Associaçom Galega da Língua

Entrevista a Manuel López Rodríguez, bombeiro

PGL - Manuel López Rodríguez é bombeiro, mora em Vigo e é pai de uma miúda de dous anos para a que deseja que poda viver em galego. Viaja muito e numa das suas viagens tivo um insigth linguístico na Noruega. Tem uma história quase fílmica com a sua avó. Intitularia a política linguística deste país como um “fracasso anunciado”.

O teu trabalho permite-che viajar muito... em que tem ajudado isto no plano linguístico?

Pois acho que viajar abre o cérebro a outras realidades. No que toca à língua, permitiu-me ver que há outros caminhos. A condição de galego, com tudo o que isso carrega nas costas, tem provocado uma empatia com muitos dos povos e pessoas que moram lá onde eu viajei. Certas circunstâncias, como complexos de aculturação e auto-ódio, são mais compreensíveis desde aquele que sofre, direta ou indiretamente, nas suas carnes o não poder viver com normalidade na língua da sua mãe, quando, ademais, é própria e originária do território onde morarmos.

Observei como as tribos amazónicas e andinas, os índios no Canadá, nos EUA ou na América. Central, os maoris na Nova Zelândia, os aborígenes na Austrália, minorias étnicas na Índia, no Nepal o no Tibete, o sudeste Asiático... estão a perder a sua língua e a sua identidade por uma imparável intolerância e falta de respeito para o diferente por parte de quem tem o poder.

Cada caso é diferente mas sempre houve um ponto comum a todos eles na minha experiência pessoal. O colonialismo sempre foi relativamente tolerante com códigos universais como podem ser a música, a pintura ou a gastronomia, mas a língua própria dos povos que colonizou é um código alheio, de difícil ou impossível compreensão sem esforço. Ao mesmo tempo, sempre foram as línguas o ícone máximo da identidade que representava o cerne da cultura e a alma de um povo, polo qual, qualquer ataque seria muito amortizado. A reposta sempre é a mesma “vai ser melhor que eles aprendam a minha língua” e para isso utilizaram tanto técnicas “brandas” de marginação e morte por asfixia ou aquelas outras muito mais pesadas de aniquilação dos povos.

Um caso que me impactou muito foi o tibetano que se fala na cara sul do Evereste, no Vale do kunbu no Nepal, povoado pelos descendentes daqueles que imigraram 400 anos atrás do oeste do Tibete até esta zona do Nepal conhecidos como sherpas. Apenas umas condições climatológicas brutais e as montanhas mais altas do mundo são capazes de criar certas diferenças linguísticas, mas achei nessa altura e, mais ainda agora, que estas barreiras não são nada em comparação com as barreiras do divide e vencerás na Galiza. Aqui não temos Himalaias, mas as barreiras políticas e mentais são muito piores.

Já na Europa encontrei exemplos também muito tristes, como o de Irlanda onde apenas no oeste do país, 1% da população fala gaélico. Será o futuro que nos aguarda? perguntei-me. Fiquei fascinado ao escutar essa sonoridade nas tabernas no Ring of o kerry, com unha cerveja na mão.

Achei muito interessante o modelo suíço. Nunca lhes passou a ideia de tomarem outro caminho que não fosse reintegrar as variantes de italiano, alemão e francês que se falam nesse país. Falei muito com as pessoas dos diferentes cantões linguísticos e ainda reconhecendo que, às vezes, há problemas de comunicação pontuais com falantes dessa mesma língua no outro Estado, não percebem o modelo galego. Outro aspeto muito interessante, e nisto não andam com brincadeira nenhuma, é que num cantão com uma língua oficial, os usos parlamentares, as comunicações oficiais... são nessa língua, mesmo que falem várias; está muito claro qual é a língua pública comum. Funciona, e não se pode dizer que a Suíça seja um país não desenvolvido.

Na Roménia encontrei também que o húngaro e o alemão que ali se falam, apesar das diferenças, decidiram manter uma unidade com o seu universo referencial.

Há 14 anos, numa viagem de escalada à Noruega, e quando a meu inglês não era o que é agora, estava muito frustrado em Oslo com os meus problemas comunicativos para procurar alguma cousa de que precisava para me movimentar nas montanhas. Em dado momento, uma rapariga muito gira perguntou-me, utilizando artes de adivinhação, devo de supor: “Olha, tu entendes português?”. Respondi sim. A moça estivera um ano de bolseira no Brasil, e hoje posso dizer que algo começou a mudar na minha visão linguística. Era eu que estava a falar com unha norueguesa na mesma língua que eu falava com a minha mãe em Vigo? Estava a ser esta língua, uma língua franca para a norueguesa mas não para mim? Como uma língua autonómica estava a pôr em contacto fluidamente a pessoas com origens tão longínquas entre si?

Que te empurra a querer que o statu quo sobre a língua mude? Algo muito poderoso, que a minha filha possa viver com normalidade na língua própria da Galiza. O seu pai não foi quem e para consegui-lo e preciso procurar uma dignidade negada na Galiza há séculos.

Nessa luta a estratégia reintegracionista tem um peso específico essencial.

Manuel López Rodríguez é bombeiro em Vigo. Como se vive sendo galego-falante na cidade da oliveira?

Eu moro numa zona relativamente rural, onde muita gente fala galego, mais os velhos do que os novos; mas, para quase todos, quando “baixam a Vigo” o castelhano manda em todo aquilo que seja institucional no sentido mais abrangente da palavra. Enfim, continuo a escutar o galego mas recuando ano após ano a um ritmo muito acelerado com a substituição das gerações. Numa cousa concordam quase todos, novos e velhos: acham surpreendente eu falar com a minha filha de quase dous anos em galego e ainda mais que ela me responda na mesma língua — Galiza sítio distinto.

A respeito do “núcleo urbano”, eu tenho claro que só uma atitude firme e afoita permitirá sair a nossa língua de uma dinâmica de retrocesso, e para isso o primeiro que há que fazer e falá-la sempre, em qualquer espaço e ambiente. Nas atmosferas mais urbanas ainda é totalmente possível, há muitas pessoas que o fazemos e não somos nada de especial, mas não é precisamente algo simpático e convidativo para quem tenha dúvidas sobre a sua orientação linguística e pense demasiado entre escolher a língua própria da Galiza ou uma outra estrangeira, por acaso o castelhano.

É claro que nas grandes cidades na Galiza, em Vigo também, existe ainda mais resistência a usar e possibilitar o uso do g alego por sectores tradicionalmente instalados no “ negacionismo ”. Refiro-me a o mundo empresarial que, com casos muito louváveis, tentam contrabalançar esta corrente na sua maior parte instalada no castelhano. Aliás, é muito difícil acreditar que ao irmos às compras ou ao notário, ou um restaurante, temos unha língua própria que não seja o e spanhol.

Com muita tristura , tenho que dizer que tenho conhecidos e amigos que trabalhando no sector privado (um banco, um hotel ou uns grades armazéns) não têm outra hipótese que deixar o galego deitado na rua, bem fora do trabalho como se de lixo se tratasse.... e isto no século XXI.

A respeito do papel das instituições públicas viguesas (em teoria deviam de ser, legalmente, um “oásis” que rachasse com uma inércia secular contra o galego), está-se a passar de um desleixo no tratamento e uso do galego a uma cada vez mais comum beligerância em contra deste, sobretudo nos últimos quatro anos. Neste aspeto, é triste ver como a maioria dos máximos representantes dos cidadãos, os políticos, renegam do seu papel prestigiante do galego legalmente estabelecido, olham para outro lado, quase não usam o galego e quando o usam, minha senhora! já não sei o que é melhor: poderiam dar muito jeito a um isolacionista. «Não vês? já cho eu dizia, já não é a mesma língua...!

A verdade é que me têm acontecido cousas do surrealismo. Até o muito desagradável, como ligar para uma loja e perguntar: Olá, bom dia, “ estou na procura de uma cadeira ergonómica, olhei na vossa web que tendes uma”. A resposta foi: “no, sonajeros no tenemos ”.

Ao exigir num hospital que fosse atendido em galego, como ofertava um sistema telefónico subsidiado pola Junta da Galiza, respondem “lo siento la persona que habla gallego hoy descansa llame usted mañana”. Eu perguntei-lhe já morreram todos os galegos.

Ou simplesmente, como noutra ocasião, “usted hábleme castellano, que no le entiendo”.

Um dia qualquer, ao ir pagar na máquina para sair do estacionamento, perante a minha surpresa de a maquina ter como língua preferente o galego, um casal atrás de mim observa “mira, ahora las maquinas te tienen el gallego, deben ser del Bloque”. Eu, muito elegantemente e com um grande sorriso, girei-me e perguntei-lhes: Olhai, tendes troco? E que a coitadinha da máquina não funciona deveu de ficar “bloqueada” com tanta cousa que tem que aturar.

O galego ainda se fala em Vigo, mais do que se pudesse pensar a priori, sobretudo em certos sectores muito achegados à cultura e ao associativismo, mas eu nunca achara que algum dia poderia ver um gaiteiro galego a falar castelhano num palco, entre canção e canção, e isso já esta acontecer. Acho que um sinal de fratura preocupante.

Chegaremos ao caso irlandês, onde o gaélico está banido até da maioria da música tradicional?

Ainda assim, afortunadamente, a comunidade de pessoas dispostas a bater o pé de um jeito intransigentemente educado, para termos uma língua dignificada, ainda que devagar, está a aumentar. Até o conseguir, há que roê-lo.

A tua mulher é norte-americana mas tem mais dificuldades em entender-se com um jamaicano do que com um portuense.

Anos atrás, numa viagem pola América central, chegamos à costa oriental da Costa Rica, Puerto Viejo e Puerto Limón, e tivemos contacto com as comunidades provenientes da Jamaica que falam e vivem em inglês de jeito pleno. Bem se pode entender que eu tivesse dificuldades para perceber o que estás pessoas diziam, mas para a que hoje é a minha mulher não foi muito melhor. Nos primeiros dias custou-nos do demo, até adaptarmos os ouvidos e a fala a uma nova sonoridade, vocabulário e inclusive diferentes estruturas sintácticas. Ainda maior foi o impacte na Ilha de Utila, pertencente a Honduras, onde também se fala inglês.

Muitas vezes comentamos, quando estamos em Portugal, que é evidente que as varas de medir que determinam o que é uma mesma língua ou não, não estão muito homologadas. Desde o dia em que ela começou a perceber galego, nunca teve problemas similares a sul do rio Minho como teve com um lugar onde oficialmente as pessoas falam em inglês. O curioso é que ninguém decidiu criar uma norma particular para afastar estas comunidades do inglês, porque simplesmente seria um suicídio, por exemplo, ter livros de texto diferentes.

Poderia acrescentar que me aconteceu a mesma cousa com pessoas do oriente de Cuba ou na Amazónia no Peru, e ninguém diria que ali não se fala espanhol.

Recentemente assististe ao lançamento de 101 Falares com jeito em Vigo. Quão imprescindíveis são ferramentas como este manual?

A verdade que a presentação do livro foi brutal. O Fernando Corredoira, de forma muito atraente e interagindo com a turma, chamou atenção através de exemplos para as interferências semânticas do castelhano sobre o galego-português (na Galiza), que são as mais subtis e, logo, as mais difíceis de detectar. Reparou no início da palestra na capa do livro, que representa a linha azul do Minho e simboliza, numa diferente versão da bandeira Galega, a língua à procura da saída de um labirinto de séculos. A capa do livro dá no alvo e reflete a alma da questão. Trata-se de um manual que vai para além do que os autodidatas chegamos na procura de precisamente isso, de falar com jeito.

A respeito do Corredoira, tenho que dizer gostei da clareza da sua exposição, sempre pegando em comentários que vão alem dos típicos ou clássicos para ter sempre aquela reviravolta, aquele triplo mortal sem rede, que surpreende positivamente. Outra cousa impressionante e a velocidade com que dispara, quero dizer, fala. Foi espetacular.

Há 9 anos tiveste uma experiência “alucinatória” acompanhando a tua avó no hospital, que na altura somava 91 anos.

A minha avó teve que estar no Hospital durante bastantes dias. Chegou um momento em que começou a desorientar-se e a ter episódios alucinatórios progressivamente mais longos. Uma noite, estando com ela no hospital, depois de dizer muita cousa totalmente incoerente, começou a falar em tempo presente com uma expressão totalmente lúcida e até feliz de quando ela aí tinha por volta de 8 ou 9 anos, de quando ela estava no monte a ter cuidado do gado com um irmão. Foi como viajar no tempo no colo da língua durante 10 minutos. Começou a utilizar o infinitivo flexionado, algo que eu nunca ouvira quando ela falava; repetia uma e outra vez o Sr. Perfeuto, que os sucos não estavam direitos, falava de que o irmão não tinha paragem, do natal, de muita outra cousa que não poderei lembrar porque foi a primeira vez, e provavelmente a última, que o escutara. Até o seu sotaque era diferente, com mais altos e baixos, como se estivesse a cantar, definitivamente menos espanholado. Foi incrível. Daquela, um telemóvel destes tão giros que há agora daria para gravar, mas os meus anticorpos para este aparelho ainda foram bem efetivos até há pouco tempo.

Faleceu há pouco mais de quatro anos e esse recordo ficará muito vivo em mim. Eu tirei a minha conclusão: a vida fora moldando o seu galego cara um galego mais esquelético de sobrevivência, e isto aconteceu apenas na vida de uma pessoa.

Como definirias os 30 anos de Política Linguística em volta do galego ILG-RAG?

Acho que, tendo em seu dia ganho uma batalha, estão hoje a perder como Galegos/as. No mínimo, são cúmplices de uma estratégia/dinâmica, planeada sobre os alicerces do “divide e vencerás”. Exemplos na Europa desta dinâmica, há vários; mas o nosso deve ser dos pouquíssimos em que se optou por uma via isolacionista. Sabe-se que não foram critérios linguísticos, mas políticos, os que impediram a nossa reintegração na lusofonia. Os mesmos critérios e profilaxia que impede ainda hoje a receção das Tv portuguesas em aberto ou que seja tão difícil introduzir-se o Português na educação obrigatória.

Sem cerimónias, definiria-o como “fracasso anunciado”. Intitulá-lo assim, acho que é bastante cientifico, como hoje podemos constatar.

Não foram quem de promover uma lei que realmente prestigiasse e protegesse o galego e os galegos-falantes. A Lei de Normalização Linguística não passa de uma brincadeira, uma soma de boas intenções, e é ainda uma brincadeira maior fazê-la cumprir chegado o caso.

Não foram quem, nem estão a ser quem, de fabricar o suficiente número de neologismos do alto nível e “êxito” ao estilo de “beirarrua” para travar os que estão a entrar, quase dia a dia, provenientes do castelhano.

Não foram quem de superar o status de língua decalque a respeito do castelhano.

Tiveram muito em conta o português mas para se afastarem dele.

Negam a realidade de que o português apenas faz o galego mais ele próprio, constatado com a experiência dos estudantes de português de Escola de Idiomas ou secundário.

Continuam a negar a realidade de que a crioulição do Galego não ficou estática, após 1983 e que está a progredir dia após dia, sendo especialmente intensa no léxico cientifico-técnico.

Paradoxalmente, esta estratégia coloca-nos num cenário absurdo e contraposto na natureza, em que o galego pode desaparecer por endogamia, pela diminuição do número de falantes e ao mesmo tempo por hibridação com o castelhano, mascarado e disperso dentro deste último. Tudo isto acontece quando os vizinhos, à porta da casa, triunfaram com a mesma língua e conseguiram que tivesse usos normais a todos os níveis. Como se diz em casos assim: Deus dá pão a que não tem dentes.... é o mundo ao avesso.

Como começaste a mudar o teu esquema interpretativo da língua galega, e entrever que o guião que te mostraram não encaixava?

Muito simples. Ao começar a estudar português, em pouco tempo, e que sem que ninguém me dissesse nada, cheguei à conclusão de que tudo o que me comentaram durante toda a minha vida a respeito do Galego e do Português era mentira. Senti-me como se fosse roubado, foi até relativamente doloroso.

Como curiosidade, basta indicar que para saber o que significam muitos topónimos à volta da minha casa, apenas o dicionário de Português ajuda... isto também me deu para refletir profundamente.

Por onde deve transitar, em tua opinião, o reintegracionismo?

Eu acho que o reintegracionismo caminhou muito pelo academismo e chegou o tempo da divulgação de passeá-lo na rua, nos cafés, enfim, em todo o lado. A maioria das pessoas concordam com a estratégia mas nunca tinham escutado informação sobre o tema e, ainda que pareça mentira, inclusive para pessoas envolvidas com a língua.

Por outra banda, como aconteceu comigo acho, que propiciar o contacto com o português é chave para abrir mentes. Assim foi como principiaram todas as revoluções, no momento em que as pessoas começaram a pensar, não é? O pensamento é como água e é impossível de parar, sempre encontra o buraco.

Que visão tinhas da AGAL e que esperas da associação?

Achava que era uma associação muito academista, mas recentemente descobri que a equipa atual está a dar os passos certos para que o projeto se espalhe e chegue a mais pessoas com diferentes perfis.

 

Conhecendo Manuel López

  • Um invento: A Bicicleta
  • Uma música: Brahms intermezzo op 118 nº 2
  • Um facto histórico: O Big Bang
  • Um prato na mesa: Pad Thai vegetariano.
  • Um desporto: A natação
  • Um filme: O Piano
  • Uma maravilha: Viver o presente momento, atento com plena consciência.
  • Além de galego: Um curioso.
 
 

Aline Frazão e o projeto Cacimbo achegam as crianças galegas à Lusofonia africana

Valentim R. Fagim - A equipa de ateliês e cursos da AGAL lança um novo projeto: Cacimbo. Cacimbo é uma viagem pelos países que falam português na África, detendo-se nas suas músicas, a sua paisagem, a sua fauna e suas gentes e onde os conteúdos áudio-visuais terão um especial destaque.

A relatora dos ateliês é Aline Frazão, cantora angolana e estudante de jornalismo a morar em Santiago de Compostela, e que em 2010 participou nos Cantos da Maré. Acaba de lançar o seu primeiro álbum, Clave Bantu.

Os destinatários do ateliê são as crianças de ensino primário, entre os 9 e 12 anos. O objetivo é mostrar a África de expressão lusófona para que os  alunos e alunas se podam achegar a essa cultura por meio da variante galega, o que tornará esta uma vantagem, redundando num reforço para o seu estatuto e o dos seus falantes.

A relatora usará a sua variante angolana num formato de língua próximo, em termos lexicais, ao das crianças. O ateliê terá uma duração de 50 minutos e a metodologia será ativa a procurar o envolvimento das miúdas e dos miúdos.

 

Entrevista a Aline Frazão sobre o projeto Cacimbo

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+ Mais informações:

 
 

Carlos Diegues: «Tornar-se falante de galego, se calhar, foi rápido e natural, tendo em conta que era muita a minha vontade»

PGL - Carlos Diegues nasceu na Galiza, mas com menos de três anos a sua família deslocou-se à periferia da capital da Espanha. Criou-se fora do País e só se tornou galego-falante no segundo ano de universidade, já em Compostela.

PGL: Carlos Diegues cresceu na periferia madrilena. Como foi a relaçom com a língua da Galiza?

Carlos Diegues: Nascim na Galiza, ainda que abandonamos o país quando tinha dous anos e meio. Durante a minha infáncia, só tinha contato com o galego durante as férias na Galiza. Na adolescência, em Madri, descobrim a literatura galega (em galego), e comecei a ler o pouco que se podia encontrar nas suas bibliotecas em galego (Rosalia, Curros, Celso Emílio ou Pondal). Já nos anos do liceu, durante as férias na Galiza, lia tudo o que podia na biblioteca.

PGL: Quando te tornas galego-falante e como foi o processo?

CD: Podemos dizer que foi no segundo ano de universidade, quando cheguei a Compostela. Tornar-se falante de galego, se calhar, foi rápido e natural, tendo em conta que era muita a minha vontade. Afinal, vinha à Galiza para isso, porque doutra maneira ficava em Madri. Naqueles tempos em Compostela até se falava mais galego do que em Madri (estou a brincar) e por isso nom foi difícil vencer o pudor e o terrorífico sotaque madrileno. Devir falante monolingüe de galego, enfim, foi um processo rápido, o resultado de umha mistura de ideologia e vontade de (re)integraçom nesta cidade e neste país. Pensava que se a língua da Galiza era o galego, eu tinha que falar galego. Assim de simples. Depois véu umha formaçom se calhar mais consciente, com o estudo (reintegracionista) da gramática do galego, o primeiro conhecimento do português, a militância no MDL...

PGL: É comum afirmar-se que os neo-falantes têm mais inclinaçom para a estratégia luso-brasileira. Que opinas ao respeito? Como foi a tua aproximaçom?

CD: Talvez seja certo. No meu caso fum socializado no reintegracionismo polo MDL. Desde o primeiro ano em Compostela vim no reintegracionismo um maior pulo, um maior ativismo linguístico no que diz respeito á defesa do galego e também umha maior eficácia e solidez no discurso linguístico reintegracionista. Também influirom os amigos, alguns deles já reintegracionistas. Depois, superada a fase “identitária”, reparei em que a minha língua nom só era falada numha comunidade autónoma espanhola, mas também em Portugal, um “país estrangeiro” e numha potência demográfica como o Brasil; o que eu vira até entom como a “minha” diferença era também umha janela ao mundo, o que nom era pouco para alguém com 19 anos.

PGL: Carlos é pai desde há 8 meses. Foi essa a decisom que te empurrou a te associares a AGAL, nom foi?

CD: Foi, nom é brincadeira. Já pensara anteriormente em associar-me a AGAL, mas foi pensar no porvir da minha criança, no país que eu quero construir para ele, e decidim-me a dar o passo. A melhor maneira de conseguir um fim é cooperarmos, através da associacionismo. Fazer parte da AGAL é umha expressom do afám coletivo de mudar a situaçom de desprezo e marginalizaçom que castiga a quem fala e escreve em galego-português. Orgulha-me fazer parte desta comunidade e gostaria que meu filho, como falante de galego, assim o sentisse.

PGL: Como encaras a educaçom da tua criança? Projetos como Semente e outros similares estariam dentro das tuas escolhas?

CD: Com sentido comum e carinho (com a ilusom de ver que cresce livre num país livre (pido desculpas pela ingenuidade). Eu aposto no ensino público, convencidamente, mas nom por isso deixo de acreditar nos valores defendidos pola escola Semente e gostaria que as escolas públicas fossem como a Semente tenciona ser. Por outro lado, penso que nom podo estar a financiar com os meus impostos umha escola desgaleguizadora e por outro lado financiar uma escola “privada”, por mais social que ela seja. A escola pública também deve ser social e galega. Aí temos que dar a batalha. Essa é ao menos a minha posiçom.

PGL: Carlos é tele-operador num meio onde predomina o castelhano. Qual a tua vantagem competitiva?

CD: Fui contratado como filólogo português. Ao começo pensei que era estranho que umha empresa galega necessitasse um filológo para se comunicar com os clientes de Portugal. Porém, a minha ingenuidade bateu com os preconceitos habituais e com umha estratégia, errada ao meu ver, que incapacita o resto de trabalhadores e trabalhadores para se comunicar com os/as clientes de Portugal. Aliás, a língua veicular da empresa é o espanhol (ou esse portunhol tam de nosso, o  castrapo), apesar de falarmos a maioria em galego. A empresa vinca no facto de ser compostelá e galega, mas  renuncia, por exemplo, à entrada no mercado brasileiro, preferindo a penetraçom no mercado hispanofalante. Em definitivo, assim é normal, em ocasiões, sentir-me mais à vontade com um cliente de Matosinhos, por exemplo, que com um companheiro de Santa Comba.

PGL: Qual pensas que devem ser as linhas de açom do reintegracionismo. Por onde devemos transitar? A que grupos devemos tentar chegar?

CD: Embora a situaçom, por motivos óbvios, nom seja ideal, é fulcral continuar a reivindicar a implantaçom do português do ensino médio, agindo com didatismo e prescindindo na medida do possível do filologismo, porque ao fim e ao cabo, neste país todo o mundo parece saber muito de gramática e sociolinguística. Tem-se avançado muito mas eu gostaria que se insistisse sempre ou quase sempre em questons práticas, que dam maior visibilidade e eficácia as ações e sobretudo tentar fugir do vínculo entre reintegracionismo e “friquismo” linguístico, como se para escrever e falar galego tivéssmos que estudar muito e ter que estar a corrigir a fala dos demais o dia inteiro.

Preocupa-me ganhar muitas e muitos falantes de galego que vem no reintegracionismo um snobismo ou um galego “satelizado” polo português. É preciso ganhar também para a estratégia luso-brasileira do galego um amplo setor da sociedade galega que polo seu contexto vital permanece alheio a Portugal (ou ao Brasi), mas que quer exprimir-se em galego. Parafraseando Méndez Ferrín, é preciso ir falar de reintegracionismo às portas de Citroën.

PGL: Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2020?

CD: Um país integrado plenamente na lusofonia (nom só nas instituiçons ou nos congressos de Filologia), onde o galego-português é língua habitual nas ruas, nos locais de trabalho (também nas esquadras e nos tribunais), um país que soubo e pudo incluir no currículo escolar o ensino do português.

 

Conhecendo Carlos

  • Um sítio web: galizalivre.org
  • Um invento: A imprensa (o artefato)
  • Umha música: Música tradicional galega
  • Um livro: Só um? A boca pobre, de Flann O'Brien
  • Um facto histórico: A Primeira Guerra Mundial, polos processos históricos que pom em andamento
  • Um prato na mesa: Sardinhas e broa
  • Um desporto: O futebol
  • Um filme: Johnny Stecchino, de Benigni, por dar um só
  • Umha maravilha: a riqueza da nossa tradiçom agrária
  • Além de galego/a: italiano, com licença dos amigos italianos

 

+ Ligações relacionadas:

 
   

Balanço da atividade da AGAL em 2011

PGL - No passado 17 de dezembro tivo lugar a Assembeia Geral da AGAL. Na seqüência da reuniom do máximo órgão associativo foi apresentado também o relatório de gestom, que detalha as atividades realizadas em 2011.

Durante 2011, a AGAL experimentou um importante incremento da sua base social dos 10%. Atualmente, quase a sexta parte dos sócios e sócias tem envolvimento nas diferentes tarefas do dia-a-dia da associaçom. A 17 de dezembro de 2011, 46 persoas integravam algumha das equipas de trabalho quotidiano, às quais cumpre somar outras 17 que dérom a sua ajuda em tarefas ocasionais, como a organizaçom do evento éMundial ou o ato institucional polo 30º aniversário da associaçom, entre outras.

Depois de dous anos e meio de trabalho, o Conselho achou ser um bom momento para lançar umha campanha de filiaçom em 2012. Atualmente está-se na última fase de um vídeo promocional dirigido por Comba Campoi com Vanessa Vila-Verde trás a câmara. Participam 14 pessoas, das quais cinco som de outros países lusófonos.

Novidades editoriais

Na parte editorial da associaçom, foi também um ano de grande atividade da ATRAVÉS|EDITORA. Houvo dous lançamentos pensados para o público infantil, Vicentinho e as Árvores da Paz (da agrupaçom Tou-po-rou-tou) e Poemas no Faiado. Antologia de Poesia Lusófona para Crianças (coordenado por Xemma Fernández e José Antom Serém); o romance Adelaida (Artur Alonso Novelhe); trabalhos de divulgaçom e reflexom, como 101 Falares com Jeito (Fernando Vásquez Corredoira) e Guerra de Grafias. Conflito de Elites (Mário Herrero); o regresso da AGAL à ediçom de teatro com Abraço de Ferro (Carlos Santiago); bem como a reediçom de duas obras notáveis, o Manual de Galego Científico (Carlos Garrido e Carles Riera) e Bandeiras da Galiza (José Manuel Barbosa).

Ainda no editorial, a AGAL, mediante a marca ATRAVÉS|EDITORA, formou parte da constituiçom de umha nova distribuidora de âmbito galego, Pragma, com a qual está associada com outras pequenas editoras.

 

Em primeiro plano, algumhas das novidades
da ATRAVÉS|EDITORA em 2011

Revista Agália

Em 2011 também se produziu a transformaçom da Agália em revista exclusivamente de âmbito científico, com o foco ainda colocado nas ciências sociais e as humanidades. O diretor da publicaçom, Roberto Samartim, explicou as principais novidades que se produzírom, entre elas o lançamento da versom eletrónica da revista, a criaçom do website ou a constituiçom de vários conselhos científicos, na altura compostos por 37 pessoas de 21 universidades em 9 países diferentes. Com a ediçom de quatro números (101 a 104) em 2012, a revista logrará estar à par do ponto de vista cronológico. O número 101 foi editado em 30 de outubro e os seguintes, já finalizados, serám-no proximamente daqui a março.

CL-AGAL e área informática

Outro dos órgãos da associaçom, a Comissom Lingüística, ganhou um novo membro em 2011 com a incorporaçom de Beatriz Bieites. Ainda, foi publicado O Modelo Lexical (no âmbito dos trabalhos da codificaçom lexical), e continuam os trabalhos no âmbito da codificaçom prosódica. Também desde 2011 a Comissom Lingüísta oferece ao conjunto da sociedade um serviço de consultório lingüístico, o qual está disponível a partir do PGL, assim como no endereço http://consultorio.agal-gz.org.

O trabalho na área informática centrou-se, essencialmente, na gestom técnica dos websites existentes, na atualizaçom do e-Estraviz, bem como na criaçom de novos sites para projetos concretos, como o éMundial, e deu suporte à área de cursos para tarefas como os websites dos aPorto ou os Ops!, entre outras.

Sucesso dos cursos

Na área de cursos, decorrêrom as II Jornadas de Cultura, Língua e Ensino, em parceria com o departamento de Didáticas Específicas de Ciências da Educaçom da Universidade da Corunha, nas quais houvo 70 inscritos. Umha parceria com o sindicato CIG-Ensino deu em dous cursos online de Português básico, com 300 inscritos o primeiro e 120 o segundo.

As ações estrela fôrom os Ops! e o aPorto. No caso dos Ops! (O Português Simples), em 2011, e até 17 de dezembro, houvo 73 ateliês que permitírom chegar a mais de 2.000 alunos e alunas. Nos aPorto, estadias de umha semana no Porto com aulas de expressom oral de manhã e atividades socioculturais de tarde, este ano organizárom-se 10 turmas (por 4 de 2010) e inscrevêrom-se 99 pessoas (polas 23 em 2010).

aPorto 2011 - Do outro lado do rio

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AGAL fizo 30 anos

2011 estivo marcado em boa maneira polo 30º aniversário da associaçom. Em junho foi organizada umha semana de atividades, o éMundial, e em novembro tivo lugar o ato institucional do 30º aniversário e a homenagem —em parceria com a AGLP— a José-Martinho Montero Santalha e Isaac Alonso Estraviz.

Homenagem a M. Santalha e Estraviz Um momento do ato do 30º aniversário da AGAL

Também se convocou um concurso para escolher o novo logótipo da associaçom, cujo resultado se conhecerá este mês de janeiro.

Sem ajudas públicas

Do Conselho da AGAL salientam que toda esta atividade foi possível mesmo apesar de nom ter recebido um só euro em subsídios durante 2011, e enfatizam que todo isto é possível graças ao compromiso da base social agálica.

 
 

Xosé Morell, diretor de exportações

PGL - Xosé Morell é viguês filho de emigrantes. Embora estudasse filologia-portuguesa (ou talvez por isso), agora é diretor de exportações. Adora a China e vê a norma ILG-RAG como um regime de Vichy.

 

Xosé Morell é um viguês tipo, quanto à procedência forânea dos seus pais, ela madrilena e ele catalão. O teu contato com a língua galega foi por meio da escola, não foi?

Foi. Eu não “mamei” o galego. O meu primeiro contacto com o idioma penso que foi uma canção de Natal que ensaiamos na escola cursando o de aquela 2º de EGB, alá no 1976. E não foi até os 14 anos, quando como todos os do ano 68, encontramos a primeira presença oficial do galego no ensino. De rapaz, fiz parte das Mocidades de Coalición Galega e depois estudei Filologia Galego Portuguesa em Santiago de Compostela.

Que lembras daqueles anos de estudante universitário?

A Autonomia começava a se desenvolver: Compostela era o Adanismo em estado puro. Os políticos, inteletuais e professores tinham um certo ar de “Fundadores da Pátria”. Era o Ano Zero da “Nova Galicia”. Tudo estava por fazer. E como se estava a criar um mini-estado, também se criou um mini-idioma de costas à realidade científica e ao nosso legado de séculos. Quem podia pensar que só trinta anos depois Galiza no balance final perderia falantes do seu idioma, população, tecido económico, tecido financeiro, património cultural...

À volta dos anos encontramos que este modelo de sociedade, fundamentado na omnipresença do Estado como único ator e que identifica cultura nacional com estrutura legal, levou, com a instauração da autonomia, como parte de esse Estado, a grande parte da classe política e elites intelectuais a cair na armadilha de secundar um padrão culto e um quadro legal que se têm demonstrado não só ineficazes como contraproducentes.

Embora começasses a trabalhar de docente, acabaste por enveredar pola área empresarial. Atualmente és Diretor de Exportações de um Grupo de adegas entre as que há uma de Rias Baixas. Que lhes explicas aos visitantes?

Da nossa adega há uma colossal visão do vale do Minho entre Salva Terra e Monção. Às visitas de todo o mundo explico que durante sete séculos a Galiza e Portugal formamos um só Reino, e que agora compartilhamos a mesma língua e ainda a mesma uva para vinho, pois as diferenças entre um alvarinho e um “albariño” não são maiores que as que há entre alguns vinhos do Condado e o Salnés. O mesmo acontece, por sinal, entre os vinhos de Valdeorras e o Berço. São os estados portanto quem desenham fronteiras nos territórios e nas cabeças.

A visão que o filólogo e o empresário tem da língua diverge muito. Tu participas das duas experiências, que nos podes dizer ao respeito.

Sou muito crítico com a deificação do Estado e os seus mecanismos. Olha: na Galiza, quando houve um Governo que decidiu tomar-se um bocado mais a sério a “normalização” do idioma continuando com a chamada discriminação positiva, apareceu algo não inédito no País, mas sim inédito na sua força, eco social e consequências: um grupo minoritário de pessoas fez bandeira da liberdade para precisamente atacar as políticas de normalização linguística que estavam a se desenvolver, e uma parte importante e mesmo maioritária dos galegos adicionou-se (ainda que fora passivamente) à maré do nacionalismo espanhol irritado com a Catalunha, que sim toma a sério o seu idioma. Ficou então bem claro que a “normalização” fora aqui criada e entendida como um paternalismo com a língua desfavorecida... para que nunca saia de essa situação.

Macau tem servido para facilitar a entrada da vossa adega na China mas a tua relação com esse país vai para além deste facto.

Pois é: a minha companheira e eu adotamos uma criança chinesa de oito anos. Eu já levava tempo estudando chinês, e ao princípio essa foi a nossa língua de comunicação. Foi, entre outras razões, por esta querença pelas culturas do mundo: pessoalmente se pode ser de nação 100% galego e 100% quaisquer outras. E isso não significa que a cultura nacional e institucional na Galiza tenha que ser uma mistura, como dizem os adoradores do Estado.

Agora a nossa filha vai a aulas de manutenção de chinês. Gosto pensar que no futuro ela falará as quatro línguas mais extensas da Humanidade.

 

 

Xosé Morell com a sua filha

 

Levamos 30 anos de Normalização Linguística. Como os avaliarias?

Seguindo com a China... aqui aconteceu algo parecido ao da região chinesa de Xianjiang ou Qurigar, onde lembrarão que há não muito tempo houve uns sangrentos confrontos entre os autóctones uigures (muçulmanos, o 45%) e os pertencentes à etnia han ou chinesa (41% da região, mais do 92% de todo o Estado chinês). Os “han”, ou chineses foram introduzidos pelo governo nas últimas décadas, ocupando os melhores postos da sociedade. Mas olhem, o ressentimento mais terrível era o dos han com os uigures, e não à inversa!

Como o governo comunista tinha que dar a imagem ao mundo e a si próprios de que o convívio era harmónico, e que os uigures eram respeitados e amados como uma minoria, estes eram tratados com certa condescendência ou paternalismo, sobretudo se se tratava de julgar delitos menores (pequenos furtos, etc.) nos contornos sociais a que foram deslocados. “Cuidam de eles como de ursos panda: nós seríamos enforcados por delitos que a eles não têm em conta” diziam os han na sua indignação e ressentimento contra os uigures. A harmonia nem existiu nem se procurou, mas sim um paternalismo contraproducente. Aqui estamos assim.

Que tem a oferecer a estratégia luso-brasileira à difusão social da nossa língua na Galiza?

Uma norma ortográfica aberta (prefiro esta palavra a “reintegrado”) dá resposta à constatação empírica do atual colapso e involução da “normalização” iniciada com a Autonomia: pensando-se na altura que os galegos aceitaríamos mais facilmente um padrão de língua culta que fosse reflexo do espanhol, por sua vez, parte integrante da identidade pessoal de um segmento importante da população (por exemplo, eu), estabeleceu-se como modelo de língua culta uma cópia do espanhol, fundamentando a implantação social deste modelo num quadro de suposta proteção legal e, ante a sua ausência, no presumido voluntarismo cidadão.

Mas a situação dos falantes da língua própria da Galiza tem degenerado até vermos desamparados os nossos mais elementares direitos linguísticos na vida quotidiana, alguns reconhecidos pela legislação internacional vigorante como a imersão linguística. O atual modelo de política linguística não só não elevou a consideração social do galego, mas, como explicava com o paralelismo de Xianjiang, mesmo tem gerado um crescente ressentimento histérico contra o já reduzido quadro de proteção legal a partir dos setores defensores do monolinguismo espanhol. O escândalo do Valedor do Povo é mais uma mostra.

Que linhas de trabalho pensas que devemos seguir os promotores desta estratégia?

Eu sou muito realista. E precisamente por sê-lo, penso que é apresentando o galego como tal, como a língua que científica e historicamente é, muitos galegos de boa fé acabaram por abraçar um galego aberto. Além de extenso e útil, o galego -ou português, que tanto tem- é o idioma do País. A partir de ai, podemos também reivindicar os nossos direitos pessoais e não só coletivos

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2020?

Descarto as soteriologias, ou teologias da salvação dos nacionalismos pois estão no jogo do Estado. Simplesmente com deixar-nos ser o que somos, com miras abertas, ao menos para uma parte importante de nós poderia haver não só supervivência linguística e cultural, mas também desenvolvimento. E as instituições (seja quem for que as ocuparem) teriam o galego não só como uma língua litúrgica, mas como idioma vivo e prestigioso. O galego tem oportunidades: não é um “probiño” necessitado de proteção. Só precisa viver livre e aberto ao mundo e às mentes.

Que visão tinhas da AGAL, que te motivou a te tornares sócio e que esperas da associação?

Claramente: eu partilhava –com dúvidas- com muitos galegos, nacionalistas e não, os preconceitos que nos inocularam os criadores da Normalização e a Normativização. Estes dizem que temos que seguir na luta, apertar os dentes, e fechar filas com eles. Mas quando um persoeiro, autor intelectual da Norma RAG-ILG ,recebeu um dos muitos prémios que se auto concedem, foi que eu apostatei definitivamente da igreja e o seu clero.

O persoeiro reconhecia descaradamente numa entrevista a raiz do seu novo prémio que a ortografia galega fora copiada do castelhano, fundamentalmente porque o castelhano é Língua A (entende ele portanto que o será para sempre) e aos meninos e meninas galegos havia que lhes evitar complicações. Deve crer que as crianças são parvas! E decerto descarta a presença do galego no ensino a sério, que, repito, é um direito humano fundamental. Nem Gloria Lago desprezaria o galego com tanta claridade!!

Estava claro: a norma RAG-ILG fora como Vichy na ocupação alemã... Fizeram um bable ou panocho (com todos os respeitos) como solução de compromisso.

De AGAL não espero aqueles milagres que a fé de carvoeiro dos isolacionistas têm (tínhamos) a respeito das instituições públicas. Mas não formar parte do banquete conferiu ao reintegracionismo, ou galeguismo aberto, um plus de honestidade intelectual que estou certo que no futuro será tida em conta no País: em questão de dias, como uma revolução cidadã ao jeito de Islândia ou gradualmente ao longo de anos. Isso dirá-no-lo o tempo...

 

Conhecendo Xosé Morell

  • Um sítio web: facebook
  • Um invento: O livro digital
  • Uma música: Tokio Hotel
  • Um livro: Amin Maalouf. “Les Identités meurtrières” (As identidades assassinas)
  • Um facto histórico: Ano 1111: Afonso Reimundes é coroado Rei da Galiza em Santiago de Compostela.
  • Um prato na mesa: umas boas nécoras com um bom Rias Baixas.
  • Um desporto: direi dois, o tute cabrão, e caminhar entre a natureza.
  • Um filme: “The Lord of the Rings” (O Senhor dos Aneis).
  • Uma maravilha: o ser humano.
  • Além de galego/a: catalão, madrileno, e desde há dois anos chinês.
 
   

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