Associaçom Galega da Língua

Romám Vilela: «Eu tenho a certeza de que umha vez o galego seja língua da Galiza em todos os âmbitos, o galego-português avançará de forma natural»

PGL- Romám Vilela, é natural de Cedeira, atualmente mora em Viana do Bolo aonde foi por questons laborais. É mais um elemento do clam dos Vilela, primo de Roi, Bernal e Bruno. De sempre, toca e dança música tradicional, o que lhe permitiu viajar pela Europa e polo resto do Estado. Tem um filho, Martinho, motivo polo qual agora reavivou a sua preocupaçom pola língua.

Moras em Viana do Bolo, qual é a situaçom atual da Galiza interior? Existe vida mais alá? Ou o despovoamento está a acabar com tudo?

Eu nom nasci cá, a minha família procede da outra ponta da Galiza e, porém, eu decidim viver nesta terra, por puro namoramento. Os futuros possíveis som infinitos em funçom das perspetivas ou do que cada quem procura. Hoje vivemos umha crise a nível global, provocada por um crescimento desproporcionado, incontrolado e que se demonstrou totalmente injusta para a maioria da populaçom. Quiçá o crescimento económico nom seja, portanto, a melhor medida do bem-estar da populaçom, da sua felicidade. Eu vivo feliz em Viana do Bolo. Se olho para o passado, acho que se perdêrom grandes oportunidades de pôr em valor o setor agrário e gadeiro galego, mas ao olhar para o futuro, continuo a pensar que temos o mais difícil de conseguir, a experiência, a terra, o clima... Acho que havemos de voltar à terra, o desprezo que sentímos por ela, foi-nos devolto por aqueles que nos prometerom o paraíso na indústria.

Nessas terras vive-se o entrudo duma outra maneira, como é a tua relaçom com esta data tam marcada?

Muito antes de ter chegado a Viana, decidim que os meus anos nom iam de 1 de janeiro a 31 de dezembro, senom que começavam na quarta de cinza e acabavam no momento em que começa o Entrudo. Os dias que há no meio regem-se por outro tipo de tempo. As noites som eternas, as sobremesas nunca acabam e, porém, dura tam pouco... O entrudo em Viana é tam espetacular, tam formoso e colorido… tam curto.

O ano em que cheguei admirava o Foliom, e mesmo alguém me colocou um bombo e convidou a participar. Acho que, naquele momento, convertim-me em vianês. Gosto imenso das mesas cheias de amigos, das casas abertas, do frio na face em contraste com a calor que fornece um bom licor caseiro ou a força da maça no couro, dos boteiros impulsados pelas suas mocas, com máscaras que parece impossível suster sobre cervicais humanas… E, mesmo nas noites em que algumha obriga nom me permite sair e participar, permitem-me desfrutar dum dos melhores momentos do entrudo: quando, desde baixo do peso dos cobertores, vou ficando dormido ao ritmo de afastados folions.

Quer dizer, embebedo-me em compadres e nom a solto até a quarta de cinza.

Qual é a situaçom lingüística desta vila?

Acho que o uso do galego é muito maioritário, em todos os âmbitos. Porém, na minha opiniom, existe umha total despreocupaçom pela língua, nom há consciência da importância de transmiti-la aos filhos, de defendê-la... e acho que existe umha aceitaçom de "inferioridade" perante o espanhol. Imagino que algo nom muito diferente do que acontece no resto do País, ante a ausência histórica de medidas de normalizaçom ou valorizaçom do idioma.

Existe um preconceito que associa o reintegracionismo e a Lusofonia à cidade e a neofalantes, que achas disto?

Procedo da cidade e fum alfabetizado em espanhol.  Tocado e derrubado.

A sério, eu levo mais de vinte anos a escrever e a falar em galego e, até agora, fizem isto de modo independente, sem formar parte de nengumha associaçom e rodeado, sempre, de nom reintegracionistas. Sinceramente, sempre me senti muito bem a falar de temas lingüísticos e nunca me senti julgado. Aprendi tanto a falar galego com o que lim ou estudei, como a falar com os meus amigos galego-falantes "de toda a vida". Estou convencido de que todos falamos o mesmo: uns sesseiam, há teístas e cheístas, sempre se cola algum espanholismo, /-vel/ ou /-ble/, /-ción/ ou/-çom/... Som diferenças mínimas, que existem entre falantes de qualquer língua do mundo. Pertencemos à Lusofonia, saibamo-lo, aceitemo-lo, ou nom. E falemos como falarmos. Nom é umha escolha. Já sei que há gente muito preparada que o nega, e como o nega!!! Para mim é ridículo, o branco é branco... Bom, ou branco roto...

Como escrever, acho que essa é a escolha. Nom sei se quem escolhe escrever em galego-português mora ou procede, maioritariamente, da cidade. Nom me pareceria estranho, no entanto, porque, até o de agora, o reintegracionismo estava pouco promovido, havíamo-nos de encontrar com ele e, esse encontro, acho que era mais doado nas cidades, onde estám os foros, as instituiçons, a Universidade, os cafés culturais... Falo em passado, porque tenho a máxima confiança nos efeitos de iniciativas como os OPS... emfim, é o reintegracionismo quem vem ao encontro. E umha vez contatado... já se trataria de continuar a manter que o branco nem sequer é branco roto.

Quando percebeste que o galego era mais do que te ensinaram na escola?

O mérito todo é, a partes iguais, de Astérix, Tintin, Luky Luke e do Xavi, um bom amigo que, por sinal, nom cumpre o preconceito de neofalante de cidade. Começou com o encontro com as coleçons dos famosos heróis em versom portuguesa, na casa dos meus tios na Corunha, onde morei o primeiro ano de Universidade... Além de provocar um efeito negativo direto no meu rendimento académico (sempre os preferim aos livros de texto), fizérom-me ler em português, para mim, o único exercício preciso para descobrir que o português e o galego som o mesmo idioma.

Por outro lado, e coincidindo no tempo, integrei-me num grupo de dança tradicional em que, um pouco como a aldeia de Astérix, sobrevivia um único reintegracionista, o Xavi. Foi ele quem me forneceu de material e me gerou o interesse e a consciência precisa para mudar. Foi umha mudança rápida, no ideológico, mas vagarosa, no ortográfico... De facto, aínda ando nela.

Na tua opiniom, por onde deve caminhar a estratégia luso-brasileira para avançar na sua sociabilizaçom?

Eu tenho a certeza de que umha vez o galego seja língua da Galiza em todos os âmbitos, o galego-português avançará de forma natural. O rumo de qualquer estratégia, parece-me, deveria ir para a sociabilizaçom do galego, além de qualquer diferença.

Eu nom entendo muito de grandes movimentos, de grandes estratégias... Parece-me complicadíssimo, da posiçom que ocupa atualmente o reintegracionismo na Galiza, ignorado e expulsado das instituiçons normativizadoras e sem respaldo político algum, tomar decisons que afetem a sociedade num tema tam subvalorizado como é o da língua. Mas gosto imenso, como comentei acima, de iniciativas que acheguem o galego-português à gente, que deem a oportunidade de conhecer e escolher. Admiro a quem tem a capacidade de concebê-las e implementá-las.

Por outro lado, encontro, no meu entorno, muito rejeitamento ao galego-português porque se percebe como umha oposiçom contra o galego mamado, o coloquial. Eu nom partilho esta opiniom, mas fai-me considerar por que existe e está generalizada. Temos que analisar que é o que fai que se veja assim e lutar contra isso.

Que visom tinhas da AGAL, que te motivou a te associar e que esperas da associaçom?

Som um reintegrata solitário, desde há mais de vinte anos. A AGAL sempre foi a minha fonte de material (dormiu muitos anos comigo, nas folhas do Estudo Crítico), um recurso para a soluçom de dúvidas ortográficas... Sempre apoiei e valorei muito positivamente a associaçom, mas eu, nom sei se por algum traço de personalidade, por tradiçom ou desleixo, nunca fum especialmente participativo.

Por que agora? À pergunta respondem a várias circunstâncias. A primeira é que há ano e meio nasceu o meu filho e quero que viva em galego na Galiza. Com o nascimento reavivou-se a minha preocupaçom pola língua, algo esquecida ou moderada nos anos anteriores. É hora de somar.

O debate lingüístico intensificou-se neste ano e meio. Novos amigos, reencontros, menos caralhadas e mais ceias tranquilas ao redor dumha mesa, pendentes dum negócio desses para escutar o neno enquanto dorme... favorecêrom a conversa. Comecei a consultar com regularidade a web da AGAL, a descobrir novos materiais, açons formativas e umha forma de trabalho que prima o achegamento à gente. Nisso acredito e por isso me associei.

Da associaçom espero que continue polo caminho em que está. Adoro a imaginaçom, em qualquer âmbito, e penso que disso está sobrada a AGAL.

Como gostarias que fosse a "fotografia lingüística da Galiza em 2020?

Nom fica muito, a verdade. A só seis anos e com Alonso Montero à frente da RAG, sem Conselharia de Cultura e acultaramento através da Educaçom... A cousa está para discursos do tipo " Esta noite tivem um sonho...".

Gostaria que se começassem a ver os efeitos da primeira política séria em defesa da língua neste País. Gostaria de ver responsáveis de medidas como: a matemática e as ciências em espanhol e as humanidades em galego, pagando com cárcere por delito de terrorismo lingüístico. Viver a ressaca dum Dia das Letras Galegas dedicado a Carvalho Calero. Que ninguém sinta a mais mínima insegurança por escolher o galego numha entrevista de trabalho, num exame... Que a gente vaia aprendendo a escrever e a entender o que escreve. Que os OPS desapareçam porque em 2021 se aprenderá galego-português na escola...

 

Conhecendo Romám Vilela

  • Um sítio web: http://www.jotdown.es/ De tudo, um muito. Cinema, literatura, História...e , até ciência, para quem interesse.
  • Um invento: Agora mesmo, a bicicleta.
  • Uma música: Zeca.
  • Um livro: Impossível.
  • Um facto histórico: O descobrimento da cerveja.
  • Um prato na mesa: Sem dúvida, croquetes. Mais que um prato, um vício.
  • Um desporto: Corrida, montanhismo, basquete e, em fase de iniciaçom, Mountain Bike.
  • Um filme: Singin´ in the Rain... taraaa..rarara.
  • Uma maravilha: O acordar do Martinho.
  • Além de galego: Preguiçoso.
 
 

Assembleia da AGAL e convívio em Ponte Vedra

PGL - O presidente do Conselho da AGAL, nos termos legais e estatutários, notificou a convocatória de Assembleia Geral para o vindouro 30 de novembro (sábado). Será às 11 h em primeira convocatória e 11h30 na segunda. Decorrerá na Casa da Luz - Turismo de Ponte Vedra, sediada na Praça da Verdura, s/n, da cidade do Leres.

A seguir, reproduz-se a ordem do dia:

  • Leitura da ata anterior
  • Relatório do ano 2013 / Projetos para o ano 2014
  • Orçamento para o ano 2014
  • Outras questões

Delegaçom de voto

Se algumha pessoa associada nom puder assistir, tem a possibilidade de delegar o seu voto no ponto número 3 (orçamentos) num outro sócio ou sócia. Para isso, basta endereçar umha mensagem eletrónica para secretaria[arroba]agal-gz.org e indicar a pessoa em quem delega. As pessoas presentes na assembleia só podem levar um voto delegado.

Convívio

Depois da assembleia terá lugar o já tradicional jantar-convívio entre os sócios e sócias que assim o indicarem. O preço da ementa é de 15 euros e constará de dous pratos e sobremesa, devendo escolher para o segundo prato peixe ou carne. Se alguém optar por um jantar vegano, também o poderia fazer, mas indicando-o previamente. As reservas podem-se fazer até 28 de novembro no endereço secretaria[arroba]agal-gz.org, indicando no assunto "Jantar assembleia".

 
 

Anova organiza homenagem em Ferrol a Carvalho Calero com presença da AGAL

PGL - O presidente da AGAL, Miguel R. Penas, participará domingo, 27 de outubro, em Ferrol, numha jornada que organiza a Mocidade de Anova-Irmandade Nacionalista sobre Carvalho Calero, a quem fazem homenagem no aniversário do seu nascimento, que será só três dias depois.

A jornada decorrerá no IES Concepción Arenal e terá a seguinte programaçom:

  • 12:00-12:15 - Apresentaçom da jornada.
  • 12:15-13:45 - O galego no ensino público. Umha visom sócio-linguística.
  • 13:45-16:00 - Jantar (o jantar custará uns 10 € e para se inscrever é necessário reservar antes do sábado 26 pas 12h no e-mail mocidadeanova[arroba]gmail.com ou mocidade[arroba]anova-galiza.org)
  • 16:00-17:00 - Homenagem a Carvalho Calero: diante da que foi a sua vivenda natal. Atuaçom musical por encarregado da Liga Gaiteira Galega, recital obras de Carvalho Calero, oferta floral e hino.
  • 17:00-18:30 - O galego e os meios de comunicaçom. Participam Miguel Rodríguez (La Opinión), David Lombao (Praza Pública) e María Xesús Arias (RadioFene).
  • 18:30-20:00 - A normativa AGAL. Miguel Penas. 20:00-20:15 - Clausura da jornada.
 
   

Matias G. Rodrigues, licenciado em História da Arte: «É preciso espalhar a mensagem, dado que esta está já conformada, e tem as de ganhar»

PGL- Matias G. Rodrigues é neofalante de 23 anos de Ponte Vedra, começou a falar galego na universidade uma vez vencido o medo à sua incompetência. Desde o começo, tanto influído polo contexto da corrente política em que ia penetrando como por textos, vídeos, livros como Do Ñ para o Nh de Valentim R. Fagim e algum curso na Gentalha. É licenciado em História da Arte e acaba de chegar de fazer um mestrado em Barcelona.

De Ponte Vedra, neofalante e dum contexto familiar e social onde o galego não existia em modo algum, com a excepção de ser a língua empregue por algum professor nalgumas poucas matérias durante o ensino secundário. Como foi o passo?

No centro de Ponte Vedra pode-se viver sem escutar galego em absoluto. No meu caso, cresci numa família onde todos falam castelhano, os meus companheiros de escola e liceu falavam castelhano, os meus livros estavam em castelhano, e mesmo algum professor do colégio dava as aulas de Galego em castelhano (por incrível que pareça). O passo, em consequência, foi lento, mui lento, já que até chegar a Compostela nunca vivera propriamente num contexto galego-falante, nem falara a língua durante mais de duas ou três frases seguidas (nas aulas do liceu e sem demasiada competência).

Como foi assumida esta mudança entre as tuas amizades, família...?

Com profunda estranheza, com certeza. A minha mãe, por exemplo, não sabe falar o idioma, dado que ninguém na família o falava e também não o estudara no colégio, pelo qual para ela era quase como se falasse uma língua estrangeira; muita gente criada em galego ignora a quantidade de gente na Galiza que está neste caso, pessoas que não têm propriamente nada em contra da língua, é só que esta não formou parte da sua infância, conformação pessoal, relações profissionais, etc. Seja como for, a maioria destas pessoas, em especial a gente nova, é muito receptível à mensagem reintegracionista; simplesmente, como vivi eu mesmo a respeito dos meus amigos, nunca tiveram a possibilidade de discuti-lo porque nem sabiam o que era, por mui razoável, ou mesmo óbvio, que lhes parecesse depois.

Acabas de chegar de Barcelona, de fazer um mestrado. Sempre se diz que havia que enviar aos galegos e galegas a Portugal, mas há muitas pessoas que morando na Catalunha, e em contacto com o catalão tiveram o insight. É o teu caso?

Embora eu já falasse e escrevesse em concordância com esta visão antes de ir embora, o certo é que foi toda uma experiência. Em realidade, basta com apanhar o autocarro do aeroporto à cidade para ver como poderiam ser as coisas na Galiza (digamos numa Galiza hipotética, culturalmente dirigida por gente que se preocupasse pela nossa língua mais do que pelas subvenções). Uma voz em off avisa das paragens em catalão e inglês, e vais observando como todas as lojas têm a rotulação no idioma do país; surpreendentemente, a gente parece saber que taronja significa “laranja”, ou lloguer “aluguer”, e também não se perdem os turistas.

Em termos gerais, a visão da língua é muito diferente lá, para começar porque a sua estruturação política e consciência nacional é muito diferente. A questão da “utilidade da língua” simplesmente não tem lugar: é o seu idioma, e usam este (tanto nos supermercados como na universidade), como em qualquer sociedade sã. Pelo que respeita ao meu caso, não podia deixar de pensar no triste que se tornava que, após um curso antes de ir embora, o próprio contato com a gente lá e um pouco de vontade, falasse catalão sem (demasiada) vergonha o primeiro mês, porque sei que provavelmente saiba eu mais catalão do que muitos galegos sabem o seu próprio idioma. As diferenças manifestavam-se constantemente; baste mencionar o facto absurdo de que em Barcelona há infinidade de livrarias nas quais podes pegar em livros escritos por portugueses, angolanos ou brasileiros no nosso idioma, quando isto não acontece em nenhum lugar da Galiza.

Que te motivou a viver o galego como sendo extenso e útil?

Num primeiro momento, como muita gente educada em castelhano, creio que foi antes bem uma posição "inteletualista", por assim dizer, algo que achava evidente em termos argumentativos, mas não vitais. Tive que ter contato com a realidade em galego para tomar consciência da verdadeira natureza do problema, que é em realidade muito mais simples: é a minha língua.

Por outra parte, longe da retórica dos livros de texto do colégio e liceu, nunca senti a nossa língua como algo exclusivo da Galiza, como algo que rematasse magicamente onde o faz o nosso mapa. Nunca senti Pessoa como "menos meu" que o Manuel António, pelo que desde o começo optei pelo reintegracionismo como algo óbvio em si mesmo. Com respeito à ortografia, não é nada que um curso (uma hora no Pichel!) não possa arranjar, quanto menos para te poder manejar com maior soltura (estar a umas poucas normas ortográficas de distância de 250,000,000 de pessoas está bem, né?).

És licenciado em Historia da Arte, existem laços entre a Galiza e o resto da lusofonia no teu campo?

Em absoluto (quanto menos laços reais, isto é, os que existem entre iguais). Embora existindo evidentes e contínuos contatos com a arte portuguesa, um tudense poderia licenciar-se em História da Arte em Compostela sem saber absolutamente nada da arte do Porto, por exemplo. A nível investigador, o autismo é semelhante, e mesmo os congressos "ibéricos" costumam a se conceber como congressos de arte "espanhola" (ainda estou a aguardar pelo que pode isso significar), entendendo a portuguesa como uma sorte de "apêndice" pitoresco, em todo caso menor (e pior). Mesmo quando as conexões entre a arte galega e brasileira (talvez mesmo mais que com a portuguesa) sejam cada dia mais evidentes, é algo que se sai dos parâmetros discursivos (é dizer, ideológicos) da universidade galega, pelo que simplesmente se ignora.

Achas que se conhece a arte lusófona na Galiza e ao contrário? Como se poderia trabalhar este tema?

Na atualidade, os estudos de História da Arte contemplam três matérias obrigatórias sobre "arte espanhola" e outras tantas sobre arte galega (algo disparatado, ao entenderem por isto literalmente a arte que podemos topar nas fronteiras da atual C.A.G., o qual se evidenciava tão absurdo em termos artísticos como históricos). Conhecer a arte da Lusofonia a nível académico seria tão simples como inclui-la nos programas de estudo; isto possibilitaria que se publicasse mais e que se celebrassem mais exposições, para que assim o conhecimento popular (tanto o nosso como o das demais nações lusófonas a respeito da arte galega) se espalhasse. Porém, com muitos historiadores sucede o mesmo que com outros tantos filólogos: não existe vontade qualquer de tender pontes; preferem morrer com as janelas bem fechadas antes que reconsiderar a sua postura. Se não nos respeitamos nem nós, como estranhar-se de que o diretor do Centro Galego de Arte Contemporânea (de nacionalidade portuguesa) fale em castelhano?

Na tua opinião, por onde deve caminhar a estratégia luso-brasileira para avançar na sua sociabilização?

Creio que há que deixar de negociar com o carcereiro. A estratégia luso-brasileira está aqui para ficar e não há permissões nem concórdias que buscar com quem antepõe os seus interesses económicos e ideológicos aos da língua. É por isto que o labor da AGAL é importante, porque tem como vontade primeira somar forças, socializar e formar, reforçando assim o nosso lugar no mundo. Por isto, creio que o caminho está já marcado, e não é outro que a expansão progressiva duma muito feliz mensagem: crias que te podias comunicar com dois milhões e meio de pessoas, quando em realidade, podes fazê-lo com quase trezentos, e assim também escutar a sua música, ler os seus livros, aprender a sua História, etc. Numa palavra, o que é preciso é espalhar a mensagem, dado que esta está já conformada, e tem as de ganhar.

Que visão tinhas da AGAL, que te motivou a te associar e que esperas da associaçom?

Eu via a AGAL como uma meta à que me ia levar muito tempo chegar, porque eu, como tantos outros, passei pela fase do "não sei escrever". Porém, bastou-me com conhecer gente vinculada à associação para me dar de conta de que a coisa não consiste em fazer exames, e que todas e todos estamos lá para aprender e crescer. De súpeto, tudo se tornava óbvio e natural (é como diz o Hegel, a necessidade só é percebida de jeito retrospetivo).

Uma cultura, ou está viva, ou não é tal. Do mesmo jeito, as normas e as academias podem ser tanto uma plataforma de arranque como uma sentença de morte; para mim, desde o começo, era bastante evidente a diferença essencial entre o folclorismo inerte do "galego-está-onde-a-Galiza-estar" e o internacionalismo representado pelos reintegracionistas. Ainda sendo historiador (ou talvez precisamente por isso), se tenho que escolher entre uma língua para recitais, nostálgicos relatos medievais, subvenções e ortografia estrangeira, ou bem uma língua internacional, viva e concorde à fala da grande família de que formamos parte, creio que escolho o segundo. É por isso que só aguardo da AGAL que continue o seu labor, e estar aí para ajudar naquilo que puder.

Como gostarias que fosse a "fotografia linguística" da Galiza em 2020?

Uma imagem simples, embora muito eloquente, seria que pudesse fazer algo tão simples como saír da casa, atravessar um par de ruas, tomar um café com gelo sem o subsequente "¿café con hielo?", e depois ir comprar na livraria o último de Gonçalo Tavares, sem traduções que não precisamos.

 

 

Conhecendo Matias

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  • Um sítio web: http://www.discogs.com/
  • Um invento: O post-punk de Manchester e Liverpool.
  • Uma música: Qualquer coisa cantada por Alison Statton ou Kevin Rowland, ou gravada pela Velvet entre 1966 e 1968.
  • Um livro: Trópico de Capricórnio, de Henry Miller.
  • Um facto histórico: O desenvolvimento da cultura afro-americana desde o desenvolvimento do blues até o sucesso da Motown.
  • Um prato na mesa: Qualquer em que não intervenha a exploração animal.
  • Um desporto: Ler?
  • Um filme: Morangos silvestres, de Ingmar Bergman.
  • Uma maravilha: A coerência de Harold Pinter.
  • Além de galega: Comunista.
 
 

Maria Sola, professora de português: «É fulcral difundirmos o conhecimento dos outros padrões lusófonos para entendermos que o reintegracionismo é pura lógica»

PGL - Maria Sola reside e trabalha em Ponte Vedra. É uma pessimista ativa e apostatou da fé isolacionista. Pensa que a nossa língua é válida seja falada por 200 ou 200.000.000 pessoas. Não quer perder um braço, mas quer que as suas netas falem a língua que ela fala.

Maria José Sola é professora de português na EOI de Ponte Vedra. Que tem de diferente dar aulas de português na Galiza, quer a respeito da docente, quer a respeito das turmas?

Diferente a respeito de quê? Diferente em comparação com dar aulas de outra língua a pessoas adultas na Galiza? Ou diferente se comparado com ensinar português noutras partes do mundo? Na verdade, desta última diferença não posso falar, pois infelizmente ainda não tive oportunidade de ensinar nenhuma língua fora da Galiza.

Quanto ao primeiro caso, o ensino de português na Galiza quando comparado com o ensino doutras línguas, várias são as diferenças, quer do ponto de vista da professora, quer do ponto de vista das pessoas ensinadas. Como professora, uma das grandes vantagens que encontro é o rápido avanço das alunas no domínio da língua durante os primeiros meses/anos do estudo. Afinal, embora existam algumas divergências entre o padrão galego e os outros padrões lusófonos -nomeadamente na fonética, mas não só-, a língua está ainda mui presente na cabeça das galegas e galegos, e ainda bem.

Outra das vantagens é a atitude geral das pessoas que estudam português: embora queiram, com certeza, passar e obter o diploma, não se sente essa pressão que domina muitas turmas de outras línguas, e que por vezes acaba mesmo por condicionar a maneira como as docentes ministram as aulas.

Porém, uma coisa que invejo das outras línguas ensinadas nas Escolas de Idiomas é a enorme quantidade de material didático de que dispõem. Para nós existe bem pouco, e em muitas ocasiões não se adapta ao nosso tipo de estudantes. Isso obriga-nos a ter de elaborar muitíssimo material, o que, se por um lado desfrutamos, por outro exige de nós -ainda mais daquelas pessoas com poucos anos de experiência nas EOIs- uma dedicação e um esforço importantes.

Um galego, uma galega, quer estudar na EOI e não tem preferência por uma língua qualquer. Como a encorajarias a estudar português?

Essa é boa! Quanto a isso, eu sou bem insistente, quase até à exaustão. Não perco uma ocasião de tentar convencer as pessoas a estudarem português; ou de que não o deixem, caso já sejam alunas.

Mas tenho boas razões. Em primeiro lugar, porque eu gosto de turmas numerosas. Em segundo lugar, e centrando-nos já no encorajamento, porque penso sinceramente que a um galego estudar português merece-lhe mesmo a pena. Como já disse, avança-se mais rapidamente do que noutras línguas; permite comunicar-se com mais de 330 milhões de pessoas no mundo; num exercício de introspeção, ajuda-nos a aprimorar o conhecimento duma das duas línguas A da Galiza -quer seja língua materna, língua por eleição, segunda língua, etc.

Maria José Sola mora em Ponte Vedra. Como se vive em galego na cidade do Leres?

Mal. Não é só que a imensa maioria das pessoas de Ponte Vedra falem castelhano, mas -e bem pior- que muitas delas desconhecem a existência duma outra língua na cidade, quando não a tentam impedir diretamente. Desde ter que pedir três vezes uma torrada, e acabar por pedir em castelhano para que nos entendam, até ouvir dizer “Puentevedra”, experiências sobram para provar o que digo. Isto de “Puentevedra”, por acaso, foi-me vaticinado por um amigo, numa conversa sobre a situação do galego umas semanas antes, e eu não quis acreditar; pensei que viria a acontecer, sim, mas daqui a vinte ou vinte e tal anos. Como me enganei!

Maria José Sola é do clube pessimistas-com-vontade-de-agir. Que alimenta o teu pessimismo?

Devo dizer que a questão linguística, antes de mais, toca-me mesmo o coração e algum outro órgão menos romântico -depende do humor que tenha nesse momento. O engraçado é que eu costumo ser otimista e, quanto à língua, gostava de ser também. Porém, vejo a situação atual, a política linguística que existe (política evidentemente pró-castelhana e exterminadora, só que por vezes mascarada de harmónica e bilingue), a atitude das pessoas perante o idioma e as/os que o falamos, e dá-me vontade de chorar.

Que os meus próprios filhos, por exemplo, me perguntem porque eu falo galego se o resto das pessoas fala castelhano, se será que eu nasci em Galelândia, é razão suficiente para não ter muita esperança, ou não é?

Que alimenta a tua vontade de agir?

A dor imensa que me provoca pensar que nos estão a cortar um braço, são e em boas condições, e não só não nos queixamos como ajudamos na amputação. A necessidade de os meus direitos linguísticos serem respeitados, mais o desejo ardente de ver a língua numa imparável expansão antes do fim da minha vida. Que os meus filhos não acabem por falar castelhano mal entram para a escola pela esmagadora pressão dessa língua. Que eu não seja reconhecida entre as minhas vizinhas e vizinhos como essa que fala galego, por ser quase a única. Que o exemplo dalgumas pessoas convença muitas outras de que é possível viver em galego, em todos os âmbitos e a todos os níveis. E que os filhos das minhas netas ainda a falem.

Maria José Sola foi evangelizada na fé de Português-é-outra-cousa. Como foi o processo de apostasia?

O processo foi lento mas inelutável. Em primeiro lugar, devo dizer que, embora na minha casa só pontualmente se falasse galego, eu tive a sorte de o ouvir diariamente no pátio da escola, com bastantes vizinhos, etc. Daí eu não me considerar uma neo-falante strictu sensu. Quero esclarecer isto porque, em geral, as pessoas neo-falantes têm uma atitude mais aberta para a estratégia reintegracionista.

Depois, eu estudei sempre galego no padrão oficial e até, no curso universitário, os professores de galego eram abertamente contra o reintegracionismo e a relação do galego e o português. Eu fui evangelizada nessa fé. Por cima, os poucos reintegracionistas que conheci nessa altura eram chatérrimos, o que não contribuiu para a minha mudança de ideias.

Porém, conforme fui aprofundando os meus conhecimentos de português, através da minha experiência como professora, fui percebendo que aquilo que me tinham contado não era a verdade, ou toda a verdade. A pouco e pouco fui vendo como o espelho em que nos devíamos refletir era o português, como uma ortografia comum sempre seria uma vantagem e nunca uma desvantagem, como os laços entre as duas variantes são ainda fortes e bem evidentes, ainda mais para os falantes de zonas fronteiriças, como o Val Minhor e o Baixo Minho (de onde eu sou), como devemos fomentar e defender a relação com os padrões portugueses e o resto das culturas lusófonas, como uma excelente maneira de ganhar projeção no mundo.

Contodo, só fiz clique noutra conversa com outro amigo, por sinal também professor de português. Eu estava a explicar-lhe como estava convencida dos benefícios da ortografia comum, embora eu não fosse reintegracionista; e ele riu e respondeu: “Mas isso é reintegracionismo”. Foi aí que eu “saí do armário” e assumi que, afinal, era reintegracionista.

Que temos a ganhar com a estratégia luso-brasileira para o galego?

Muitos são os benefícios desta estratégia. Não falo apenas de benefícios etéreos e intangíveis, tais como o reforço da identidade ou a abertura a culturas irmãs, que de todas é sabido que a maioria das pessoas, infelizmente, não dá um cão por estas lérias. Os benefícios serão também económicos, laborais, tecnológicos, etc.

Assim, os principais benefícios são, do meu ponto de vista: por um lado, conseguir que a nossa língua passe a jogar na primeira divisão, a das línguas mundiais; por outro, e associado ao primeiro, reacender o orgulho e o amor por ela. Desta maneira, a estratégia utilitarista serviria também para, a médio prazo, incutir nas pessoas a ideia de que a nossa língua é válida porque é nossa, quer seja falada por 200 pessoas ou por 200 milhões; e que deixar que na Galiza morra é, como já disse antes, deixar que nos cortem um braço.

Por onde deve transitar o reintegracionismo para avançar socialmente e tornar-se “sentido comum”?

Na minha opinião, é fulcral difundirmos o conhecimento real dos outros padrões lusófonos; quanto mais soubermos deles, mais entenderemos que o reintegracionismo é pura lógica. Nesse sentido, considero importantíssimo o trabalho desde a infância, tal como os ateliês Percussões, que irá garantir esse conhecimento nas gerações futuras.

Convém, também, certa tolerância com os defensores da estratégia oficial, construirmos pontes em vez de muros. Além de que a razão não costuma estar toda de um único lado, com certeza a maioria dessas pessoas ama a língua tanto quanto nós.

De facto, a rejeição que ainda hoje provoca o reintegracionismo originou-se, em parte, em atitudes passadas mais radicais -a propaganda interessada também ajudou, é claro. O próprio nome mete medo a muitas/os, que o associam erradamente a posições e comportamentos que não compartem. Por isso me parecem tão acertadas as campanhas atuais da AGAL cujo objetivo é acabar com o preconceito das/dos reintegracionistas como um feixe de “friquis”, mostrando a diversidade da sua base social.

Que visão tinhas da AGAL, por que te associaste e que esperas da associação?

Associei-me porque gostei do trabalho que estavam e estão a desenvolver em prol da língua, e só espero que entre todas lhe consigamos dar continuidade.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2020?

2020? Mas isso é já! Se em 7 anos conseguirmos que todas aquelas pessoas cuja língua materna foi o galego esqueçam os preconceitos e voltem a usá-lo em todos os âmbitos da vida, muito teríamos andado. E se, através disso, as novas gerações o aprendessem desde os primeiros anos de vida, como a sua língua principal de comunicação, teríamos ganho uma importante batalha.

 

Conhecendo Maria Sola


  • Um sítio web: Ciberdúvidas. Tantas vezes me resolve a vida!
  • Um invento: O telemóvel.
  • Uma música: Tómbola.
  • Um livro: Qualquer um dos que me abriram as portas da aventura de ler: Astérix, William Brown, Mortadelo...
  • Um facto histórico: A Guerra Civil.
  • Um prato na mesa: um excelente presunto numa torrada de pão com tomate de casa; de sobremesa, um pedacinho de chocolate amargo com amêndoas.
  • Um desporto: Natação.
  • Um filme: Shrek.
  • Uma maravilha: Três: os meus filhos e a alegria de viver.
  • Além de galega: Outra cousa que também sou por acaso e que também me define: mulher.
 
   

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