Concha Rousia: “Os poemas aqui recolhidos são gritos denunciando a dor terrível que vivemos os galegos e galegas, vendo como a nossa riqueza cultural é moída pelas areias do tempo e o descuido dos poderes que não apenas não nos protegem, esses poderes nos

Concha Rousia: “Os poemas aqui recolhidos são gritos denunciando a dor terrível que vivemos os galegos e galegas, vendo como a nossa riqueza cultural é moída pelas areias do tempo e o descuido dos poderes que não apenas não nos protegem, esses poderes nos

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Concha Rousia apresenta em várias localidades da Galiza e Portugal o seu poemário ‘Se os carvalhos falassem’ uma das últimas novidades de Através editora.

Daniel Amarelo Montero e Ernesto V. Souza, falam com ela, para saber do seu livro, da sua obra e da intensidade da sua voz poética numa longa entrevista para os leitores do PGL.

 Fotografia enviada por Fotografia de Luís Pedro Viana, na Galeria Vieira Portuense


Fotografia de Luís Pedro Viana, na Galeria Vieira Portuense

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[EVS] Concha Rousia é uma presença na rede, navegou a lusofonia partindo da singularidade, a humildade e a reivindicação, para voltar como uma voz e presença poderosa. A sua fecunda produção poética, espalhou-se da Galiza ao Brasil, chegou a ser habitual nas redes… mas agora, por que um livro em papel? E por que este livro? Esta escolha dentre tantos possíveis?

Pois a primeira razão para o livro em papel pode até parecer egoísta, mas foi ter todos esses poemas que inclui aí, prontos para me acompanharem aos meus recitais. Adoro recitar muitos dos poemas que aí estão, e nem sempre os encontrava na hora que os necessitava, havia sempre algum a faltar. Para, além disso, esses poemas em particular representam as minhas origens na poesia; o próprio texto que terminou dando título ao livro foi escrito em 2005, outros foram escritos mais recentemente. São textos que me resgataram de algum sofrimento no passado, em parte por viver numa realidade cultural que tão duramente nos trata, especialmente aos que escolhemos dignificar a nossa língua com a ortografia internacional, e a nossa memória indígena. Acho que uma parte de mim se recusa a perder o saber antigo; esse saber que me foi dado, esse saber que viajava na oralidade; agora quase só consigo aceder a esse saber mergulhando na memória, mergulhando para me afastar da racionalidade limitante.

 

[EVS] Como foi o processo de produção do livro. Como terminou sendo editado pela Através? Gostas do livro?

Adoro o livro, os poemas como fotografias, testemunhando o meu sofrer por carregar um legado cultural que me foi entregue com amor polos meus pais, e pola minha tribo. Vivemos numa Galiza, e num mundo global, que não respeita (não realmente) o nosso passado. A capa foi feita com uma fotografia que tirou a minha filha adolescente na aldeia natal; a Nerea fez, com essa imagem, uma casa para os meus versos. Desse jeito ficam vinculados os meus mundos, passado e futuro. A Através é a editora amiga a quem confiar algo do máximo valor para mim, Através é a minha editora de escolha. Adoro os trabalhos que realizam, e gosto de fazer parte desse grupo de escritoras e escritores publicadas pela Através. A Através é um lugar mágico, com duendes e fadas que conseguem realizar sonhos; é a nossa aldeia literária, e repara que digo nossa…

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Com José Goris na apresentação na livraria Cartabón de Vigo

[DAM] Este é um livro que quer “que nos beije a língua / que nos salgue as feridas / que nos expulse o nojo / e bote fora a imundície que nos abafa”. Até que ponto os poemas aqui recolhidos pretendem ser um chamado ético, prudente, humano, fraternal?

Os poemas aqui recolhidos, muitas vezes, são gritos denunciando a dor terrível que vivemos os galegos e galegas, vendo como a nossa riqueza cultural é moída pelas areias do tempo e o descuido dos poderes que não apenas não nos protegem, esses poderes nos oprimem. Não avonda fazer políticas com a intenção de ajudar nesta guerra cultural infame que nos leva à extinção, à morte cultural; os poderes públicos têm a responsabilidade de criar as políticas de justiça para a nossa cultura. Não têm que salvar a nossa língua, não, só tem que frear o assassinato, o nosso abafamento por parte da língua do poder estatal. Não é muito pedir. Se o não conseguem, devo crer que realmente não querem. A minha poesia sangra, quem sabe algum dia, esse sangue chegue a alguma transfusão de vida. Com essa força escrevo. Estamos isolados por uma grafia que nos incomunica com os oceanos da nossa língua. Sós, expostos às armas todas do inimigo (o centralismo atilano) sem termos para onde fugir. Mas é um cantar fraternal, feito desde o amor; quem salva seu mundo com amor, salva todos os mundos com ele…

[EVS] Rosalia de Castro, naquele poema elegíaco aos carvalhos de “En las orillas del Sar” lamentava a destruição das grandes fragas e a substituição com machado homicida dos carvalhos por pinheiros… a destruição dos carvalhos é dalgum jeito um símbolo da destruição da língua, da memória… sem a memória e a memória é a nossa narrativa, a nossa cultura comunitária, tudo recolhido em e pela nossa língua, que somos?

Se os carvalhos falassem, os gritos abafariam qualquer som intruso que viesse ofender ou matar, se os carvalhos falassem, o nosso mundo estaria a salvo, se os carvalhos falassem nós estaríamos construindo formas de cultura sustentáveis, se os carvalhos falassem não haveria mais eucaliptos. Somos os filhos e filhas do bosque sagrado, mesmo que ninguém o leve na sua memória cognitiva. Levamos isso no saber profundo do nosso ser; levamo-lo na nossa filosofia, no nosso jeito de entender o mundo. Entendemos isso quando lemos ao filósofo galego Espinosa, e eu entendia-o quando ouvia falar a minha mãe das divindades; da Mão Poderosa que fez os penedos e o sol. Somos celtas, filhas e filhos de druidas, somos memoria sem lembrança, somos, mesmo com toda a falsidade que nos nega. Mas nós, como diz o verso: “jamais nos renderemos”, nem querendo rendermo-nos, que não queremos, poderíamos, pela imensa força da nossa resistência… Felizmente os carvalhos falam dentro de alguns de nós; seremos ecoar até o infinito.

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Assinando livros na Livraria Cartabon, Vigo

 

[DAM] A obra trata temas transcendentais e universais como a Língua, a Família, a Natureza, a Pátria, a Morte, a Mulher etc., todos eles com maiúscula, mas não esquece as raízes e, nesse sentido, é um poemário marcadamente galego. Como conjugas a universalidade e a eterna vigência com as raízes e saudades nesta entrega literária?
O amor é o sentimento mais universal que há na vida. Portanto quando narramos qualquer cousa desde o mais profundo desse rei dos sentimentos, o resultado é, necessariamente, universal. Universal não quer dizer abrangente da totalidade do universo; universal, como eu o entendo, tem a ver com a profundidade à que somos capazes de ir com um determinado assunto, por diminuto que esses assunto seja. Como dizia o grande Miguel Torga: “O Universal é o Local Sem Muros” Então, tiremos os muros e deixemos que o que é nosso seja usufruído pelo universo ao que consiga chegar. Ergamos muros de proteção, sim, para frear a morte por abafamento cultural de uma cultura alheia que não precisa da nossa morrer para ela viver, pois ela tem o seu espaço natural: As Castelas e Andaluzia, e tem a América Latina. O nosso modelo atual é o inverso do que seria salutar e desejável. Os muros que sofremos encerram, com as grafias do castelhano, a nossa cultura aqui dentro, asfixiando-a; e, por outro lado, são muros que não nos protegem do inimigo, a língua do poder central que nos leva agredindo e matando, culturalmente, desde a noite dos tempos.

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Apresentação em Ginetes São Miguel, Açores.

[EVS] “Se os carvalhos falassem” é um título rotundo. Raiz, porte, cerne, força, seiva, sabedoria, vida e velhice… é dalgum jeito um canto à memória da tribo, à memória histórica?
É um canto a um druida, é um canto ao pai; esse homem líder, capaz de gastar todo o unto de cobra que guardara, salgado e afumado, para os remédios no inverno, e com ele livrar um homem desconhecido da morte certa com que o deixaram os carabineros no monte. Esse título, como o poema, é homenagem a esse homem. O Emilio, o pai, nasceu no dia 4 de outubro, como eu e como a mãe dele. O Emílio sabia as palavras mágicas (que não se entendiam) que acompanhavam o cutelo de ferro, o sal e o lume, quando nos corria o coxo: curava os eczemas na pele. O pai tocava os sinos para deter o trovão quando ameaçava com vir. O pai enterrava todos os defuntos, tocava os sinos por todos os mortos. O menos que eu posso fazer é o que todos desejam, honrar a sua memória, fazendo isso estou curando do que de mais sagrado há a mim: a memória coletiva; a memória da tribo, respondo ao pedido que me foi feito:  “Irmã, tu que sabes, escreve os nomes do monte…” E é isso o que eu faço.

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Em Ginetes,Sao Miguel Açores

[EVS] A Concha foi índia de pés despidos na infância, também exploradora de novos mundos verdes e de terras de especiaria, foi também Penélope que se largou ao mar…  O que significa para uma poeta da Galiza navegar pela rede? O que se encontra nessa odisseia, nessa peregrinação? O que se descobre de nós dentro aí fora?

O mundo aí fora é um espelho em que ao olharmo-nos vemos o quanto o espelho tem de nós. A nossa é uma terra antiga, sábia, mas ficando aqui dentro dela nem sempre a enxergamos direito. É preciso sair para medirmo-nos com o mundo e ver que somos de um tamanho, não apenas digno, mas somos, se se me permite dizer, bonitos, somos antigos, e modernos, somos resistentes, somos catedrais… Eu sou filha de um mundo ainda bastante virgem, cresci sem televisão, e inclusive sem livros, cresci na oralidade; talvez seja por isso que consigo ser essa voz que sou; capaz de ir aos séculos da infância e ao mesmo tempo saltar ao presente mais atual, e já estou, eu sei que estou, no futuro. A rede é um mar de liberdade, oferece uma comunidade para termos espaços coletivos a que podermos aceder de um jeito que pode ser de grande utilidade. Andando por aí fora vamos descobrindo o perfume da Terra maravilhosa que chamamos de nossa. Choramos quando vemos o bem que a nossa terra nos criou para sabermo-nos defender em qualquer contexto. Sou imensamente grata por isso.

[EVS] A Concha é desde há muitos anos uma espécie de embaixadora da Galiza na lusofonia. Lusofonia é um termo que muito se questiona, porém para nós acho que tem uma noção diferente, positiva, de sonho e realidade, de meta e objetivo. Que é a lusofonia para ti?

A Lusofonia para mim é um banco de sonhos, os meus maiores tesouros. Lusofonia é o lugar onde com serenidade, consigo pousar as minhas raízes sem receio de que sequem. A Lusofonia é oxigénio num corpo que luta pela vida, como a Galiza luta; é oxigénio que vem limpar os ares tão poluídos que temos que suportar na Galiza. A Lusofonia é Mar, é possibilidade de ir, mas é também Cais, é abraço; a Lusofonia são irmãos verdadeiros, sem precisar ser mais nada que um lugar para sermos, para sermos quem somos. A Lusofonia pode ser, como de facto é, muitíssimas mais coisas, mas para mim se resume nisso: um mundo onde que existir sem renunciar a ser o que somos, e sem medo a abrir as asas dos nossos sonhos. Como eu já escrevi: A Galiza para se salvar não necessita um ‘quê’ pois é semente ancestral; a Galiza para continuar vivendo necessita apenas um ‘onde’ esse onde nem sequer é espacial, é um onde conceitual; esse onde é a Lusofonia. Não preciso ir longe para encontrá-la. Desde aqui já a habito, já estou nela: acordo nela, tomo café nela, amo nela, e vou dormir nela… A Galiza é o meu cantinho na Lusofonia, e tenho toda a Lusofonia aqui dentro, sem sair da terra, mas também adoro ir conhecer outros lugares irmãos nesta nossa Lusofonia.

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Na Apresentação na Lila (Santiago)

[EVS] A língua poética, trabalhada durante anos em contato com leitores lusófonos e compartilhada com poetas, trovadores e rapsodas galegos, é parte dessa “cultura profunda” que está a legar o reintegracionismo ao acervo comum da cultura e da língua na Galiza?

Sem dúvida, os nossos versos e as nossas almas retornam enriquecidas, curadas depois de voarem pelos mundos livres, e nossos, da Lusofonia. A hispanofonia, para um escritor ou escritora da Galiza, pode ser (é) limitador, mutilador, porém a maioria dos escritores galegos em norma RAG julgo que bebem nessas fontes que tanto dano levam feito às nossas letras. Hoje quem quiser pode viver sem tocar a hispanofonia, eu sou esse exemplo. O reintegracionismo costura asas que não necessitam voar por áridos desertos; tudo o que se precisa na Galiza é pessoas sem medo de voarem.

[DAM]) Há muito de metaliterário e reflexivo nos teus versos. Uma velada dúvida corre sigilosa por trás quando qualquer pessoa lê o livro. É para ti a escrita um exercício ou atividade libertária, que permite ficar a sós com a poesia, com a linguagem, com mais absoluta e natural nudez?

Definitivamente. Exatamente como tu dizes, fico nua, mas a sós; dispo-me para os outros, mas quando eles não estão. Na poesia sou absolutamente livre, e o que é mais importante, na poesia permito-me olhar o monstro nos olhos, e arrancar o meu mundo das garras dele. O sonho é meu. O inimigo jamais poderá entrar nesse sagrado. Poesia é meu templo, com meus deuses. Poesia e Galiza são por vezes, muitas vezes, a mesma palavra.
[EVS-DAM] A tua poesia levanta-se sobre uma densa obra anterior, da que se nutre e vai elaborando, trabalhando uma e outra vez, ensaiando, na procura mais precisa e sintética  da forma com que soltar, como ao acaso conceitos, de ideias, de reflexões e sentimentos de rara profundidade. Cadernos, blogues, poemários coletivos, atos poéticos… como é a criação desta poesia em contínua revisão?

A criação desta poesia, é um exercício de intuição, é um caminhar contínuo, como tu disseste; é um ir atando fios que vão tecendo esse caminho e nos que me vou tecendo a mim própria, por vezes ficam buraquinhos de saudade por deixar para trás coisas que tenho que deixar, certa inocência, uma maior simplicidade, e outras coisas que tenho que ir deixando para levar estes fios com os que vou tecendo as minhas cousinhas. A minha escrita só tem um objetivo, acho, pousar tudo que vi, tudo que sei, tudo que me deram do nosso mundo… Não quero morrer sentindo que levo isto para o silêncio, isso é o verdadeiro valor do que faço. Pôr a salvo os tesouros da minha herança cultural, de resto não conservo mais nada. E vou reelaborando, como em conversa comigo mesma, sozinha também se pode ser tribo; ciente de que com cada reelaboração, a mesma coisa é algo novo, pode até chegar a ser o oposto… Não é contradição, não, é incorporação.

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Recitando na apresentação na Arca da Noe

[EVS] Se deixamos dizer à palavra observamos no livro uma constante de pedra, madeira, vento, água, de casa, de mulher, clã… e de tempo. É espetacular a presença do tempo no livro. Uma reiteração do “foi” dalgum jeito comparado com o “é”. E essa ideia da mãe viva de filhos mortos….É ruína, é saudade, protesto? Que é o que dói ao ler os poemas?

O que dói é a pergunta: Por quê?  Por que a nós que somos um povo acolhedor, um povo que recebe de braços abertos, de portas, abertas; por que não temos a propriedade do que é nosso? A pergunta é filosófica, é profunda, não me valem respostas retóricas. Esses elementos que me assinalas, sim, eu necessito acreditar nisso, a dureza e resistência da pedra; a sustentabilidade do nosso mundo capaz de ser completo sendo de madeira. Somos isso, peças a costurar no tempo, porque somos apenas memória, e mais nada. Enquanto a mãe for viva tem a capacidade de parir filhos vivos, por enquanto continuam nascendo mortos, bastante mortos. Há protesto, há tanto protesto quanto podem suportar as palavras, há ruína, há saudade, e há paixão pela vida, pela luta. Como uma ervinha rompe o asfalto, romperei eu o silêncio… ou viverei tentando.

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Apresentação na galeria Vieira Portuense

[EVS] O livro tem bastantes poemas, é uma simples auto-antologia? ou é mais poderia dizer-se que como um velho “Livro de Horas” tem um para ler um em diferentes momentos do dia. Dalgum jeito é um livro reflexivo, espiritual mas laico, para ler espaçando os poemas, sem necessidade de ordem narrativa, deixando-se levar. Repararas nisso?

Não sei se reparara, pelo menos não conscientemente, mas é isso um livro profundamente espiritual, laico, que oferece diferentes paisagens para diferentes estados emocionais, ou diferentes momentos do dia, da vida. Eu mesma me impressiono por vezes quando nas apresentações que se levam feito do livro, ouço um dos meus poemas ser recitado por outra pessoa… Penso que há um diálogo fluido entre todos os textos, mas cada texto é perfeitamente individual e acabado, como frutas individuais de uma mesma árvore.  Estrelinhas que tem seu lugar na página do céu. Alguns alcançaram, é claro, um grau maior de maturidade.

[EVS] Sendo um livro que conecta com o passado é um livro de presente. Talvez um livro de perplexidades ante um presente que não termina de ser… somos os últimos vestígios das nossas estirpes? O que achas do presente?

Somos o vestígio mais verdadeiro da nossa estirpe, somos a semente, e como tal levamos todo o legado do mundo que foi, e portanto sempre será, nosso. Acho que os poemas podem funcionar como óperas, ou obras teatrais que representam um mundo sendo agredido, violentado; mas também sendo resistente. Quando escrevi alguns desses textos vivi a dureza a sensação de estar no final, de ser o último dos Moicanos, hoje penso que não vai suceder isso… Não deixaremos perder-se esta tanta beleza de sermos galaicos; ora, é bem certo que estamos sendo guiados por lideranças absurdas, que fecharam os muros para a nossa língua voar pela Lusofonia, encerraram-na aqui, com grilhetas da grafia do inimigo, enquanto somos bombardeados por essa outra língua… Parece uma imagem do inferno, né? O presente é uma nave, apenas uma nave na que vou ao passado e levo para a frente…

[DAM] O tempo no livro é pois manifestamente profundo, convoca no presente o passado, os primeiros poemas vão dedicados ao pai, à mãe, a Covas, aldeia natal, à Galiza… vozes, presenças do passado. Mas não é apenas um livro melancólico, parece que é um protesto desde o passado contra o presente. Mas o futuro parece ausente do livro? Há futuro?

Há um futuro! Há. Porque há um presente, mesmo que vai escondido, ele está aí, e um dia se desvendará como verdade inegável. O tempo é essencial neste livro. O passado era bem mais merecedor de um outro presente, mais robusto, mais digno, mais livre, mais galaico… Ora bem, das guerras, sabido é, os corpos saem mutilados. Estamos feridos, a nossa língua foi, é, maltratada, violentada, forçada a conviver com o maltratador. Falamos de violência de género, mas ignoramos da devastação da violência linguística. Individual e coletivamente. Mas Galiza ainda é mãe viva, inclusive nos filhos mortos, ela é mãe viva. Então afirmo de novo: há futuro.

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Apresentação na livraria Suevia Corunha com Ramiro Torres

[EVS] Entre os muitos contos breves de Álvaro Cunqueiro há um que sempre me fascinou, é o do costume do lobo quando chega a uma comarca que não é “do seu natio”, segundo o mindoniense, o primeiro que tem de fazer é ir conversar com o carvalho mais velho do lugar, para conversar cerimonial e como ao descuido e ir fazendo averiguações até chegar a saber se aquela nova terra é boa para os lobos, se há homem, se há caça, se outros lobos passaram por aí e ficaram… O carvalho sabe sempre e não mente, é árvore mais senhoril, mais reja e a mais espiritual… que são nesse fundo da  memória enraizado até o princípio do mundo da Concha os carvalhos?

Os Carvalhos são a casa primeira, são o teto dessa casa, e são os limites da pele do nosso ser coletivo. Ao pé do Carvalho maior no meio da aldeia ia eu com o pai as reuniões do concelho; essas reuniões que ele liderava. Aquele Carvalho testemunhou toda a nossa história, sendo também parte dela; é o vínculo com os nossos ancestrais. Para além disso para nós “Carvalho” é palavra genérica para árvore. Nem poderia dizer tudo que eles são para mim. Carvalho é a selha da água, e é o lume, é o carro que traz o pão das leiras e a lenha que aquece o forno. O pão cozer-se-á com carvalho. Carvalho é um sem-fim de infinitos matizes, sabores… O carvalho é metáfora de gente:  “O carvalho que nasce torto é difícil de endireitar”. O carvalho é escola; o meu pai ensinou-me que os carvalhos falavam, mas não me ensinou como falavam. Acho que o poema primeiro é uma conversa com o pai, uma conversa na que ouço o que os carvalhos falam, e ao mesmo tempo estou mostrando para o pai o como de bem eu aprendi…  Mas há, julgo que há, reproche pela enorme solidão que vai no meu canto. Mas não é solidão minha, é solidão da tribo; a poeta é que vai atrever-se a senti-la e descrevê-la.

Entrevista na 105fm Açores uma das 4 participações em programas de rádio.

 

[EVS] Se os carvalhos falassem… é um título múltiplo. Sabido é que falam quando menos com os lobos… talvez é que não querem falar com nós, fazem como de quem para não nos abourar com o peso da memória ou simplesmente que – e será que somos cães? – não lhes sabemos já perguntar?

Se os Carvalhos Falassem, é uma promessa de futuro, porque as pessoas passarão e os carvalhos levarão a memória adiante. Eles falam, mas neste momento ficam calados porque não há quem saiba escutar. Os lobos também andam calados e as pedras também guardam silêncio. Mas a conversa não morreu; e apenas um silêncio premeditado, não desejado, mas escolhido perante um mundo tão ignorante das verdades mais puras. Um dia, os Carvalhos sementaram suas vozes aos quatro ventos. Mas agora ficam calados e daí a solidão.

[DAM] “Se os carvalhos falassem…” o que diriam eles aos leitores e leitoras que se animassem a abrir a sua cortiça e se mergulhar no poemário?

Acho que o livro devia levar uma dessas etiquetas, como levam os pacotes de tabaco, advertindo dos perigos de consumir o produto que vai dentro. Quem ler estes textos vai sentir dores que não tinha experimentado, mas que no entanto iam nele, silenciadas, mas igualmente, o iam matando. Quem abrir e ler vai ver no espelho do poema o que dói dentro dele. A raiz amordaçada da língua, como não vai doer ? A mãe viva, por mais mortos que nós estejamos, como não vai doer? Não tem como não doer ! Mas é dor que vem, não para matar, não para fazer ferida, é dor que vem para curar…

 

***
daniel_amarelo02Daniel Amarelo Montero (Ferrol, 1996).
A sua vida dança entre a comarca de Ferrolterra, onde sentiu a força criativa e combativa da morte (também linguística) e a aldeia de Codesido, em Vilalva, onde absorbeu todo o sinistro e mortífero que a própria vida tem.
Estuda Filologia Galega em Santiago de Compostela, faculdade em que se apercebeu da necessidade e da inevitabilidade de ser reintegracionista.
Neofalante por trás e por diante, e orgulhoso. Presidente da Associação Cultural Kómma, integrante da política estudantil, amigo dos seus inimigos e, às vezes, poeta.

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