Ernesto V. Souza, diretor do PGL: «A genialidade do Portal foi que permitiu reunir pessoal de grupos diversos e pessoas isoladas num espaço comum»

Ernesto V. Souza, diretor do PGL: «A genialidade do Portal foi que permitiu reunir pessoal de grupos diversos e pessoas isoladas num espaço comum»

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[Excerto da entrevista publicada no Portal Galego da Língua]

O Portal Galego da Língua (PGL) estreia hoje diretor: Ernesto Vasques Souza. Colaborador do PGL há uma década, Souza (Corunha, 1970) assume esta encomenda defendendo que o Portal deve «reativar-se, encontrar-se», num cenário totalmente diferente àquele em que viu a luz, no já longínquo ano 2002.

Emigrado em Valhadolid, o novo diretor do Portal faz questão deste assunto numa Galiza que «esquece a emigração», algo que, em sua opinião, «é um erro. Deve-se reivindicar. E os emigrados devemo-nos reivindicar e fazer ver», salienta.

Na entrevista que oferecemos a seguir, Vasques Souza assume como própria a necessidade de fazer com que o PGL continue a transitar polas diversas águas em que se moveu e ainda move, porque «nunca foi completamente o órgão da AGAL, sempre esteve bastante aberto, o que diz para mim, muito bem do reintegracionismo».

Colaboras com o PGL há uma década. O que significa para ti o Portal Galego da Língua?

O PGL é para mim a porta e casa comum do reintegracionismo; um farol-guia cara a um porto seguro numa ilha de fantasia; lumes que, espalhados cá e lá, ardem no bosque de Sherwood; ágora para o debate público; mercado de ideias: passeio onde encontrar gente; clube ou instituição da sociedade civil, no sentido pleno da palavra; um espaço crítico mais formativo que os académicos…

Pois é, uma década; isto é, dez anos a escrever textinhos no PGL, com mais ou menos continuidade, desde que o Valentim Fagim me convidou a participar e a pôr em comum algumas cousas que compartilhava com ele polos correios. Eu acompanhava de quando em quando, mas estava náufrago, isolado, naqueles momentos. Sentia-me afastado de tudo e com uma profunda decepção com a cultura institucional, com as políticas linguísticas, com o mundo académico. Emigrara, ficara deslocado do espaço académico e das fontes arquivísticas necessárias para as pesquisas; as redes sociais ainda andavam em cueiros e, tirando o e-mail, com alguns amigos não tinha relação, nem projeto, nem vontade de mais escrever.

Depois de entrar a colaborar ativamente, comecei a comentar e a participar e debater nos foros, a conhecer gente, a perceber que havia espaços e conjuntos, gente com a qual se trabalhava bem, com que me entendia, com que me comunicava e sentia muito próxima… Afinal, se o meu público e amigos eram todos reintegratas, compreendi que eu também devia ser bastante reintegrata,e como noutra parte  não se me perdia nada… Era 2005 e a realidade política fazia-me pensar que o mundo institucional e a política de partidos não serviam mais para uma política linguística a sério e o movimento «normalizador», enfim, os resultados eram evidentes! E o pior de todo era a trágica desesperança que se transmitia, uma derrota, um programa de resistência absurda e sem atrativo, a morte do galego… Porém, o reintegracionismo transmitia vida, energia, o associativismo arredor da AGAL era uma semente de esperança, de projeto, de objetivos de vontade de participar na vida civil, de abaixo, no qual merecia pena apostar. Aos poucos, estava associado à AGAL, colaborando no PGL e no meio do processo de formação da AGLP.

Estes dez anos têm sido muito interessantes: a primeira parte de um processo pessoal de descoberta e reaprendizagem da escrita, e de debate comum na construção da Língua.

A emigração faz parte da tua biografia. Nascido na Corunha, já estiveste em Pelotas, Chicago, Montevideu ou Buenos Aires. Ainda, há muitos anos que a capital de Castela, Valhadolid, é onde fazes vida. Até que ponto te influiu este percurso vital tão variado?

Ao terminar o curso havia, como hoje, mui poucas possibilidades laborais; estávamos já em crise —sempre estivemos, como diz o genial do João Lombardeiro, é só que o pessoal não era consciente—. O que havia era bolsas de estudos, leitorados e programas de investigação e cooperação tanto na Europa como na América do Sul, a do Norte abria-se ao hispanismo e o Cervantes —nesse interregno entre a invenção e antes de Aznar— tinha ainda uma vocação plurinacional… Entre 1994 e 1997, andei muito polos arquivos galegos e espanhóis: Madrid, Salamanca, Alcalá… Fui pesquisador na Havana e em Buenos Aires, morei uns meses no Brasil e nos Estados Unidos, e fui um ano genial, 1998, leitor de língua galega em Montevideu. Depois, como, afinal de contas, na Galiza não tinha nada e como apostara com a que é a minha mulher —que também andava polo mundo assim nómade— que o primeiro que tirara algo seguro, o outro se apanharia… Ela aprovou uma vaga de professora de FP e fomos para Valhadolid.

É curioso olhar a Galiza a partir de Valladolid. Percebe-se que durante uma época mui dilatada da sua história foi enxergada assim. E não apenas isso; a pegada e presença da Galiza em Castela é mui forte, a humana, a institucional, a cultural, a económica. O noroeste tem uma relação antiga e compartilha uma mesma história e centralidade antiga e periferização moderna. Muito me faz pensar Valhadolid na Galiza de fins da Idade Média e dos séculos XIV a XVII. Muito me fazem pensar os roteiros, caminhos e conexões com Galiza e Portugal do Douro.

Mas a emigração é hoje, efetivamente, parte de mim. E é, acho, parte da Galiza. Um dos componentes fundamentais desde o início no processo de reivindicação e construção da ideia política, cultural e linguística. Um recurso que garantiu capital económico, humano e que confere à Galiza um cosmopolitismo, um fluir de ideias e novidades, de perspetivas, de jeitos, de saberes, sabores mui caraterístico.

Na Galiza esquece-se a emigração. É um erro. Deve-se reivindicar. E os emigrados devemo-nos reivindicar e fazer ver. A Galiza não são quatro províncias na Espanha. A Galiza são os galegos. Os «de fora» estamos bastante mais dentro e, com Internet, chegamos mesmo a ser aborrecidos [risos].

Quais são, para ti, os principais desafios que deve enfrentar o PGL nesta nova etapa?

O Portal deve reativar-se, encontrar-se. O mundo digital mudou tanto desde que o PGL nasceu. As redes sociais são hoje hábito, mas estão especializadas, compartimentadas. Que é hoje o PGL? Já foi um blogue, já foi um foro, uma rede social pioneira, um meio de comunicação social, que tentou competir e informar a partir do reintegracionismo… Curiosamente, nunca foi completamente o órgão da AGAL; sempre esteve bastante aberto, o que diz, para mim, muito bem do reintegracionismo e dessa falta de sectarismo atual nele, no que em parte o Portal é causa.

Como toda instituição passou por épocas mais ou menos apagadas e brilhantes. A cousa é: que quer ser hoje?

Há anos, o grande Vítor Lourenço pensava —numa das mudanças de fase— que o futuro do PGL tinha de ser a qualidade, o debate, a reflexão. O tempo, como bem diz uma e outra vez o amigo José Ramom Pichel, continua a ser um grande capital e um elemento necessário para o desfrute, a formação e o pensamento. O consumo, a moda do imediato, não serve; faz com que os textos de qualidade, as ideias, os temas que devem ser tratados poliédricos e de várias abordagens, passem a ser nada, um momento ou trovão de likes na vertigem de intranscendência e de escrita atualizadora sem efeito, sem desfrute, sem esse leitor seródio ou do amanhã que os percebe. O futuro do PGL, passa —ao meu entender— por apostar pola qualidade, polas reportagens, polas análises, e por concentrar, agendando e garantindo uma periodicidade bissemanal de conteúdos exclusivos, debates, informações e textos de opinião.

 

+ Leia a entrevista na íntegra aqui.

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