Associaçom Galega da Língua

Manuel Rial: « Hai que fazer ver à gente que o reintegracionismo é umha via possível, que nom cambiaria a sua forma de falar, só o seu jeito de escrever.»

PGL - Manuel Rial é paleo-falante e natural de Vimianço. Estudou jornalismo em Compostela e criou com quatro companheiros da faculdade a revista digital O Compás da Costa da Morte, revista cultural da zona.

És natural de Vimianço, como é o mundo de um neno galego falante do ponto de vista da língua? podias manter-te no monolinguísmo?

Desde neno sempre falei galego, e apenas galego. Até com a gente que me falava espanhol, pois comprendim que se viviam aqui nom teriam problema nengum em perceber. Hoje em dia continuo a ser monolinguista e falo galego com todo o mundo, responda no idioma que responder. E figem isto sempre de jeito natural, sem nemgumha conviçom ou intençom, até que há um ano alguém me dixo que lhe parecia estranho que puidesse ter umha conversaçom onde umha pessoa fale um idioma e a outra, outro.

Até que cheguei à Secundária, nunca reparei na existência dum conflito linguístico, porque em Vimianço nom existia. E continua sem existir. A maioria dos habitantes falam galego e mui poucas pessoas falam o espanhol. E como digo, caso alguém fale espanhol, poucas pessoas lhe respondem em espanhol. Antes ao contrário, som os castelhano-falantes que tentam responder em galego.

Quais eram os usos do galego na tua infáncia? é do espanhol?

Como já dixem, de neno rara vez falava o espanhol. Basicamente nas aulas de “lengua”, onde lia e escrevia na língua de Cervantes. Isso sim, nom tinha nengum problema para escrever e comunicar-me em espanhol, como muitos podem tentar fazer ver. Todo o contrário, já que igualmente vivia rodeado de castelhano: a tevê, os livros, os comics, os jogos...

És criador duma revista cultural digital da Costa da Morte: O Compás da Costa da Morte. Levades um  ano com ela, como foi este primeiro ano?

Foi genial. Juntamo-nos cinco companheiros da Faculdade de Ciências da Comunicaçom, que depois de finalizar a carreira decidimos realizar unha página web sobre a cultura da Costa da Morte. Foi no dia das Letras Galegas de 2012 e nascia como umha agenda de lezer da zona, mas acabou por ter protagonismo à parte de revista cultural em que aproveitamos para nom perder em nengum momento a nossa profissom, e continuar a fazer reportagens, entrevistas... Apesar de que  a revista nom dá para nos sustentar economicamente, a satisfaçom pessoal é enorme.

Estou aprendendo muito graças a ela, porque investigas, descobres lugares, pessoas, e o mais gratificante, fás que do outro lado da Rede alguém esteja descobrindo ao mesmo tempo o que tu lhe mostras.

Chegaste a  Compostela para a estudar. Como foi essa passagem com respeito à língua?

Na Faculdade de Jornalismo vivim umha grande evoluçom a respeito do idioma. Ao começar umha carreira, que ainda por cima se baseia na língua, reparei na quantidade de castelhanismos que utilizava sem jeito nengum. Por isso, nesse momento decidim limpar o idioma e ir abandonando progressivamente as palavras e expressons do espanhol (ainda continuo nisso!). Isso sim, que começara a mudar a língua nom quer dizer que renunciara aos traços dialetais da minha vila: o sesseio e mais a gheada. Aliás, reforcei-os por conviçom própria, porque nom queria falar um galego asséptico, e queria conservar a minha marca de identidade, as minhas raízes na fala.

As reaçons vinherom sobretudo do ámbito familiar que começavam a olhar dum modo estranho, para nom dizer “ghuhghado” (que olha que é complicado de dizer, com aspiraçom do xis incluído) e dizer “julghado”. Mas há umha palavra que ainda nom conseguim remediar: “ghallego”.

Que te motivou para dares um passo para a estratégia luso-brasileira? Foi fácil a transiçom?

Mais que fácil, a transiçom foi lenta. Hei de dizer que nom há muito tempo eu era anti-reintegracionista. Desde novo, quando comecei a ouvir que havia gente que "queria escrever o galego como o português" achava-o absurdo e ilógico, por serem dous idiomas distintos que nom tinham nada a ver, e ainda que num momento histórico foram o mesmo idioma já havia um distanciamento tam grande que era impossível voltar a tentar construir pontes. Mesmo, quando saíra a última normativa que incorporava as terminaçons -za, em lugar de -cia, ou dava por válidas as terminaçons -ble e -bel, pensava naquele momento que nom tinha nengum sentido fazer essa aproximaçom ao português indo em contra do que a maioria da gente falava na rua. Mas, agora, anos depois vê-se que está totalmente assimilado, e hoje em dia ninguém acha estranho estranho ouvir "diferença" e assume-o já como próprio. A gente acostuma-se às normativas por mui chocantes que lhe pareçam ao princípio.

O momento em que mudei realmente de parecer foi quando há um ano comecei a estudar português na Escola Oficial de Idiomas. Interessei-me por ela porque me parecia um erro gravíssimo que nom se ensinara nas escolas um idioma irmám do galego com o que teríamos as portas abertas a milhons de falantes em todo o mundo, um idioma que ademais, por história, era "da família". (Já daquela começava o germolo reintegracionista).

Ademais, comecei a ver que os reintegracionistas nom eram “bichos raros” e, umha amiga impulsou-me a dar o passo final.

Na tua opiniom, por onde deve caminhar a estratégia luso-brasileira para avançar na sua sociabilizaçom?

Para começar, fazer ver à gente que o reintegracionismo é umha via possível, que nom cambiaria a sua forma de falar, só o seu jeito de escrever.

E também deixar de que pareça que o reintegracionismo só se move em circuitos fechados, e que há gente mui variada e de distintas profissons, condiçons sociais e académicas que apoiam a causa.

Creio também que na parte mais prática, teria-se muito andado se a normativa oficial dera três pequenos passos: cambiar o ñ por nh, o ll por lh e escrever o -m final. Só com estas três chaves o reintegracionismo veria-se doutra maneira. É impossível introduzir umha nova norma ortográfica de golpe. Assim, deste jeito as pessoas abririam os olhos e começariam a pensar...

Que visom tinha da AGAL, que a motivou a se associar e que espera da associaçom?

Conhecim a AGAL através dumha amiga associada, que me explicou em que consistia. O que mais me botava para atrás era pensar que o reintegracionismo queria trasladar a normativa exata do português lisboeta ao galego. Mas vim que existiam alternativas, que nom era tudo preto ou branco, nem boi ou vaca. Quero dizer, que existia umha alternativa que recolhia o idioma galego com as suas características próprias, sem ser a cópia exata do padrom português. Porque nisso continuo a estar em contra.

O que quero é que a gente comece a reparar na cada vez pior qualidade do galego, invadida por castelhanismos que aceitam na Real Academia, enquanto que os termos próprios som deslocados porque a gente acaba por nom utilizá-los. O que quero é que ademais os galegos escrevam o seu idioma na grafia que lhe pertence por história, e que nom tenhamos medo em abandonar a ortografia espanhola. Porque como diz o presidente da Real Academia queria voltar à normativa anterior mesmo porque lhes criaria muitas complicaçons os nenos estudarem duas ortografias distintas na escola. Dando por suposto que existe umha língua superior e outra inferior, a que tem que copiar à superior.

Espero da AGAL que continue a  dar passos na visibilizaçom social do reintegracionismo, e para isso penso que é vital mostrar o potencial da cultura lusófona. Que a gente nom olhe apenas para a fronteira do Cebreiro e olhe para a de Tui. Que a gente nova repare por que compreendeu tam bem as letras da Cabritinha e o Ai se eu te pego (por que nom!?)

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2020?

Estacionamiento dumha escola de Vigo. Cinco da tarde. “¿Como te fue el día, Antón?” “Mui bem, hoje aprendim a somar mil milhons de cifras!”

 

Conhecendo Manuel Rial

  • Um sítio web: ocompas.com
  • Um invento: Internet
  • Uma música: Luar na Lubre, em geral. Som um grande siareiro
  • Um livro: Todos os dias, de Alberto Ramos.
  • Um facto histórico: A pré-história
  • Um prato na mesa: Umha sobremesa.
  • Um desporto: Caminhada
  • Um filme: A língua das borboletas, porque ficou gravada da infância.
  • Uma maravilha: A Costa da Morte.
  • Além de galega: Nasci na Suíça, mas melhor fico aqui…
 
 

Raul Rios: «Dizer reintegracionismo e dizer movimento normalizador é quase o mesmo»

PGL- Raul Rios, é natural da Corunha. Jornalista, esteve de bolseiro em El País e atualmente colabora com o Novas da Galiza. Ao começar a colaborar neste jornal chegou às suas mãos um exemplar do livro Do Ñ para o Nh de Valentim R. Fagim, desde entom escreve em reintegrado. Está a estudar português na EOI de Compostela e fez curso on-line Escrever.com.Nh e o aPorto.

Quando começaste a ser utente no galego? O que te decidiu para dares o passo?

Sou da Corunha e criei-me num ambiente castelhano-falante. Tanto na escola como na casa, o único que ouvias era castelhano, salvando o Xabarín Club da TVG, o meu avô e certas matérias escolares. Comecei a minha transiçom para o galego quando tinha uns 16 ou 17 anos e cheguei já sendo monolíngue ao meu primeiro ano de universidade em Compostela.

A minha motivaçom, num primeiro momento, foi fundamentalmente cultural. Entendia o nosso idioma como umha riqueza da que somos responsáveis e beneficiários, mas que se via ameaçada polo sempre hegemónico castelhano. Daquela ainda nom via o galego como umha língua internacional, mas sim apreciava a sua utilidade na Galiza; nom só como ferramenta comunicativa em muitos contextos nos quais o castelhano nom seria eficiente, mas também como elemento de coesom social e identitário.

És corunhês. Como é o dia-a-dia de um galego-falante na Corunha?

Acho que semelhante ao dum viguês em Vigo! Recordo que Xurxo Souto dixera umha vez numha palestra que Corunha é a cidade com mais galego-falantes do país. Logicamente, a armardilha estava em que ele estava a falar em termos absolutos, nom relativos. A grandíssima parte da mocidade emprega como única língua o castelhano e muitas vezes nem sequer som capazes de se desenvolver em galego; ainda no caso de existir vontade por fazê-lo. Cumpre solucionarmos isto.

Acho que seja complicado, num primeiro momento, comunicar-se numha língua que ocupa umha posiçom social tam marcadamente secundária como é o galego na Corunha. O galego-falante de menos de 50 anos vai acompanhado de estigmas: ou es nacionalista ou vens de “além-Arteixo”. E nom passa só na Corunha, quando digo que som     corunhês, algumha gente pregunta, “mas da Corunha... Corunha?”, “sim”, “ah! Pois que raro que fales galego!”.

E mais difícil é naquelas faixas de idade nas quais o comportamento é mais gregário, leia-se a adolescência. Se o grupo de colegas ou a tua turma fala em castelhano, há que ter bastante personalidade e vontade para falar galego; mas é precisamente nesses grupos de colegas onde mais necessário é potenciar a língua própria para que seja percebida como algo normal. Depois vais vendo como alguns desses amigos começam a empregar o galego para falar contigo e levas umha alegria. Paga a pena e há que se atrever!

Fizeste práticas num diário comercial em espanhol, o El País, e colaboras também com umha publicaçom nom comercial em galego, o Novas. Quais som, para ti, as principais semelhanças e diferenças?

Aqui poderia-se pronunciar umha tese doutoral. Hei de reconhecer que a delegaçom de El País Galicia nom tinha muito a ver com a central madrilena. Sempre tivem bastante liberdade tanto na escolha de temas como nos critérios a seguir na elaboraçom das informaçons, só me davam bons conselhos dos quais aprendim muito.

O Novas da Galiza nom pertence a um grupo de empresas com participaçons do banco Santander. A liberdade é absoluta dentro da amplíssima linha editorial que pomos nós e as leitoras.

E já fora das linhas editoriais, umha publicaçom mensal como o Novas tem a vantagem de nom depender da estrita atualidade. Isso permite pôr o foco nos temas mais relevantes e fazer umha reflexom mais profunda que permita ver o fundo da realidade, compreender todo aquilo sobre o que os grandes meios vam dando pequenas informaçons ao longo do mês.

Tanto a linha editorial como a periodicidade permitem que os temas tratados sejam escolhidos de forma diferente. Sempre terám o seu lugar as diferentes iniciativas dos movimentos sociais, as perspetivas económicas contrárias ao discurso dominante, a cultura ou os desportos vistos com óculos galegos ou também, por exemplo, a visom internacional da nossa língua. É difícil atopar estes temas noutros meios.

O jornalismo é um dos ambientes em que mais dificuldades para viver em galego?

Só basta com ver a pronúncia de certos jornalistas da TVG ou em que idioma falam fora de câmara! Brincadeiras a um lado, acho que as dificuldades só estám à hora de se relacionar com a audiência, o que é um problema. Simplesmente, todos os “grandes” meios deste país estám em castelhano e nom podes desenvolver o teu labor na tua língua. Jornalistas galego-falantes escrevendo em castelhano para leitoras galego-falantes, eis um dos enigmas deste País ou umha prova de que o galego continua vetado de muitos âmbitos da vida pública.

Outra cousa é o idioma no qual sejam dadas as conferências de imprensa ou no qual tu consultes as fontes, que no meu caso sempre foi o galego excepto quando estas eram estrangeiras (e de nengum país lusófono). Aqui nom há problema. Tampouco há problema para se comunicar com companheiras ou mesmo gente que está hierarquicamente acima de ti; nom se reproduzem as discriminaçons que sim se dam noutros ofícios. Acrescentaria, de facto, que a mim ter um bom nível de galego permitiu-me desenvolver labores de correçom ou de traduçom tanto em El País como numha revista de cooperativas agrárias.

Por onde achas que deve caminhar o reintegracionismo e o movimento normalizador?

Dizer reintegracionismo e dizer movimento normalizador é quase o mesmo. Explico-me: apesar de ser obviamente dous conceitos diferentes, acho que ambos devem ir da mao para terem sucesso. Nem o reintegracionismo tem sentido se ninguém fala já galego nem imos conseguir que a gente fale galego cumha visom que circunscrever a língua à Comunidade Autónoma da Galiza. Nom importa quantas conferências ou livros financie a Secretaria Geral de Politica Linguística entretanto nom tivermos isto claro.

Numha guerra um bando tem que usar todas as armas e recursos dos que dispuxer. No nosso caso e no contexto da mundializaçom, umha das armas, se calhar um míssil, é ter umha língua falada por mais de 200 milhons de pessoas e em cinco continentes. Como nom imos aproveitar-nos dessa realidade para potenciar o galego na Galiza? Qualquer diretor de planos estratégicos que trabalhe para umha grande empresa diria-che que estás tolo se nom o fixesses.

Que visom tinhas da AGAL, que te motivou a te associar e que esperas da associaçom?

AGAL deve ser das poucas associaçons ou coletivos deste País que nom tem um carimbo partidário, o que de sempre me transmitiu credibilidade e confiança. O único interesse é potenciar a língua, no qual, porém, sim que há muito de político. Antes de me associar fixem o curso Escrever.com.nh e também fum aos aPorto deste ano. Como pode ser que com tam poucos recursos se podam fazer tantas cousas! Acho que todo o mundo tem algo com que contribuir, por isso me associei. Também, hei de reconhecer, o desconto em livros de Através Editora foi um importante incentivo.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2020?

Gostaria de poder ir tomar o almoço a um café e ver vários jornais em galego na mesa, de poder ver filmes produzidos ou legendados no nosso idioma nos cinemas ou na televisom, ou de os livros em galego nom estarem na seção de “línguas estrangeiras” em El Corte Inglés. Que qualquer rapaz ou rapariga que finalizar a escola tenha todas as competências linguísticas necessárias para se desenvolver em galego tam bem como no castelhano, sabendo que se podem comunicar na nossa língua com mais de 200 milhons de almas, que diria hoje Castelao.

 

Conhecendo Raul Rios

  • Um sítio web: O IGE (http://www.ige.eu/web/index.jsp?paxina=001&idioma=gl), com todas as suas eivas.
  • Um invento: A imprensa de tipos móveis de Gutenberg!
  • Uma música: O punk em geral ou o grupo Os da Ria em particular, que nom som punk mas eles som mui punks.
  • Um livro: Os dez dias que abalaram o mundo, de John Reed.
  • Um facto histórico: O plebiscito do Estatuto de 1936.
  • Um prato na mesa: Alheiras do Porto.
  • Um desporto: Matraquilho.
  • Um filme: Star Wars (as seis).
  • Uma maravilha: A Cidade da Cultura?
  • Além de galega: Precário!
 
 

Nova ediçom da festa de boas-vindas aos novos sócios e socias da AGAL

PGL - O vindouro 21 de dezembro, sábado, às 21 horas, terá lugar em Compostela umha nova ediçom da festa que a Associaçom Galega da Língua organiza para dar as boas-vindas à associaçom aos novos sócios e sócias. O convívio, que terá lugar na Gentalha do Pichel (r/ Santa Clara, 21), está aberto a qualquer pessoa associada e mesmo a amizades nom associadas.

Nesta festa de boas-vindas haverá, sobretodo, conversa, mas também petiscos, jogos, prémios... e «humor, muito humor», garante o presidente, Miguel R. Penas, que fará umha saudaçom no início.

Para poder organizar melhor a festa agradece-se o envio com antecedência de um correio eletrónico para o endereço agal[arroga]agal-gz.org indicando a assistência, bem como o número de pessoas que a acompanhariam, se fosse o caso.

 

Vídeo gravado na ediçom do ano passado da festa
de recebemento às novas pessoas associadas

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AGAL aprovou por unanimidade os orçamentos para 2014

PGL - A assembleia geral extraordinária da AGAL do passado dia 30 de novembro aprovou por unanimidade os orçamentos da associaçom para o ano 2014. O presidente, Miguel Penas, salienta que os orçamentos som o instrumento fundamental para poder implementar os projetos do vindouro ano, que previamente apresentou aos sócios e sócias.

Na assembleia, Miguel Penas e outros membros da equipa da AGAL, quer da diretiva, quer de alguns dos grupos de trabalho, explicárom o labor realizado no último ano por este novo Conselho —eleito em outubro de 2012—. Ainda, foi projetado um vídeo sobre a ILP Paz-Andrade, fruto do labor do grupo audiovisual da associaçom.

Depois da assembleia, boa parte dos sócios e sócias figérom umha foto de família e tivérom um jantar-convívio num restaurante de Ponte Vedra.

 

[Prima aqui para alargar a imagem]

 
 

Roberto Pardal Coca: «As semelhanças com a lusofonia são além das linguísticas, também sociais e culturais»

PGL- Roberto Pardal Coca, é natural de Briom e atualmente mora em Madrid. Durante anos teve responsabilidades políticas e orgánicas no BNG. Cursou o ano passado português na EOI de Compostela o que mudou a sua percepção do português e a sua relação com a variedade galega.

Roberto estudou este ano português na EOI de Compostela. Em que medida tem mudado a tua percepção do português e a sua relação com a variedade galega?

O certo foi que a minha percepção tem mudado e muito depois de cursar português na EOI. Mas penso que mudei dum ponto mais emocional que racional. Já levo tempo a pensar que a lusofonia é um elemento estratégico importante para a fortaleza do galego no futuro, mas agora acho que essa visão forma parte de mim.

O contato com a língua é o contato com a cultura e com a identidade dum povo. É quando tive esse contato com a língua portuguesa confirmei o que já suspeitava desde há tempo -e que todos e todas suspeitamos em maior medida: que as semelhanças com a lusofonia são além das linguísticas, também sociais e culturais. E em segundo lugar o português é uma ferramenta com um valor estratégico realmente importante para nós, e não me refiro só dum ponto económico.

Um dos pontos da ILP Valentín Paz Andrade é o ensino de português no ensino púbico. Pensando em ti, e sobretudo na tua rede social, que teria implicado o contato com o português na escola?

Acho que o ensino de português no liceu ou na escola teria dado uma ferramenta muito importante –e não apenas a nível profissional-, um contacto com outras culturas teria reforçado a nossa identidade como povo no mundo. Mas, sobretudo, no que se refere à minha gente o galego e o português seriam vistos com normalidade e como uma vantagem neste mundo que nos tocou viver.

Há gente hoje em dia que não vê a porta grandíssima que nos abre o galego-português ao mundo e não só na lusofonia, e prefere tentar fugir por pequenas janelas que, ademais implicam um trabalho de aprendizagem muito superior. Ao deitar a vista atrás, parece incrível, quase aberrante que nem sequer existisse uma optativa de língua portuguesa no liceu.

Durante anos tiveste responsabilidades orgánicas e políticas no BNG, por que achas que a visão internacional do galego, e a construção de um padrão convergente com as falas portuguesas, não tem muito calhado no nacionalismo maioritário?

Considero que sou um pouco profano nesta matéria. Mas posso falar como vivi ao longo desses anos dentro do BNG essa visão internacional do galego.

Acho que durante esses anos não percebi um debate aberto e sincero dentro da organização sobre o reintegracionismo. Quando comecei a minha militância no Bloco não tinha quase contato com o reintegracionismo excepto um par de companheiros da faculdade. E excepto pessoas concretas não encontrei uma visão coletiva e desenvolvida sobre o tema. Era mais uma escolha pessoal, mais ou menos respeitada mas não uma escolha coletiva.

Foram contatos pessoais no seio do BNG (e companheiros agora na AGAL) os que foram mudando a minha visão sobre uma língua inserida no mundo, na Lusofonia. Passei a ser consciente da origem comum dum corpo linguístico a acreditar na necessidade de uma visão internacional do galego. E agora entendi que toca trabalhar neste objetivo.

Se fosse hoje, é possível que tivesse participado e alentado estes debates, polo menos na minha localidade. E também no meu trabalho com a mocidade ou na minha faculdade.

Muito tem luitado o Miguel Penas comigo!

Achas que se está a produzir umha viragem nesta focagem? por que?

Acho que sim. Não sei se a curto prazo, mas vejo que cada vez há mais pessoas, moços e moças que partilham esta visão. Os partidos e as instituições devem ser as ferramentas que tem a sociedade civil para mudar o mundo em que vive e convertê-lo no mundo onde quer viver. Com a língua também.

Tu procedes de um concelho rural, periurbano -Briom- de maioria galegofalante mas tens morado durante anos numha cidade como Compostela, e agora na emigração em Madrid. Como é a situação do galegofalante nos diferentes ámbitos?

Em Briom a maioria dos habitantes falam em galego. Quando eu era um cativo a maioria dos moços e moças falávamos em galego e hoje isso não é assim. Existiu uma importante imigração castelhano-falante nos últimos anos e não se tem feito trabalho algum que corrija esta situação. Mesmo a gente que fala galego não é consciente da importância de fazer.

E mais, em boa medida, estes novos vizinhos e vizinhas, unha classe meia alta com profissões liberais, professores de faculdade ou advogados, são a imagem da modernidade. Tenho medo que as crianças de Briom acabem detestando o galego por imitação.

Sendo eu monitor de tempo livre a um menino da Luanha de 3 anos ensinaram-no a dizer nomes de frutas e legumes no lugar de insultos. Era uma delícia escutar o seu sotaque (sotaque cabreado, isso sim!) berrando Cenoura! Pêssego! Não quero que isso se perda.

Em Compostela, nos vivíamos no bairro das Fontinhas e fazíamos muita vida no bairro de Sam Pedro e na Cidade Velha. A imagem que nós tínhamos não se adapta a situação real do conjunto da cidade. Acho que o galego está a perder posição entre os vizinhos e vizinhas de Compostela, sobretudo na zona urbana. Se calhar esta situação faz-se mais preocupante entre a mocidade.

Porém, podes olhar como a gente galega deslocada em Madrid costuma a falar mais em galego, se calhar por não poder usa-la de maneira habitual. Mas esta é apenas a minha opinião, é possível que em outros âmbitos isto não seja assim.

E como achas que pode ser assimilado o discurso reintegracionista em cada um destes espaços?

Acho que o elemento fulcral é o orgulho. Quero dizer, no momento em que a nossa língua e a sua visão internacional seja vista como um elemento de extraordinário valor e um elemento próprio, a gente assimilará este discurso como seu. Mas este é um trabalho muito complicado.

O certo é que hoje o galego e mesmo o português não se vêem com a utilidade que têm nem em muitos âmbitos da sociedade galega os vêem como um orgulho. Estou certo que muita gente gostaria de falar castelhano no lugar de falar galego. E muita gente gostaria de aprender a falar alemão, checo ou italiano antes do que aprender a falar português.

Penso que tanto Compostela como a diáspora galega em Madrid estão mais inclinados a assimilar o discurso reintegracionista do que no rural galego.

Na tua opinião, por onde deve caminhar a estratégia luso-brasileira para avançar na sua sociabilização?

Na minha humilde opinião, devem-se fixar referências conhecidas e reconhecidas por todos os galegos e galegas. A gente não precisa escutar o que têm que fazer nem como devem pensar. Não o querem fazer.

Acho que tem que ser um discurso positivo, que ponha sobre da mesa aqueles elementos próprios que nos unem com a lusofonia e que nos fazem diferentes ao tempo. Mas com normalidade, com uma conversa de tu a tu sem apriorismos nem sentença de cátedra.

Porém, acho que a chave situa-se na gente nova. Para bem e para mal.

Que visão tinhas da AGAL, que te motivou a te associar e que esperas da associação?

O certo é que sempre vi com bons olhos o trabalho da AGAL. Ainda que não o sentia como próprio, sempre entendi que era uma boa estrategia como País e como povo. Um trabalho que alguém tinha que levar para a frente.

Como já disse, o Miguel leva muito trabalho feito. Porém, acho que pouco a pouco fui entendendo como próprio todo esse trabalho que vinha desenvolvendo a AGAL. Estudar a língua portuguesa e ter que deslocar-me a Madrid foram elementos muito importantes, sem dúvida. Mas acho que foram as relações pessoais e os ativos humanos com os que conta a associação os que me fizeram tomar a decisão. Tanto o Miguel como o Valentim Fagim deram-me a certeza de que a decisão era a ótima. E também outros amigos como o Saul Santim ou o Inhigo Ansoategi –e muitos outros.

Como gostarias que fosse a "fotografia linguística" da Galiza em 2020?

Gostaria muito de ver milhares de cativos e cativas de 3 anos a berrar centos de frutas e legumes em galego para calmar o seu enfado. Cenouras! Cogumelos e pêssegos!

Acho que este seria a primeira pedra e a vez a pedra chave que daria firmeza a uma ponte que nos uniria com a lusofonia e com o mundo. E sobre esta ponte poderíamos levar todas essas ferramentas que necessitamos para trabalhar no agro ou nos centros tecnológicos e de investigação, nas empresas e nos meios de comunicação e com as nossas crianças e amigos e com os nossos chefes.

Conhecendo Roberto Pardal Coca

  • Um sítio web: Agora que estou em Madrid, praza.com
  • Um invento: a borracha de apagar.. Não, é brincadeira. Acho que a Internet vai ser um elemento chave nos anos nos que estamos. Mas se usássemos mais a borracha e apagar...
  • Uma música: Uuuff! Se tenho que dizer uma, "Óleo de mujer con sombrero" mas a lista pode ser interminável. Ultimamente não tiro da cabeça "39 grados" de Quique Gónzalez...cousas de Madrid.
  • Um livro: Tenho que reconhecer que adoro "Onde vivem os Monstros" desde que era um menino.
  • Um facto histórico: Não sou muito de factos históricos. Prefiro as pequenas cousas que movem o mundo. Vale como reposta? Não? Sim?
  • Um prato na mesa: Eu vou muito por épocas, mas dum tempo para aqui faz-me  crescer água na boca ao pensar numa boa empanada de milho com zamburinhas.
  • Um desporto: Tenho que reconhecer que gosto muito de futebol.
  • Um filme: Gosto muito do cinema mas não sou uma rata de "videoteca". Se calhar vou dizer "Reservoir dogs". Mmmm, também "Cinema Paradiso"...
  • Uma maravilha: Tenho saudades do mar...
  • Além de galega: Um pouco sonhador....

 
   

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