Associaçom Galega da Língua

Palestra de Valentim R. Fagim em Alcalá de Henares

PGL - O presidente da AGAL, Valentim R. Fagim, ministra hoje às 19h30 umha palestra na Associaçom Galega Corredor do Henares, um centro galego sediado na cidade espanhola de Alcalá de Henares (Rua Campo Real, 1 – baixo), perto de Madrid.

A associaçom visa «satisfazer as necessidades espirituais e culturais dos cidadaos galegos na comarca que banha o rio Henares», isto é, da cidade de Guadalajara até a cidade de San Fernando de Henares, quase nas portas de Madrid, mais ou menos uma populaçom de um milhom de pessoas.

A associaçom conta com aproximadamente 200 famílias afiliadas (o aderimento é familiar), o que dá perto de 800 pessoas associadas. O local social conta com biblioteca, grupo de gaitas e danças galego, coral (com repertório só em galego), ginásia, e ministra cursos periódicos sobre história da língua e literatura galega, e aulas de gaita, percussom ou dança tradicional galega. Aliás, o colectivo edita uma revista anual com motivo do Dia das Letras chamada Vagalume, e cultiva-se a gastronomia galega. Em definitiva, visam «reviver um pedaço da Galiza».

Polas suas instalações passaram a dar palestras vultos como o professor e escritor de Ciência Política Carlos Taibo, o professor Francisco Rodriguez, o lexicógrafo galego Isaac Alonso Estraviz, ou o recuperador da figura do Apalpador (José André Lôpez Gonçález).

A palestra do presidente da AGAL insere-se dentro do programa previsto para o Dia das Letras, que começou no passado dia 14 com um concerto. Depois da conferência de Valentim R. Fagim, o coro Vagalume, dirigido polo maestro Ricardo Pizarro, interpretará algumas peças tradicionais do folclore galego.

O programa desta associaçom em comemoraçom das letras galegas continua no vindouro 22 de Maio com um passa-ruas pola cidade histórica de Alcalá com o grupo de gaitas e danças Vagalume; o dia 23 haverá umha missa cantada pola coral na Ermida do Vale e actuaçom dos Vagalume no adro e umha romaria popular.

 
 

Sérgio Álvarez: “O galego sempre é útil fora da Galiza, por mais que tentem convencer-nos do contrário”

PGL - Entrevistamos Sérgio Álvarez Alonso, sócio da AGAL desde o passado mês de março. Nascido numa aldeia de Salzeda de Caselas, a sua língua sempre foi o galego. Atualmente finaliza os seus estudos na Bélgica.

PGL: Caro, para que os companheiros de associação te conheçam melhor, por que não nos falas um bocadinho de ti?

Sérgio Álvarez Alonso: Chamo-me Sérgio, tenho 24 anos e provenho duma freguesia do rural, pelo qual a minha língua desde sempre foi o galego. Trás estudar diversos módulos de FP, afinal decidi estudar turismo na universidade ao mesmo tempo em que ia trabalhando... Atualmente, estou a rematar a carreira graças a uma bolsa Erasmus na Bélgica.

PGL: Estás morando na Bélgica: lá o galego está a ter alguma utilidade para ti?

SA: Sim, o galego sempre é útil fora da Galiza, por mais que tentem convencer-nos do contrário. Falando galego com certo sotaque, posso falar quase sem problemas com os outros estudantes portugueses e brasileiros que estudam aqui. Ainda, pelo que levo visto, hoje em dia é quase impossível estudar numa cidade e não topar estudantes lusófonos, tanto em Europa como na América do Norte. Portanto, acho que a nossa língua sempre vai ter utilidade lá onde quer que vámos.

PGL: Como foi o teu passo para a estratégia luso-brasileira?

SA: O meu passo para a estratégia luso-brasileira foi em verdade algo lento... Descobri o reintegracionismo em foros sobre o Prestige quando a desgraça da maré negra... Como muita gente, o meu posicionamento inicial foi o de estar totalmente em contra, ainda que com o tempo, graças aos argumentos dos foreiros, fui aligeirando a minha posição...

Suponho que o momento no qual verdadeiramente me dei conta da unidade da língua foi um dia em que estava eu visitando um mosteiro ao outro lado do Minho, e comecei a falar com uma velha do lugar... Quedei maravilhado ao comprovar que a fala desta mulher era, com algumas diferenças, quase igual ao que falava a minha avó... Desde esse momento, já comecei a preocupar-me mais pelo tema e a tomar consciência, a ler em português revistas e livros (a sorte de morar a 7 quilômetros da fronteira)... até que faz mais ou menos dois anos, quando me senti um pouco mais seguro com a minha escrita, comecei a tomar apontamentos na universidade, enviar SMS, mails, etc., com todos os amigos na norma da AGAL.

Acho que o positivo disto foi que, embora ao princípio foi difícil (a gente que sim é galego-falante choca-lhe ao começo), o certo é que afinal todo o mundo se acaba afazendo e tomando-o com normalidade...

 

PGL: Que visão tinhas da AGAL, que te motivou a associares e que esperas de ela?

SA: Acho que desde que conheci a existência da AGAL, esta leva realizando um grande trabalho de cara a explicar à sociedade em geral por que temos de seguir uma estratégia comum com o português e não ficarmos isolados convertendo a nossa língua num simples dialeto do espanhol...

Por isso, gostaria que seguisse na sua linha atual de dar a conhecer as possibilidades e a potencialidade da nossa língua com a ortografia lusófona, e que tente explicar isto ao máximo número possível de pessoas na Galiza. Acho que muitas vezes a gente renega da ortografia lusófona mais por preconceitos cara a Portugal e aos portugueses, ou pelo lavado de cérebro que desde sempre se nos fez na escola com isso de que galego e português eram diferentes...

Suponho que tudo isto foi também em certa forma o que me motivou a me tornar sócio da AGAL, junto com o desejo de dar um passo avante no meu compromisso com as minhas ideias em torno a língua.

PGL: Portanto, tu achas que mudar o tipo de educação a respeito disso seria uma boa linha?

SA: Acho que mudar o tipo de educação a respeito disso seria fundamental. De fato, se desde pequenos se nos ensinasse que galego e português são a mesma língua, veríamos isto com naturalidade, e não como uma espécie de aberração... Uma das coisas que me chamou a atenção ao chegar à Bélgica foi que um flamengo, ao denominar a sua língua, nunca fala de flamengo, mas neerlandês, sem nenhum tipo de problema embora para nada se sintam neerlandeses.

Na Galiza, a dia de hoje, isto é impensável. Na sociedade seguimos tendo essa ideia, quando menos na zona onde eu moro, de que somos superiores aos portugueses, de que tudo o que vier do outro lado da raia não pode ser muito bom e que, portanto, quanto mais longe deles, melhor. A todos estes preconceitos que se nos mete desde pequenos na cabeça temos que somar uma norma para o galego que só semelha seguir o castelhano, e se a isto acrescentamos a educação, que parece esforçar-se especialmente em negar o evidente, em repetir as vezes que for necessário que já faz cinco séculos que não falamos a mesma língua, o resultado que obtemos é óbvio: de primeiras, nenhum jovem vai querer tão sequer tentar razoar que estamos ante a mesma língua.

Por isso, se desde a escola se explicasse em profundidade a realidade, que filologicamente são o mesmo e que aliás estamos à altura de nos comunicarmos com mais de dois centos milhões de pessoas, agora mesmo o reintegracionismo estaria numa situação muito melhor de cara à ideia que sobre ele se tem na sociedade. Imagino-me que haverá professores que se esforçam por fazê-lo, mas acho que não é o geral.

PGL: Qual achas que poderia ser uma boa linha para difundir a estratégia reintegracionista no teu âmbito de trabalho?

SA: Ao ser estudante não tenho um contacto profundo com a realidade quanto ao turismo, ao menos no âmbito laboral... Imagino que como em todos os setores, introduzir a estratégia reintegracionista deve de ser bastante difícil, pelo menos no que atinge ao funcionamento interno da empresa, se não há muita vontade por parte de quem a dirige.

Por contra, sim que considero que há uma grande vantagem com respeito a outros sectores no referente ao trato com o público. O fato de que uma parte considerável dos turistas que recebemos provirem do outro lado da raia deveria animar restaurantes, hotéis, empresas de turismo ativo.. e não o fazer é não ter visão empresarial. Deveriam ter em português as suas cartas do cardápio, sites web e informações, além de pessoal apto na nossa língua. E acho que isto, por sua vez, teria um efeito positivo na sociedade galega, mesmo para acabar associando que galego e português não são tão diferentes como pensamos... Suponho que a maior presença de português ao nosso redor, maiores são as possibilidades de que a gente entenda a estratégia reintegracionista.

Contudo, como sempre, falta informação, vontade ou às vezes mesmo há má fé... Faz dois anos, em Tui, perto donde moro, o Concelho decidiu instalar uma série de sinalizações só em castelhano sobre os monumentos da vila... Quando o governo foi perguntado sobre por que o galego fora excluído, a resposta foi simples: estavam em castelhano para que os visitantes portugueses -a vila fica a um quilómetro da fronteira- pudessem entender melhor os indicadores...  Ante estas coisas, só posso ficar surpreso... ou irritado!

PGL: Para finalizar, gostarias de apontar algo mais para os leitores do PGL?

SA: Bem, provavelmente os leitores do PGL já tenham mais experiência que eu em tudo quanto rodeia o mundo da língua... Assim que só gostaria de animar aqueles que não deram pelo momento o passo a escrever em reintegrado, a dá-lo, ainda que for devagar -como em realidade suponho que fazemos todos-, já que desta maneira é como realmente vamos lograr que a gente que nos rodeia chegue a compreender -e quem sabe se mesmo a aderir!- com a norma reintegracionista.

CONHECENDO SÉRGIO

  • Um sítio web: www.seioque.com
  • Um invento: Internet
  • Uma música: qualquer uma de U2 ou de Yann Tiersen
  • Um livro: A heresia
  • Um feito histórico: a revolução irmandinha, ou também a francesa
  • Um prato na mesa: bandulho (acho que por outras partes da Galiza o chamam botelo...)
  • Um desporto: para praticar, o badminton
  • Um filme: Requiem for a dream
  • Uma maravilha: as Cies ao pôr-de-sol com o farol em funcionamento
  • Além de galego: sonhador pelo momento, viajante num futuro (ou isso espero!)
 
   

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