meio-fundo e fundo, como especialista o que opinas desta metáfora?

Patrícia Casal (2)Hahaha… Pode ser uma boa comparação… No meio-fundo, nem vais ao máximo, nem tampouco é totalmente aeróbico, para nada… Há que desenhar e fazer uma boa estratégia, mas há que sofrer desde o primeiro metro até o último, até que não sentes as pernas e a visão torna-se escura.

Eu provavelmente também compararia o reintegracionismo com os 5000 metros lisos, seguramente porque é a minha prova favorita, mas a minha tática nessa carreira é comparável à estratégia reintegrata… Começar forte, perseverar, e no terceiro e quarto quilómetro, motivar-me e quando as demais vão mais rendidas, dar-lhe forte e até a meta!!! Ainda que também haja quem considere os 5 mil como uma prova de meio-fundo. Nos 5 mil, pessoalmente, e mesmo nos 10 mil, cada vez noto que o meu corpo dá mais, ainda que ao princípio me custe levar o ritmo que me ponho, mas logo vou solta!! Encanta-me!!!!!!

Finalmente, penso que se tenho que escolher uma prova para comparar o reintegracionismo, decido-me pelos três mil obstáculos. Uma combinação entre fundo e meio-fundo, com obstáculos, e com um obstáculo em cada volta em que cais num poço com água, aí sempre há que se molhar!!! sempre há que “pringar” mas tens de continuar e correr!!!

É como naquela corrida do Evan Jager contra os africanos, superiores biologicamente, dizque. Esta corrida representa tudo o que quero dizer. Ele tropeça e cai nos derradeiros metros, o que lhe custa o primeiro posto, mas, esse 4 de julho, bate recorde pessoal e da América.

https://www.youtube.com/watch?v=JYuZuIjOxwA

Que visão tinhas da AGAL, que te motivou a te associares e que esperas da associação? Que poderias tu achegar a ela?

Em primeiro lugar quero agradecer a ajuda e compromisso pela vossa parte, obrigada de poder formar parte desta associação.

Não conhecia muito, mas tinha ideia de que era uma associação para potenciar a reconstrução do galego. Mas agora quero ajudar o máximo possível, quero só ser uma mais, aprender a escrever, luitar e fazer tudo o que estiver na minha mão, e poder lograr os objetivos do reintegracionismo!!

Acaba de me vir uma ideia, mas seguro que é uma toleada, ainda que eu cha comento porque nunca se sabe, e gostaria muito, ainda que seguramente seja uma parvada… Uma associação desportiva na AGAL, seria positiva e potenciadora? Falo com a gente e pomo-nos com isso?

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2030?

Na Galiza fala-se a mesma língua que em Portugal, mas com matizes diferentes. Uma língua que não está influenciada pelo espanhol

Ah… Quero dizer mais algo, fica muito longe, mas sonho com correr com a camisola da Galiza nos Jogos Olímpicos algum dia!!!!

Conhecendo Pátri Casal

  • Patrícia Casal (5)Um sítio web: iaaf.org
  • Um invento: tartan
  • Uma música: Blank Space, de Taylor Swift
  • Um livro: Ostrácia
  • Um facto histórico: a mulher nos Jogos Olímpicos
  • Um prato na mesa: salmão com macarrão e cuscuz (que não falte a coca-cola) hahaha
  • Um desporto: atletismo
  • Um filme: Jogo de Sedução (2001)
  • Uma maravilha: Hayward Field
  • Além de galego/a: luitadora?

 

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