Associaçom Galega da Língua

Xorxe Oural, um faz-tudo: "Gostaria que a Galiza de 2020 fosse umha fotografia em movimento até umha normalizaçom já efetiva da relaçom com o resto da lusofonia"

PGL - Xorxe Oural cresceu na Marinha e agora mora em Barcelona, tem umha cunhada e um sobrinho com sotaKI, a sua estadia em Guimarães foi marcante, está por umha estratégia pragmática e social para o reintegracionismo e aspira a que a relaçom com a lusofonia deixe de ser cousas de fríquis.

Xorxe cresceu na Marinha e cresceu em galego. O teu irmao jogou um papel importante no teu labor de consciencializaçom. Como foi esse processo?

Bom, nasci em Viveiro, mas morei desde os quatro anos em Foz (Marinha Central). E ademais, num ambiente onde era consciente da degradaçom cultural e linguística que sofremos. Ainda que nom foi até a adolescência, pela influência do meu irmao, e polo trabalho realizado no interior de associaçons juvenis de recuperaçom de tradiçons culturais, musicais, trajes, etc que quando comecei a ser um pouco mais consciente do assunto. Ainda que hei de dizer que sempre me achei bem estranho do vitimismo ou do nacionalismo rançoso que escutava em algumas pessoas.

O meu irmao foi do MdL da Corunha, lá em finais dos anos 90, e cresci escutando a musica que tinha ele, e lendo em galego, e em "galego do sul do Minho" dos livros que tinha à mao. Mas por fora do plano “intelectual” ele tem a companheira que é do Recife, e tanto com ela como com o sobrinho falamos de forma naturalizada em galego-português.

É comum o caso de galegas e galegas que, no exterior, reparam mais na sua identidade. O teu caso nom é umha exceçom, pois nom?

Fui viver a Madrid com 17-18 anos. Sim, certamente é "no exílio" que nos volvemos um pouco mais conscientes das nossas origens e eu nom fum diferente nisso. Ademais, as pessoas do lugar onde estás perguntam cousas que te obrigam a refletir sobre o que conhecias, o que tinhas assumido como habitual/natural, e de forma inconsciente, fai-te consciente...

Mas nom peguei numa verdadeira consciência ate que fui de Salamanca ate Guimarães para um estágio de um curso. Naquele momento estava a estudar Engenharia Eletrónica. Foi a experiência de viver naquela evoluçom do galego em que reparei, de verdade, e profundamente, no potencial internacional da nossa língua. Foi um verdadeiro choque. Agora penso-o em perspetiva... ver umha placa com umha frase de Castelao no castelo de Guimarães que diz que o galego floresce em Portugal.

Também foi curioso voltar de Guimarães para Foz, e inconscientemente dizia alguma palavra ou expressom de além do Minho, e a gente velha me surpreendia dizendo que assim era como diziam aquilo quando eram pícaros.

Até há pouco tempo a tua visom do reintegracionismo nom era assim mui simpática. Por que mudou?

Mais que da visom, seria da estratégia social. Ate há uns 6 anos, mais ou menos, a percepçom que tinha da estratégia "re-integrata" era que desprendia um ar elitista, academista, ou hiper-ideologizada... Desde há um tempo que venho seguindo a mudança na estratégia, entendo que por umha mais pragmática e social, que é na que eu concordo, em geral, para qualquer movimento que queira ter incidência. Tenho o sentir que é a que está a funcionar, passinho a passinho.

Em tua opiniom, por onde deve caminhar o reintegracionismo se se quer tornar “sentido comum”?

Umm, penso que têm de manter essa linha atual de pragmatismo e de naturalizaçom do reintegracionismo como posiçom mais lógica. Fazer mais acesivel e natural a adopçom do modelo ao comum da sociedade. Tornando-se numha força social que dispute a hegemonia cultural ao isolamento e desrespeito. A médio prazo isso deveria forçar umha mudança do paradigma... ou simplesmente é o que gostaria que acontecesse.

Xorxe leva quase duas décadas a morar fora da Galiza e já nove anos na Catalunha. É umha boa escola este país em termos linguísticos?

Lembro-me de umha das coisas que me chocou mais quando cheguei por primeira vez a Barcelona: escutava o catalám, ainda que era umha cidade! ...vindo de onde vinha foi umha verdadeira surpresa. Depois, ver que há muitos meios de comunicaçom, literatura, livros, publicidade de qualquer empresa, etc em catalám.

A verdade é que já gostaria que estivesse o galego a metade de bem que o catalám a nível de uso e de valorizaçom. Dam muito valor ao seu, e som muito “cap grossos” com isso, hehehe.

Em qualquer caso também há que reconhecer que o apoio institucional, os programas gratuitos para aprender o idioma, etc. fazem muito para os neofalantes. Por exemplo, a naturalizaçom do uso da língua na escola. É curioso ouvir famílias que se nota que falam só castelhano, que ao falar com a nena, ou neno, mudam para o catalám...som os nenos os que fazem falar em catalám, e nós ao invés.

O outro dia estávamos a falar umha amiga que é argentina, umha amiga sua que é cubana, e a minha companheira que é catalám, e estávamos a falar todas em catalám. Essa situaçom, penso que em outros contextos seria estranha, mas para mim lá é o habitual. Conheço gente “tuga”, mexicana, argentina que fala catalám sem nenhum complexo. Um mui bom amigo que é de Vallecas mas leva o mesmo tempo que a mim lá, comunicamo-nos completamente em catalám. Quiçá a minha percepçom pareça que esta condicionada polo meu ambiente, mas quando vou a bairros onde o catalám é residual, sabem catalám, e de facto se falas muitas vezes respondem-te em catalám ou podes manter umha conversa a duas vozes sem complexos por nenhuma das duas partes.

Entendo que aqui a questom idiomática é mais cultural e por cima de tudo social. Ainda que há pessoas e grupos...digamos “identitários”, existe umha massa, penso que maioritária, que nom se sente “identitária” nem nada parecido, mas percebe a questom linguística como lógica e natural, ainda que nom falem habitualmente o idioma.

Tenho amigos de bairros como Badalona, que som maioritariamente castelhano-falantes, que polo ambiente falam em castelhano mas que a questom da língua entendem-na de forma natural. Como dado curioso para exemplificar a separaçom da língua da questom ideológica é que nesses bairros onde o castelhano é maioritário é onde mais cresceu o voto independentista.

 

Xorxe Oural nas Fragas do Eume

 

Como mantés o contacto com a nossa língua?

Através da família, a que tenho em Foz, e a de Londres. Também, com o meu par. Estamos subscritos ao Novas da Galiza, as noticias pola Internet (Chuza, Sermos, Portal da Lingua, etc). Vou seguindo-as e, quando puder, vou ao que fai a gente da Assembleia Cultural Galega de Barcelona (acgb.cat). Penso que nos próximos tempos vou ir mais, sobre todo à Ludotega...

Ademais, mantenho contacto habitual com umha pequena comunidade “tuga” lá em Barcelona.

Xorxe move-se no ambiente libertário. Achas semelhanças entre este movimento, em termos de açom, e o reintegracionismo?

Uff, a verdade e que isso do “ambiente libertário”...há muitos “ambientes”, mas em geral, a minha percepçom é que ta muito por atrás da visom estratégica que o reintegracionismo está a aplicar de um tempo a esta parte. Polo menos o que conheço da península.

Graças ao uso do galego-português podo seguir informaçons de algumas organizaçons do outro lado do Atlântico, mantenho contato com pessoal do Brasil, e a cousa lá penso que é bem diferente. Tiram coisas muito interessantes onde ponhem ênfase no programa, na estratégia e na tática, mantendo um discurso de intervençom social, com aplicaçom prática. Por outra parte, cá na península, o que conheço tem muito de elitista/grupal e de identitario-mitificador... por sorte isto está a mudar, mas nom tam rapidamente, como eu entendo que mudou no caso do reintegracionismo.

Depois de umha travessia pelo deserto de mais de 30 anos, as inercias, os vícios... é difícil de mudar, assim de súbito. Muita gente foi-se para campos mais pragmáticos como o ambientalismo, cooperativismo..., cansados de “debates” mais filosóficos do que programáticos. Há muita mística e muitas “punhetas mentais”, muitas “verdades” inquestionáveis e tradicionalismo. Sinceramente, vejo muito melhor o reintegracionismo que o ambiente libertário (seja o que for isso).

Por que te associaste à AGAL? Que esperas da associaçom?

Pois, pensando em frio, suponho que por problemas de consciência de nom estar a dar mais apoios. Por contribuir com algumha cousa a um projeto que levo seguindo, desde a periferia, há muito tempo.

E espero, basicamente, que a AGAL continue como até agora melhorando a cada passo e fazendo-se mais popular.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2020?

Gostaria que fosse um vídeo, ou seja, fotografia em movimento... e em movimento até umha normalizaçom já efetiva da relaçom com o resto da lusofonia. Umha normalizaçom social e natural. Que em qualquer lugar da Galiza se poda ler livros, publicaçons, ver as televisons, etc que venham de além do Minho (ou de outras terras que falam a nossa língua), e que isso deixe de ser visto como estranhas anomalias, ou cousas de “frikis”, e sim como um facto habitual e popularizado. Isso, penso, já levaria associada a normaliçaçom do uso e recuperaçom da nossa língua como veículo comunicativo na própria terra, e ainda além.

 

Conhecendo Xorxe Oural

  • Um sítio web: por nostalgia, alasbarricadas.org
  • Um invento: O computador pessoal.
  • Umha música: As Sete Mulheres Do Minho cantada por Ugia Pedreira.
  • Um livro: A Violência e o Escárnio, de Albert Cossery, editado por Antígona.
  • Um facto histórico: Difícil escolher só um, mas, por dizer um pouco nomeado, a criaçom do CRD de Aragom, no Outubro do 36, que intentou organizar as coisas em momentos tam confusos.
  • Um prato na mesa: Ovos e patacas fritas.
  • Um desporto: O caiaquismo.
  • Um filme: La Haine.
  • Umha maravilha: O bosque atlântico.
  • Além de galego/a: Maníaco da ordem, em desintoxicaçom.
 
 

Óscar Lomba: «Pensei na necessidade de aproximar o nosso idioma à grafia histórica para facilitar a nossa relaçom com a comunidade lingüística lusófona»

PGL- Oscar Lomba é neo-falante, morou na Venezuela de criança e começou a utilizar habitualmente o galego-português na adolescência como conseqüência da sua amizade com pessoas que o falavam habitualmente. Licenciado em Direito Económico e diplomado em Magistério, atualmente trabalha na Gerência de Atençom Primária.

Trabalhas na Gerência de Atençom primária como pessoal de administraçom e serviços. Permite viver em galego?

Trabalhar na Gerência de Atençom Primaria permite-me falar galego ainda que nalgumas ocasiões as pessoas que falamos e escrevemos habitualmente em língua galega, especialmente se se trata de galego reintegrado, somos tachadas de independentistas e nacionalistas radicais. Os documentos oficiais do SERGAS nom os podo redigir como gostaria, isto é, em galego reintegrado, e polo tanto entendo que nom podo viver plenamente em galego no meu posto de trabalho. Ademais, tenho sérios problemas para expressar-me sempre em galego: há pessoas castelhano-falantes que solicitam em numerosas ocasiões que me dirija a elas em castelhano. Enfim... acho que há que mudar muitas coisas nas administrações públicas e na própria sociedade.

De criança moraste na Venezuela. És galego-falante de berço ou neo-falante?

Sou neo-falante. Morei em Venezuela e ali os meus pais nom empregavam o galego. Comecei a utilizar habitualmente o galego na adolescência e como conseqüência da minha amizade com pessoas que o falavam habitualmente.

Como foi recebido na tua rede social mais próxima (família, amizades, colegas de aulas...) o facto de falares galego aos 100%?

Ao princípio, com surpresa. Ninguém fez objeçom. De todas as formas, sim que notei certa estranheza nalguns amigos e amigas com os que sempre tinha conversado em castelhano. Com o passo do tempo sossegou-se o desconcerto e percebim uma absoluta normalidade na perceçom dos demais a respeito do meu uso habitual da língua galega.

Quando percebeste que o galego é uma língua extensa e útil?

Entrei em contato com o galego reintegrado pola minha relaçom com uma professora portuguesa de ensino secundário que me conduziu para a cultura lusófona. A partir daí descobrim todo um mundo de possibilidades para o galego. Pensei na necessidade de aproximar o nosso idioma à grafia histórica galego-portuguesa e facilitar assim a nossa relaçom com a comunidade lingüistica lusófona.

Em que se traduziu no teu dia-a-dia e na tua forma de ver as cousas?

O uso normalizado do galego traduziu-se numa rutura com a esquizofrenia lingüistica que sofria nos meus primeiros anos da adolescência. Refiro-me ao transtorno derivado de falar castelhano ou galego dependendo de com quem conversasse. Se falava com os meus familiares de Ventosela (a aldeia da minha mãe) ou a Guarda (a vila do meu pai) fazia-o em galego, mas se dialogava com outros familiares de Vigo ou com alguns professores e amigos, decantava-me polo castelhano. Essa esquizofrenia lingüistica terminou quando comecei a usar habitualmente o galego.

Como explicarias a alguma amizade que o galego é mais do que nos ensinaram no ensino formal na Galiza?

Se quigesse explicar a algumha amizade que o galego é bem mais do que a língua que se ensina no sistema educativo formal acho que lhes falaria das muitas razões polas que seria muito positivo recuperar a norma reintegrada e a grafia histórica, frente à norma oficial do ILG-RAG.

Explicaria que a meados do século XII, o galego era a língua comum de um reino, Galiza. Mais tarde, com a separaçom de Portugal e sua conversom como reino independente, o galego vai passar a ser a língua dos dous reinos. Este facto deu lugar a que os lingüistas se refiram a esse galego medieval com o nome de galego-português. Durante os séculos seguintes, XIII e XIV, o diferente devir histórico-político destes diferentes reinos vai ter grandes repercussões lingüisticas e culturais que acabaram por estandardizar e normalizar o galego-português falado ao sul do rio Minho, enquanto no norte nom houvo tanta sorte. Assim, enquanto o reino de Portugal se mantinha independente e era governado por reis que lhe conferiram ao galego-português o status de língua oficial da sua administraçom (1290), a coroa galega era usurpada por Fernando III de Castela.

Tentaria convencer a pessoa de que o galego-português, o galego de normativa reintegrada, propom que, ademais de seguir a beneficiar-nos das vantagens e fortalezas do idioma castelhano, podemos também abrir todas as possibilidades comunicativas, culturais e económicas... do mundo lusófono, fazendo do Galego uma língua internacional e com maior utilidade e projeçom. Isto é, às potencialidades do castelhano, os galegos poderíamos somar as potencialidades do português.

Na tua opiniom, por onde deve caminhar a estratégia luso-brasileira para avançar na sua socializaçom?

Seria muito positivo caminhar para a configuraçom e articulaçom de potentes instrumentos de difussom de massas (editoriais, imprensa, televisões e rádios, internet...).

Que visom tinhas da AGAL, que te motivou a te associar e que esperas da associaçom?

Sempre tivem boa impressom da AGAL. Só pretendo contribuir à extensom do uso social do galego reintegrado. Esse é meu objetivo prioritário.

Como gostarias que fosse a “fotografia lingüística” da Galiza em 2020?

Encantaria-me que o galego recuperasse a posiçom de esplendor que teve no período das cantigas, mas fico conforme com que se estenda o uso normalizado de nosso idioma e que a normativa caminhe para uma maior aproximaçom com a grafia histórica reintegrada e aos acordos ortográficos adotados nos congressos internacionais da Língua Galego-Portuguesa.

 
 

Marcos Vence, professor de FP: «Cumpre aproveitar as oportunidades que dá a Junta para fazer secções bilingues e projetos europeus»

PGL- Marcos Vence é professor de uma secção bilingue em português, perito em eTwinning, cresceu no Ensanche compostelano e começou a falar em galego aos 26 anos. Autodidata no português, tem muita fé na ILP Valentín Paz-Andrade e aposta na qualidade dos produtos para vencer quaisquer reticências linguísticas.

Marcos é professor de umas das poucas secções bilingues em português no sistema educativo. Como é o processo para a conseguir? Por que escolheste português?

Não é um processo complicado: há que solicitá-la em maio, junto com um pequeno projeto que explique como se vai implementar.

Nos centros de primário e secundário só podem solicitar uma secção bilingue num idioma que lecionem como língua estrangeira. Porém, nos centros de FP em que não temos a cadeira de língua estrangeira podemos escolher qualquer língua para as secções bilingues.

O IES San Clemente já tinha secções bilingues em inglês, para ciclos superiores, e a equipa diretiva e eu escolhemos português para o ciclo médio. Pensamos que era bom ter variedade e poder alargar os estágios no estrangeiro a Portugal.

Como está a ser a tua experiência docente com a secção bilingue? Como é a interação com os alunos e alunas?

Já levamos dois anos e estamos a ver que os resultados são muito melhores segundo avança o tempo, graças a vários fatores: o trabalho em equipa (junto com Dolores Díaz Rifón, coordenadora da secção e Helena Queirós, auxiliar de conversa), a confiança em mim próprio e a implicação do estudantado.

A cadeira chama-se Sistemas Operativos em Rede. Tem nove aulas semanais durante os dois primeiros períodos escolares que são lecionadas em português. Também configuramos a língua das interfaces das aplicações e criamos dois projetos onde o estudantado instala a rede (domínio, serviços, etc.) duma empresa lusófona virtual.

O papel da auxiliar de conversa é fundamental. De mim aprendem, além de informática, que há que falar sem complexos. Dela aprendem a correção da língua, como se pronunciam as letras, as palavras, muito léxico, ouvem uma boa fonética, interagem noutro nível.

O estudantado percebe rapidamente os textos escritos em português. É claro que o esforço que têm que fazer é menor que se fosse em inglês e em geral percebem muito melhor os conteúdos da cadeira.

A implicação de cada elemento é diferente, como em qualquer outra cadeira, mas é muito alta quando a pessoa tem a expectativa de fazer o estágio em Lisboa, através do projeto Leonardo da Vinci.

Agora falta rompermos o preconceito de que não há oportunidades de trabalho em Portugal por causa da crise. Nem isso é certo, nem Portugal é o único pais lusófono com oportunidades de emprego.

Para além da secção bilingue, Marcos Vence é um dos pioneiro na Galiza no programa eTwinning em Formação Profissional. Em que consiste? Qual é o processo e como é o resultado?

eTwinning é uma rede de docentes de países europeus que proporciona ferramentas para desenvolver projetos educativos, sem burocracia nem orçamento. Chega ter uma ideia adaptável ao currículo, procurar um/a parceiro/a doutro país e inscrever o projeto por meio dum formulário simples. Depois a equipa docente cria as atividades e tarefas que se vão desenvolver junto com o estudantado, geralmente utilizando o computador e a Internet.

Está focado na Aprendizagem Baseada em Projetos, mas junto com o professorado e estudantado doutras escolas. Eu tornei-me em professor de um cento de alunos da França, Itália, República Checa, Portugal, Espanha, Bulgária e a Turquia. Foi emocionante ver muitos deles na Croácia, por ganharmos o prémio europeu eTwinning, pelo projeto “Pek, a pulga viajante 3”.

A visão que se tem duma língua depende das suas possibilidades de utilização. Eu mudei de atitude face ao inglês graças a eTwinning, pois permitiu-me trabalhar, explicar os passos e organizar as tarefas do estudantado, para criar três livros de banda desenhada. É importante utilizar a língua estrangeira num contexto real e para isso eTwinning é mesmo bom.

E respeito da língua própria, o galego, também. As histórias de BD foram traduzidas aos idiomas das escolas participantes, entre elas o galego. As colegas europeias não faziam distinções: o galego estava à altura das outras línguas e presente em todas as atividades complementares.

Demos um passo adiante falando do “galego internacional” em relação à ortografia, mas também temos que ser conscientes de que o galego falado também é internacional. Quando vieram gravar um vídeo de apresentação do projeto, eu falei em galego. Esse vídeo foi visto na entrega de prémios por 500 docentes de toda Europa. Foi emocionante sentir o galego no salão de atos, mas foi muito mais quando se achegavam professoras de Áustria, Itália, etc. ao stand para dizer-me em inglês ou espanhol: “Eras ti o que falava galego no vídeo? Que bonito!”. Perdi todos os complexos de vez!

Atualmente estou a trabalhar com um projeto relacionado com a língua portuguesa e a informática, com o estudantado da secção bilingue: ZonaVET 0+1.

 

Colegas do projeto eTwinning Pek, a Pulga Viajante #3

 

Marcos tem dous filhos. Como focas a tarefa de manutenção da línguas numa vila como Vila Garcia? Que recursos usas?

Os meninhos falam galego em casa e fora espanhol. Ainda que sabem que podem utilizar o galego em qualquer âmbito, adaptam-se automaticamente à língua de quem lhes fala. Ultimamente estão falando mais galego na rua, deixando o espanhol para a escola.

Como foi a tua relação com a língua na tua biografia?

Eu sou compostelano, do Ensanche, espanhol falante desde o berço. Desde que aprendi o galego na escola, adorei. Gostava de escrever em galego mas não o falei até os 26 anos, quando comecei a trabalhar.

Tive uma etapa na que escrevi na norma AGAL, mesmo nas escolas onde trabalhava, mas deixei porque vi que estava a complicar-me a vida. Assumi que a norma oficial era a minha ferramenta de trabalho.

Ademais, naquela altura a gente não relacionava o reintegracionismo com a cultura, era conhecido por coisas más, por exemplo vandalismo e pintadas nas casas. Essa é uma imagem que faz muito dano.

Agora, graças à secção bilingue, posso lecionar de forma oficial em português, com a ajuda da Administração para quem trabalho, e sem nenhum tipo de medo.

Quando descobriste que o galego era mais do que te ensinavam na escola, que era uma língua mundial?

Foi muito devagar. Quando meninho viajávamos a Valença, quando crescido chegámos até Sagres. A língua para interagir com as pessoas era sempre o galego misturado com o pouco português que sabíamos.

O meu irmão foi quem me ensinou a norma AGAL e de ai ao português só há um passinho. Fui autodidata até estudar na EOI de Vila Garcia... e continuo a ser.

Gosto muito de ver filmes de animação, livros, música, trabalhar em projetos educativos (eTwinning e Leonardo da Vinci) em português e quanto mais aprendo mais concordo com a visão de que é o galego internacional.

Em tua opinião, por onde deve transitar a estratégia luso-brasileira para ser hegemónica socialmente?

Temos que aproveitar as oportunidades que dá a Conselharia de Educação para fazer todo o possível desde dentro: secções bilingues e projetos europeus.

Se tudo correr bem com a ILP Valentim Paz-Andrade, todos e todas devemos juntar esforços, encanto e criatividade para levar o português às escolas.

Também proponho trabalhar com as crianças desde já com atividades extra-curriculares.

Fora do ensino, penso que devemos criar produtos galegos de qualidade utilizando o padrão PT. Quando um produto é bom, a gente perde os preconceitos. Ainda lembro uns bons apontamentos em “portugués o algo así” muito bem valorados pelo estudantado espanhol falante da Faculdade de Informática.

Que visão tinhas da AGAL, por que te tornaste sócio e que esperas da associação?

Talvez estou errado, mas a lembrança que tenho do reintegracionismo de há quinze anos é que estava focado no passado, no que deveria ser e não foi, no conflito com o espanhol.

Agora olha-se para o futuro, fala-se de oportunidades, do galego internacional, de somar esforços, é uma atitude em positivo e construtiva. As últimas publicações, como “O galego é uma oportunidade/El gallego es una oportunidad”, ajudaram-me na minha decisão de tornar-me sócio.

Gostava de participar num projeto que leve o português às crianças, por meio do ensino e de livros infantis, que penso que encaixa na filosofia da AGAL.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2020?

Um lugar onde se possa utilizar o galego sem complexos e aprender o português sem preconceitos, ao mesmo nível que outras línguas estrangeiras, para alargar as oportunidades profissionais da mocidade.

Tenho esperança na ILP Valentim Paz Andrade.

Conhecendo Marcos

  • Um sítio web: Gmail.
  • Um invento: Os dicionários e corretores integrados.
  • Uma música: Continuo fiel a Pedro Abrunhosa. Vou dizer “Como uma ilha”.
  • Um livro: Básico para as crianças: As aventuras do Super Bebê Fraldinha.
  • Um facto histórico: Os mais importantes, ainda não chegaram. Por exemplo, um remédio para o cancro.
  • Um prato na mesa:Já dei o passo da carne à verdura.
  • Um desporto: Gosto de nadar em água quente e de andar de bicicleta longe dos carros, desportos quase impossíveis.
  • Um filme: Como o meu universo atual são os meninhos, os únicos filmes que vemos são de animação. O primeiro na minha idade adulta foi Procurando Nemo (BR) e o mais recente, Turbo (PT).
  • Umha maravilha:A Ria de Arouça
  • Além de galego/a: Europeu
 
   

Roi Vilela, engenheiro: «As cousas sérias entram melhor contadas com graça»

PGL- Roi Vilela é engenheiro, pertence a um clam galeguista numeroso e brioso. A letra Q ajudou-o na sua tomada de consciência reintegracionista, fijo o seletivo em galego-português e acha que a AGAL é melhor que um grupo de terapia.

Roi Vilela é irmao do Bruno e do Bernal, sendo os três sócios da AGAL e já entrevistados nesta secçom. Haveria que somar ainda mais membros do clam, como Joám Facal, Camilo e Alba Nogueira. Que implica nascer numa família extensa tam virada para a Galiza?

De criança pensas que os diferentes som eles (“mamá, na escola ao leite chamam-lhe leche”) e depois no ambiente urbano onde nos criamos- constatas que estás em minoria, mas do lado dos “bons”, que sempre reconforta.  Suponho que nom só pola língua, mas guardo um recordo de um mundo azul em galego -com a família, os veraos na aldeia...- e outro mais cinzento (com algum caso de “bullying” por falar galego) na escola; nalgum momento passei a falar castelhano fora da casa e sem dúvida fôrom as crenças e as atitudes que via nos meus maiores as que me levárom a “regressar” ao galego ao pouco de começar o instituto.

Que lembras desses anos?

Lembro o muito que me custou voltar ao monoliguismo (para o meu assombro já que nunca deixara de falar galego), mas também o gratificante que era a reafirmaçom e o gosto de ver quanta gente -inesperada- respondia na tua língua quando te diriges a eles em galego.

Como foi a tua passagem para o galego-português? Que facilitou o percurso?

No instituto educavam-nos na normativa de mínimos ou de encontro, o que despertou o meu interesse por ver com que havia que encontrar-se.  Eu gosto de crer que caim da burra um dia que a professora, explicando o alfabeto, nos dixo “ ...e esta letra (q) é o que, que eu o cu nom o ensino na escola”, mas o determinante foi um manual de J.M. Montero Santalha que me ofereceu meu tio Joám e continha um argumentário definitivo junto de exemplos práticos para mudar a escrita sem atrapalhar-se. Também os companheiros dos “Colectivos da Mocidade de Esquerda Galega” da Corunha, os discos de José Afonso e cair na conta do fácil que era de repente ler em português.

No seletivo fizeste os exames em galego-português, para arrepio da tua mãe, costume que continuaste na Universidade. Deu para histórias interessantes?

Levava já todo o ano escrevendo em galego-português e depois de ter sido “iluminado” nom podia mudar por medo -nem próprio nem dos meus pais- e foi bem (boas qualificações nas matérias mais trabalhadas, nom tanto nas que prepara menos e devim dar com um reintegrata a corregir o meu exame de língua porque me deu um 10, e com certeza nom seria para tanto: companheiros, a discriminaçom positiva também existe para nós!).

Na universidade continuei a fazer sofrer os professores de fora -com algum mesmo cheguei a discutir sobre etimologia- mas a maioria optavam por nom encerelhar-se comigo em discusons; serviu também para deixar para a posteridade um monte de apontamentos -limpinhos e com boa letra- acugulados de lh/nh que me consta que ainda circulárom alguns anos.  Realmente, nom podo dizer que na Universidade tivesse nenhum problema pola grafia, apesar de, em toda a carreira, só tiver um professor que lecionasse  em galego (umha quadrimestral, que país!).

Já no trabalho, numha transacional do peixe com fábricas e barcos por todo o mundo, voltei à normativa de mínimos com a exceçom de quando escrevia a companheiros do grupo que trabalhavam a sul do Minho.  Algum deles dixo-me depois que, nos anos que levava na companhia, nunca ninguém da matriz (da Galiza) lhe tinha escrito antes em português, que manda nabo!.

Sentes paixão pola música, a leitura e o cinema. Em que ordem?

Até ter filhos era mais de música -inclusive de ir a vários concertos por semana (eram -umha outra vez- os anos bons de Vigo), mas agora é mais cousa de apampar com algum filme ou série diante da tele aproveitando -ehem- as facilidades que dá a Internet para ver cousas diferentes.  Desfruto muito com os três, mas com menos tempo que antes.

Por onde achas que deve caminhar o reintegracionismo para progredir socialmente?

Eu creio que vamos no bom caminho: deve fazer-se visível sem tentar impor-se, salientar que mudar a grafia nom implica fazê-lo com a forma de falar, que em todos os idiomas há distintas variedades ou sotaques e isso nada mais é o que nos diferencia dos brasileiros ou portugueses, do mesmo modo que nom é o mesmo o castelhano de Jaén que o de Buenos Aires, ou o inglês dos escoceses e o dos ianques.  As pessoas têm que saber que é umha opçom para somar, que abre portas a outras sociedades, a outras culturas (a mais possibilidades de trabalho...).

Que visão tinhas da AGAL? Por que te tornaste sócio e que esperas da associação?

Vejo-vos/nos como o referente reintegracionista de sempre e seguramente o que deveria perguntar-me é porque tardei tanto em fazer-me sócio.  O que me acabou de animar é que percebo, ademais de muito trabalho, alegria pola vida!  Sodes melhores que um grupo de terapia, fazedes os cantos mais divertidos e as melhores encenações, e penso que as cousas sérias entram melhor contadas com graça (se o “cliente” é o povo galego, ajuda que nos tenham simpatia/empatia).

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2020?

Com mais galegos usando a língua de cotio, com a possibilidade de desenvolver com normalidade qualquer atividade em galego e sem que os castelhano-falantes nos mirem raro.

 

Conhecendo Roi

  • Um sítio web: depende do dia...imprensa generalista, o blog do Pereiro... e com certeza o do meu curmao Iago: http://bailarsobrearquitectura.wordpress.com/
  • Um invento: a música (ou os reprodutores de música que a achegam a nós).
  • Umha música: o Wicked de Jeff Dahl acelera o pulso a qualquer um.
  • Um livro: Eu sou de novela mas não é fácil... desfrutei muito com A saga/fuga de JB do Torrente Ballester -tinha pinta de calhamaço e é surrealista, mesmo pop-.
  • Um facto histórico: As mobilizações contra os verteduras na Fossa Atlântica, era um neno mas recordo-o como algo Transcendente.
  • Um prato na mesa:para o inverno um bife com pataca cozida e grelos, no verao peixe frito e salada (se é o côngrio em farinha de milho do tio Ramom, melhor).
  • Um desporto: o que mais pratiquei é a nataçom (os vícios solitários som mais doados de manter no tempo), mas com os filhos toca mais futebol ou brilé (jogo do mata).
  • Um filme: Johnny Guitar, ademais de ser um grande filme, sendo esquerdeiro encantara-me aquilo de “nunca dês a mao a um tirador canhoto”
  • Umha maravilha:Toba e o seu contorno (a família, a Costa da Morte, o Pindo...).
  • Além de galego/a: de esquerdas!
 
 

Fest-AGAL n.º 4: Multiplica X100 o galego

PGL - Por quarto ano consecutivo, a Associaçom Galega da Língua (AGAL) distribui gratuitamente no Dia Nacional da Galiza umha publicaçom de 24 páginas, das quais 18 em cor: o Fest-AGAL, já um clássico. Neste ano, aliás, a tiragem incrementou de 3.000 para 4.000 exemplares, para ninguém ficar sem o seu!

A seguir, reproduzimos os conteúdos desta publicaçom, entre as quais salientam entrevistas e resenhas das novidades da ATRAVÉS|EDITORA, mas nom só.

FEST-AGAL n.º 4

1. Capa.

2. Saudaçom de Miguel R. Penas, presidente da AGAL.

3. Galego X100.

4. Crónica da manifestaçom do 17-M

5. Resumo das invertenções dos grupos parlamentares na tramitaçom da ILP Paz-Andrade

6. Resenha de Falar a Ganhar

7. Publicidade

8. Renovaçom do Conselho da AGAL

9. Entrega do Prémio Meendinho à AGAL

10-11. Ciranda, à volta do português

12. Resenhas de O Crânio de Castelão e Quem fala a minha língua?

13. Parcerias da AGAL com meios de comunicaçom e representaçom institucional da associaçom

14. Entrevista a Teresa Moure, autora de Eu violei o lobo feroz

15. Publicidade

16. Exposiçom de AGAL e BD Banda sobre as Cantigas de Santa Maria / Crónica da manifestaçom em defesa da língua do 27-J

17. Mapa de casas de turismo rural na Galiza (publicidade)

18. Mapa de livrarias da Galiza (publicidade)

19. Consultório lingüístico da AGAL

20. Entrevistas para apresentar a plataforma Falarmos.com

21. Mapa de lojas de produtos de consumo ecológico da Galiza (publicidade)

22. Novidades da ATRAVÉS | EDITORA

23. Teste de soberania (lazer)

24. Contra-capa

 

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