Associaçom Galega da Língua

Comissom Lingüística da AGAL aprova um documento codificador do léxico galego

PGL - Numha frutífera reuniom, a Comissom Lingüística da AGAL (CL-AGAL) aprovou no passado sábado 1 de outubro em Santiago de Compostela um importante documento codificador, encaminhado a orientar os usos lexicais no seio do galego-português da Galiza, lançou um projeto de codificaçom prosódica e elegeu como novo membro da instituiçom a professora Beatriz Peres Bieites.

O documento padronizador do léxico virá a lume dentro de uns meses sob o título O Modelo Lexical Galego. Fundamentos da Codificaçom Lexical do Galego-Português da Galiza e representa um marco no ámbito da normativizaçom do galego e na própria vida da Comissom, porquanto nengum instrumento codificador definira até agora de um modo tam preciso e tam completo o padrom lexical da variedade galega da língua como este texto da CL-AGAL, e porque havia mais de vinte anos que —deixando de parte a Atualizaçom Ortográfica[PDF] de 2010— esta instituiçom académica nom emitia um texto normativo de grande envergadura, após a publicaçom da segunda ediçom do Estudo Crítico (1989), que contém a inicial proposta ortográfica e morfológica da CL-AGAL. Fruto de um trabalho de vários meses, que também contou com a participaçom de alguns colaboradores externos, O Modelo Lexical Galego foi delineado sob a orientaçom científica do Prof. Carlos Garrido, Presidente da CL-AGAL, quem, de modo iminente, vai publicar nas Edições da Galiza umha extensa monografia sobre léxico galego, intitulada Léxico Galego: Degradaçom e Regeneraçom, cujas linhas-mestras inspiram a redaçom do documento codificador da Comissom. Este, que oferece umha indispensável orientaçom sobre os usos lexicais cultos realizáveis na língua autóctone da Galiza, é organizado em duas partes, de modo que na primeira, de prescriçom enunciativa, se proponhem as regras ou princípios gerais que, aplicados polo codificador ou, de modo autónomo, polo utente da língua, definem e engendram o padrom lexical galego aqui formulado; na segunda parte, o documento codificador oferece, como corolário da primeira parte, e a modo de prescriçom propositiva, umha série de vocabulários de pequena extensom que explicitam de forma económica e prática que unidades e configuraçons lexicais fam parte do padrom lexical galego e quais nom.

Umha vez concluído o projeto de codificaçom lexical com a aprovaçom de O Modelo Lexical Galego, na reuniom do sábado passado a CL-AGAL também manifestou a sua vontade de completar o labor de padronizaçom básica da língua lançando um projeto de codificaçom prosódica, dirigido polo Prof. Jorge Rodrigues Gomes, Secretário da Comissom, e que aspira a oferecer orientaçom no respeitante às realizaçons fónicas em galego e a contribuir para a configuraçom de um modelo prosódico culto.

Já no plano da organizaçom institucional, o Plenário da CL-AGAL reunido no passado sábado tomou conhecimento da demissom como membros da Comissom, nos dous casos por motivos de índole pessoal, dos Professores Maria José Dias Pinheiro e Luís Gonçales Blasco. Precisamente, perante estas sentidas baixas, e para reforçar os labores da Comissom, o Plenário elegeu por unanimidade como novo membro a Profa. Beatriz Peres Bieites, docente de língua portuguesa na E.O.I. de Santiago de Compostela, coautora do Manual Galego de Língua e Estilo e comprometida militante da causa da normalizaçom do galego e da sua eficaz implantaçom no sistema educativo.

 
 

Joám Facal: «Umha adequada formulaçom da proposta reintegracionista ao conjunto da sociedade nom consiste em dizer simplesmente: 'bom aí tenhem vocês o português, e pronto'»

PGL- Joám Facal toca piano e ama as árvores, é viciado da economia, acha que os 2000 som do Brasil e que os essencialismos de toda casta som umha desgraça, umha estéril militáncia no desvario. Adorou a sua experiência nos aPorto e afirma que nom podemos perder tempo.

Portal Galego da Língua: Joám Facal, segundo fontes reservadas, dedica os fins de semana a trabalhar no monte, escutar música clássica e ler.

Joám Facal: Assi é e assi será. Nascim e vivim na aldeia até os quinze anos, Toba, ao pé da ria de Corcubiom, frente ao Pindo. O trabalho na terra e a paixom polas árvores fai parte da nossa cultura familiar. A leitura e a música som dous caminhos reais para aproximar-nos disso tam desconcertante e fugaz que chamamos vida. Um diálogo com os mestres da humanidade.

PGL: Joám Facal é um reputado economista, firme partidário da euro-regiom Galiza/Norte de Portugal. Que peso tem a economia na criaçom de identidades?

JF: Figem-me economista despois de engenheiro e aí desenvolvim a minha atividade profissional até o momento de me reformar. A economia é ademais um vício particular: ler atentamente e tentar compreender a informaçom económica cotidiana, ter sempre sobre a mesa um livro de economia. Fago parte também de algumha equipa coletiva, nomeadamente o CIEF (Centro de Investigaçons Económicas e Financeiras), onde levamos 25 anos analisando sem interrupçom o desempenho da economia galega ou os foros anuais sobre economia galega organizados pola Fundaçom Pérez Rumbao. Colaborei em dous livros sobre a euro-regiom, um deles publicado polo CIEF em colaboraçom com a Universidade Católica do Porto e outro pronto a sair. A euro-regiom é umha área incontornável para o desempenho económico da Galiza; fai parte já do nosso mercado interior ainda que enfraquecido pola crise. Além disso, é o espaço da Galiza histórica tam viva ainda nas modalidades idiomáticas da Regiom Norte.

PGL: Brasil já está na cena internacional, e com os eventos desportivos do Mundial e as Olimpíadas ainda o vai estar mais. A cidadania galega olhará mais para o Brasil? Olhará mais para a sua/nossa língua?

JF: A dimensom brasileira é inevitável desde o ingresso do Brasil no seleto grupo de grandes economias emergentes, junto da Rússia, a Índia e a China. Brasil leva caminho de ser por fim o país do futuro que prometia e isso vai potenciar o seu atrativo. Se a isto somamos a contagiosa paixom musical e a criatividade brasileira, que a mocidade sabe apreciar tam bem, o protagonismo de Brasil está assegurado. Seguido prestes por Angola, talvez. “Menos mais que nos queda Portugal” diz-se; podemos acrescentar: “Os dous mil som do Brasil”.

PGL: Logo que reformado, começaste a estudar português na EOI de Santiago. Era algo que estava pendente? Recomendarias a outras pessoas passarem pola EOI?

JF: Era umha matéria pendente no meu curso vital, como é a elaboraçom de umha tese sobre economia galega e o estudo de piano. A vida é tam breve que hai que tentar vivê-la de todas as maneiras possíveis, como Pessoa queria. Novas perspetivas, novas amizades, novas experiências. Eu convido toda a gente a estudar português, porque é nosso, útil, aprazível para a leitura e a conversaçom. Além disso, o quadro docente da EOI é ótimo, cordial e entusiasta. Quem pede mais?

PGL: O nacionalismo galego tem claro que a Lusofonia reforça a naçom galega e a nossa língua? Que peso tem ainda o essencialismo?

JF: Língua e política, política lingüística, modelos de normalizaçom... muita matéria para responder decontado. O português é, simplesmente, a dimensom internacional do galego. A prática de Camilo Nogueira no Parlamento europeu é concludente a tal respeito.

Porquê entom tanta resistência a promover atitudes pró-ativas e abrir a tarefa do diálogo social? Há medo à incompreensom social, e há medo e medo. Devemos reconhecer também que os primeiros povoadores da ínsua AGAL nom eram tampouco a interface mais cordial para abrir um debate racional e sossegado sobre um tema tam delicado como o das identidades linguísticas. E está, sobretudo, a auto satisfeita assimetria blindada entre os aderentes à política lingüística oficial frente à inóspita independência em que sobrevivem os convictos da orientaçom reintegracionista.

Nom esqueçamos que Carvalho é ainda um proscrito da cultura galega oficial. Questons tam decisivas para o futuro do galego como o estabelecimento de departamentos comuns de galego-português a partir da escola primária, a recepçom da TV em português, o intercámbio de estudantes, científicos e agentes culturais, a exploraçom cultural da lusofonia, ficam excluídos em espera de um consenso cívico e político que ninguém se atreve a promover. Estou certo de que o egrégio Padre Sarmiento seria hoje partidário do ensino do português. É questom de ilustraçom e abertura ao futuro. Os essencialismos de toda casta som umha desgraça, umha estéril militáncia no desvario.

Joám Facal e a sua companheira, Ana

PGL: Como se poderia introduzir a estratégia luso-brasileira-angolana na agenda política?

JF: Bom, ante todo está a questom de umha adequada formulaçom da proposta reintegracionista ao conjunto da sociedade que nom consiste em dizer simplesmente: bom aí tenhem vocês o português, e pronto.

Tentar superar o marasmo em que sobrevive o idioma passa por brigar em contra da valencianizaçom do galego, por vindicar das formas cultas frente à degradaçom imparável da fonética e sintaxe, tam evidente já nos médios e no uso. A questom que se coloca é: Que política linguística e educativa? Que norma ortográfica?

Na minha opiniom, o modelo de reintegraçom poderia aproximar-se ao do neerlandês frente ao alemám, como já apontara Carvalho. Devemos prevenir-nos, em troca, de cair em práticas lingüísticas subalternas no estilo do spanglish chicano, em versom galusa. A sociedade galega nom o entenderia. Galiza tem um importante papel a desempenhar no dilatado ámbito da lusofonia lingüística, reforçando a singularidade das falas do Norte e defendendo o tesouro do galego vivo. De Portugal a norma e o modelo, da nossa própria sociedade a coloquialidade, a expressividade, o uso descontraído, o rechaço da artificialidade e a pose lisboeta. O processo reintegracionista nom pode esquecer a dimensom social do problema, o da briga pola aceitaçom e a difusom das boas práticas lingüísticas; qualquer outra atitude implica dar por resoluto o imenso desafio da pedagogia social.

PGL: Desde quando achas que "menos mal que nos queda Portugal"?

JF: Para mim é umha velha evidência. Como gostariam bascos e cataláns terem os seus Torga e os seus Pessoa, poderem praticar o idioma próprio como idioma oficial normalizado, viajar ao Rio ou a Luanda na língua ancestral. Andar Portugal é revisitar Galiza. Quando eu vou de Braga a Bouro (Boiro), passo por Goiães (Goiáns, Goiás) e também por Verim! Revejo o meu próprio país, como num espelho brilhante.

PGL: Joám Facal tivo um intenso passado sindicalista nos anos 70. Achas, como o presidente da RAG, Xosé Luís Méndez Ferrín, que o reintegracionismo tem que predicar à porta de Citroën? Onde tem que predicar em tua opiniom?

JF: Política, sindicalismo. Quando o presidente da RAG fala de predicar à porta de Citroën comete um reconhecível lapsus freudiano ao resgatar da memória umha descalificaçom procedente das polémicas grupusculares na sua pretensom de interpretar/interpelar às massas. As questons de política lingüística remetem-nos ao avesso destas atitudes, ao consenso social. Como qualquer outra proposta de construçom nacional.

Onde predicar?: talvez às portas de umha sala de discusom franca e descontraída presidida por umha única ordem do dia; o desenho de umha política lingüística no meio prazo, capaz de abrir o idioma secular partilhado à dimensom internacional sem sacrificar a fidelidade dos utentes habituais. Galiza espera açons presididas ao mesmo tempo pola prudência e a audácia. Eu nom perdo a esperança. Ferrim gosta da surpresa e em tempos praticou a ousadia. Na prédica que esperamos devia haver muitos oradores convocados; nom somos tantos enquanto continua crescendo o deterioro e a desídia.

Um único horizonte deveria congregar-nos: substituir a disjuntiva condenatória: ou galego ou português polo cultivo do campo fértil do continuum lingüístico galego-português. A razom acabará impondo-se, a problema reside em nom perder tempo. Nos usos sociais, as perdas som, com freqüência, irreversíveis.

No centro, Joám Facal numha conferência
sobre as deslocalizaçons empresariais

PGL: Por que te decidiste a te associares a AGAL agora, sendo como és um reintegracionista convicto há anos? Que esperas da associaçom?

JF: Bom, a necessidade da prática reintegracionista é umha evidência que coexiste para mim sem trauma com a minha querença irrenunciável ao galego vivo e à prioridade no seu uso qualquer que seja o formato ou a ortografia. Nom tolero condenas de partisanos ou académicos nestas questons. O galego é o meu idioma de instalaçom e o da minha família e o seu futuro deve jogar-se no campo da liberdade de opiniom cívica informada e nom em concilábulos de oficiantes e profissionais da re linguística.

AGAL tem feito contributos mui importantes à cultura galega muitas vezes baixo o fogo aberto da animadversom oficial e social. Atitudes de coragem capazes de sobrepor-se a côdea de condescendência habitual impulsárom o modelo Burela, estám organizando os magníficos mini cursos de inmersom em português para galegos no Porto, elaborárom manuais de aprendizado de língua, estilística e traduçom, multiplicárom os contactos com a cultura de fala portuguesa. A normalizaçom das minhas convicçons tem a ver talvez com um maior sossego vital e desapego pola opiniom alheia. Os anos confirmam convicçons e lealdades, dotam-nos de maior liberdade, fam-te, em definitiva, mais livre.

PGL: Achas que mudou o reintegracionismo? Em que medida?

JF: Percebo a AGAL atual menos dogmática e mais próxima sem prejuízo da firmeza e o empenho. Mais acolhedora, penso, para defender opinions matizadas sobre os tempos e os modos da estratégia de reintegraçom na procura de consenso social. A assistência neste verao ao curso de imersom em português no Porto foi para mim umha experiência marcante, além de mui gratificante, acerca da discreta eficácia de gente como o Valentim. Tenho, aliás, dous queridos sobrinhos na AGAL e bastantes amigos, algum de velho, assi que talvez era o momento. Quadrou, como se diz.

 

Conhecendo Joám Facal


  • Um sítio web: Como economista freqüento o INE, BE, Eurostat, FMI... como cidadao do mundo, o universo Google, as Wiki, os curtos musicais do Youtube...
  • Um invento: Como engenheiro, a roda, a junta cardám, o motor de explosom, a turbina... como cidadao, a penicilina, a Internet, a imprensa, os médios de reproduçom musical.
  • Umha música: A Paixom segundo Sam Mateu de Bach, os quartetos e quintetos de Mozart, o dom Giovanni, Beethovem, Brahms, Bartok, Shostakovitch... Sei lá, como dim os portugueses.
  • Um livro: A Biblia, As mil e umha noites, O livro do desassossego, as histórias de Cunqueiro, tantos poetas...
  • Um facto histórico: As viagens que mudárom a história: as de Saulo polo Mediterráneo, a de Napoleom por Europa até Moscovo, a de Darwin no Beagle.
  • Um prato na mesa: Empada de broa com xoubas, um cozido em ordem, bacalhau em guiso à moda da minha casa. O mencia pode ser um bom companheiro de mesa sem desprezar o tempranilho que seria blasfémia.
  • Um desporto: Andar monte, andar cidades com história com um livro na mao.
  • Um filme: Tantos... vou citar três à toa: o desencanto da política, “A vida dos outros”; a coragem contra a adversidade: “Só ante o perigo”; a nostalgia da terra e do amor: “O home tranquilo”
  • Uma maravilha: A duas que inquietavam Pascal: o mistério da matéria e o mistério do Universo.
  • Além de galego/a: Europeu convicto, irmao da humanidade esmagada, adito aos gigantes que nos precedêrom e nos orgulham de sermos humanos.
 
 

Jurjo Martins: «Devemos fugir dos debates estéreis e intermináveis. Procurar, sempre, novos caminhos e, o que eu acho mais importante, somar em vez de dividir, seduzir em vez de impor»

PGL - Jurjo Martins tem dom para organizar grandes eventos lusófonos. Viveu o galego em Vigo como língua mágica, fã de Semente, a sua tia de Cangas é uma polifonia de sotaques, defende mais ação e menos retórica e a música como promotora da coesão social, levando a mensagem reintegracionista muito além.

PGL: O nosso sócio Jurjo está sempre embarcado, na maioria das vezes em terra mas perto do mar ou do rio. Um dos seus últimos desembarques foi com a  coordenação do I encontro de escritores da lusofonia, em Monção, ao pé do Rio Minho. Que significou para as galegas e os galegos que estiveram ali?

Jurjo Martins: O Encontro decorreu os dias 29, 30 e 31 de julho (sexta, sábado e domingo) no palácio da Brejoeira,  um paço do século XIX  rodeado duma espetacular floresta. Contou com o apoio da CPLP, e a presença do assessor da cultura, o brasileiro, Dr. André Heráclio do Rêgo, que participou como moderador numa das mesas de debate, e que durante todo o evento não deixou de se interessar pola nossa cultura e as particularidades das nossas falas galegas.

Nele viramos protagonistas por duas razões: a expectação que desperta a Galiza enquanto berço da língua e da cultura comum, a nossa imensa criatividade em todas as disciplinas artísticas e a capacidade de intermediadores que temos dentro do mundo cultural lusófono. Muitas das lacunas e dos mal-entendidos que a história oficial produz, são preenchidos polos/as galegos/as porque, a causa da nossa história somos quem de ter um ponto de vista alternativo a processos como a colonização, a emigração, a mestiçagem cultural, a diglossia, o contacto de línguas, a recriação da cultura popular, a relação das pessoas com o meio natural...

Com certeza o melhor desses dias foi o convívio entre pessoas de diferentes territórios e identidades: escritores/as, jornalistas e pesquisadores (José Eduardo Agualusa, Miguel Real, Maria Antonieta Preto, Tony Tcheka, Amílcar Bettega, José Vasconcelos, Fernanda Angius...), músicos/as, criadores/as e cineastas (Mito Elias, Fernando Mateus, António Ferreira, João Gigante, Hugo Soares...), mas também o público (por exemplo Lele, uma rapariga de Astorga, que mora em Vigo desde há alguns anos e que se comunicou com todos/as na nossa língua desde o primeiro dia sem problemas). Juntos refletimos sobre a realidade da lusofonia (tentando fugir dos tópicos), sobre as novas tecnologias e a sua relação com a literatura e as artes em geral (cujas fronteiras são cada vez menos claras), e sobre os movimentos do chamado Alter mundo (ecologismo, empreendedorismo social, antibelicismo, feminismo, decrescimento...). Aliás presenciamos a aparição de seres maravilhosos durante a nossa caminhada no trilho da Cova da Moura...

Jurno na Casa do Brasil de Madri

A escolha de Monção, vila fronteiriça e irmã da galega Salvaterra, não foi fortuita. Daí é, por exemplo, o João Verde, escritor português que em 1902 publicou o seu terceiro e mais aclamado livro, Ares da Raia, impresso na tipografia de Eugénio Krapf, de Vigo, que tem como pórtico os famosos versos:

Vendo-os assim tão pertinho,
A Galiza e mais o Minho,
São como dois namorados
Que o rio traz separados
Quasi desde o nascimento.
Deixá-los, pois, namorar,
Já que os pais para casar
Lhes não dão consentimento.

Como sucede com todos os raianos, o rio Minho desde tempos imemoriais une mais do que separa, e a língua comum ajuda a estreitar os contatos.

Na companhia de Guerra Junqueiro, poeta de nome feito que vivia então em Viana, J. Verde contactou com grandes nomes da literatura galega, que vinha seguindo apaixonadamente, desde Francisco Anhom, Rosália de Castro, Curros Henriques…

A conexão galega com a lusofonia cobra força no presente e nesta década será quando se leve à prática. O termo lusofonia, enquanto sociedade cultural, ainda está em construção mas tem uma grande potência, sobretudo pela projeção e o pulo do Brasil. Para os galegos implica uma oportunidade para dar-nos a conhecer no mundo.

A atividade criadora galega estivo representada em diferentes atividades por escritores como Iolanda Zúñiga (Prémio Xerais 2010 com o romance Periferias, sobre a vida nas favelas de São Paulo), João Guisam Seixas (I Prémio Eixo Atlântico de Textos Dramáticos com A Tábua Ocre de Núbia em 1997), Séchu Sende (cujo livro de relatos curtos Made in Galiza recebeu o Premio Ánxel Casal ao Melhor Livro do Ano em 2007), Iolanda Gomis (ganhadora do Concurso Internacional de Poesia ao Vídeo de Pernambuco, Brasil) e Raquel Miragaia, na sua dupla faceta de autora e editora; as compositoras Uxía e Ugia Pedreira, o musicólogo José Luís do Pico Orjais, o dramaturgo e ator Quico Cadaval, o escritor e investigador Carlos Quiroga, da Universidade de Santiago de Compostela, o politólogo galego Carlos Taibo, autor do livro Parecia não pisar o chão. Treze ensaios sobre as vidas de Fernando Pessoa, e os presidentes da associação galego-portuguesa Ponte nas Ondas, Lourdes Carita e Santiago Veloso.

Uma performance baseada no poemário Noente Paradise de Ugia Pedreira abriu o encontro. A vocalista de Marful e Nordestinos/as apresentou também o seu novo projeto com o cantor e compositor brasileiro Fred Martins, com quem acaba de publicar o disco Acrobata. Estiveram acompanhados da sempre mágica Aline Frazão. Pola sua banda, a nossa querida Uxía, que há pouco publicou Meu Canto, ofereceu, junto com o cantor português João Afonso, o concerto de encerramento na noite do domingo. Neste caso acompanhados polo virtuoso brasilego Sérgio Tannus.

A minha gratitude a todos/as elas/es polo seu esforço, o seu imenso talento e, com certeza, a sua companhia.

Jurjo num concerto de Meu Canto

PGL: Não é a primeira vez que te embarcas em projetos de este teor. Na tua estadia em Madri foste responsável por um evento que recolhia vozes lusófonas na capital do Império Pequeno que diriam os da VA-CA.

JM: Sim, foi uma ideia maluca que terminou numa experiência aliciante e enriquecedora onde aprendemos que os sonhos podem virar realidade com responsabilidade, carinho e força de vontade. Como comentei na apresentação na Galeria Sargadelos (daquela ainda se podiam realizar lá atos culturais), foram três galegas “de armas tomar”: Asunción Canal (Chuni) leitora de galego na Universidade Complutense; Nelly Oliveira, amiga brasileira, proprietária do arte-bar Kabokla (onde se realizou a parte mais importante dos atos); e a cantora Uxía, que foi um dos primeiros e mais firmes apoios; as responsáveis por que o barco chegasse a bom porto. O conceito era simples, mas provocador, e o FIGA (Festival Internacional da Galeguia) reuniu durante 3 dias de maio de 2009 parte do melhor da música galega e brasileira atual com o folque de Naia, o punk de O Leo de Matamá e os ritmos brasilegos de Meninos Carentes e, com certeza, de Uxía, acompanhada dos naquela altura ainda quase-desconhecidos na Galiza, Sérgio Tannus, Serginho Sales e Paulo Silva. Além de um percurso poético-musical pola nossa literatura no Centro Galego da mão de Anxo Angueira e o Leo, queimada, caipirinhas, petiscos da Galiza e do Brasil...

O meu agradecimento à amiga Asunción Canal polos anos de frenética atividade cultural e convívio. Também à Associação de Mulheres Galegas no Exterior Rosália de Castro, que pola sua generosidade e excelente trabalho faz honra ao seu nome. Também à Casa do Brasil e ao seu diretor Cássio Roberto de Almeida polo seu apoio para apresentação do Instituto Cultural Brasil-Galiza em novembro de 2010 e à nossa presidenta, Concha Rousia por nos acompanhar lá.

PGL: Jurjo nasceu em Vigo. Como foi o teu contato com a língua da Galiza na cidade da oliveira?

JM: Pois o contacto foi com uma língua secreta, que o envolvia tudo mas que ao tempo parecia invisível. A fenda linguística nom deixa de ser uma fenda cultural e/ou socioeconómica. Com o passar dos anos, o contacto com o movimento operário, de grande força na cidade e onde o galego sempre foi, e ainda é, muito maioritário, abriu-me os olhos à realidade.

Em Vigo, o galego marginado e vilipendiado, por contraste, aparece em toda a parte nas suas paróquias, como o latim na Roma das sete colinas: Alcavre, Beade, Bembrive, Cabral, Candeã, Castrelos, Comesanha, Corujo, Freixeiro, Lavadores, Mata Má, Návia, Oia, Saiães, Sárdoma, Teis, Valadares, Zamães... aliás na antiga vila de Bouças, em Coia, São Paio e em São João do Monte, que não são paróquias administrativas mas têm uma forte tradição histórica e uma forte presença da nossa língua e a nossa cultura; na cidade velha, onde ainda sobrevive o prédio onde foi impresso Cantares Galegos... e especialmente no paraíso natural, cultural e linguístico que temos na nossa frente: o Morraço.

PGL: Sabemos que a área educativa tem uma especial relevância para ti. És favorável à criação de ensino privado na nossa língua?

JM: Acredito firmemente na educação como o caminho fundamental para a libertação do ser humano e para a justiça social. Sempre apoiarei qualquer projeto que for nessa direção. Por princípios estou a favor de um ensino laico, público, galego e de qualidade, mas vejo com muito bons olhos qualquer proposta que do cooperativismo, o empreendedorismo social e/ou a autogestão ajude a normalizar que o galego-português seja a língua ambiental, veicular e normal no ensino na Galiza, tanto no território da comunidade autónoma como nas zonas de língua e cultura galega limítrofes. A independência dos poderes do estado e do seu doutrinação é sempre uma vantagem.

O ensino regrado tal e como o conhecemos pode ser influído positivamente pola atividade de Associações como Agarimar, ou iniciativas como a recém criada de Semente, primeira escola de ensino em galego-português para nenos/as de 3/6 anos. Reduzir o rácio de alunos/as e incluir a autonomia das crianças na aprendizagem e o contato com a natureza podem fazer mudar o rumo do ensino regular, a maior parte das vezes, e apesar do esforço de muitos/as docentes motivados/as, um autêntica “fábrica” de almas rendidas. Precisamos de novos instrumentos para ajudar a desenvolver-se à mulheres e  homens livres.

PGL: Quando começas a dar-te conta de que a nossa língua éMundial? Que implica a nível pessoal?

JM: A minha tia, de Cangas, fala com a sua mãe um dos galegos mais lindos que conheço, com léxico e fonética que às vezes parece-me brasileira, outras do norte de Portugal, outras tipicamente galega... desde sempre essa fala secreta -que tinha vergonha de ensinar aos meus primos- despertou em mim muita curiosidade. Além disso ela estava orgulhosa de apanhar em Vigo o sinal das TV's de Portugal e os seus irmãos, embarcados em Terra-nova ou América do Sul, sempre diziam nas festas de Natal que eles entendiam-se sem problemas com portugueses, angolanos ou brasileiros.

Minha mãe trabalhava numa loja de discos e desde sempre adorou a música brasileira, que formava parte do dia-a-dia na minha casa... era engraçada aquela língua que apesar de que na escola teimavam em considerar “estrangeira” conseguia compreender sem quase nenhum esforço. Quando ultrapassava a alfândega de Valença com os meus avós -do sul de Lugo e de Ourense-, ficava surpreendido com que começassem a falar naquela língua que diante de nós, às vezes por pressões doutros familiares, tentavam ocultar, mas que mesmo falando em espanhol ficava presente. É maravilha escutar o meu avô de 96 anos, mesmo tentando falar espanhol, dizendo cousas como “enquanto”, “ônibus”, “Assim que...”, “mais nada”, “nenhum”.”pronto”... que testemunham que a suposta separação entre galego e português nem é tão antiga como dizem alguns nem tão “natural” como  pretendem fazer-nos acreditar.

Além disso no prédio onde nasci, a porteira é uma emigrante retornada, cujos filhos nasceram no Brasil. Dava nas vistas que entre eles falavam galego com ligeiro sotaque brasileiro e com alguma palavra que, na altura, não conseguia identificar.

A primeira vez que viajei a Lisboa com um amigo cuja namorada era portuguesa reparei em que, igualmente, era a primeira vez que o escutava falar em galego! (cousa que nunca fazia na Galiza). Depois de um par de dias lá, percebi que aquele sotaque que achava ia ser tão escuro, era perfeitamente compreensível para mim. Mesmo alguns portugueses diziam-me “que bem falas português para ser espanhol”. Naquela altura eu já sabia que estava ante duas grandes mentiras e esforcei-me por fazer-lhes ver que o que estava a falar com eles era a língua da Galiza, talvez com sesseio, sim, talvez com algum léxico um bocado diferente, mas em essência, pouco estava na verdade a mudar.

PGL: Qual achas que é a saúde da estratégia luso-brasileira-angolana? Quais pensas que estão a ser os roteiros mais interessantes? Por onde deveria transitar?

JM: Ligar o galego a universalidade, autogestão, luta contra o patriarcado, novas tecnologias, autonomia pessoal, decrescimento, respeito à diversidade, à defesa da natureza e aliás inseri-lo num, como diria o Carlos Taibo, “lazer criativo”.

Estes valores, tão criticados durante tantos anos, são, no entanto, a nossa fortaleza. Parece que a realidade teima em dar-nos a razão. No mundo post-globalização, onde, infelizmente, vai ser muito difícil que um projeto cultural independente sobreviva, estamos a ver como as propostas reintegracionistas multiplicam-se e, o mais importante, mantendo os seus princípios e fazendo uma defesa inteligente, fora de posições essencialistas e/ou paternalistas , mas firme, a prol da hegemonia social do galego-português.

Por outra banda, a comunicação agora é mais horizontal. Os portugueses, por exemplo, começam a desconfiar da visão oficial na que a Galiza e o “galego” eram tão “espanhóis” como um senhor de Madrid ou de Sevilha; isto, que antes era normal no norte, acontece hoje também em Lisboa.

O acordo ortográfico é também, com certeza, uma oportunidade que não podemos deixar escapar. Criou-se um padrão de língua mais uniforme, sim, mas ao tempo abriu-se o caminho para as diferentes variedades (é quase seguro que se vai aceitar uma angolana, entre outras...). Neste contexto, o caso galego é visto com extraordinária simpatia e, em contra do que sempre se nos disse, aguarda-se-nos de braços abertos.

PGL: Em que forma podem conviver a estratégia autonomista e a lusófona?

JM: Na verdade, estão a conviver desde o século XIX, ora bem, no século XXI está-se a produzir uma mudança significativa. O autonomismo (polo menos uma parte significativa) vê com bons olhos a lusofonia e aceita-a de facto como estratégia válida em todos os campos, exceto no ortográfico, mesmo também a nível léxico (ainda que seja na intimidade). O Brasil tornou-se um lugar de encontro e de auto-identificação. É verdade que às vezes certos setores utilizam o Brasil para tentar fazer finca-pé nas diferenças com as falas de Portugal e também que o seu posicionamento não deixa de ser retórico, mas as fírgoas e gretas são cada vez mais grandes e as pessoas mais novas carecem dos preconceitos dos seus antecessores.

Esta primavera assisti à primeira jornada dedicada à literatura galaico-minhota (sic.) na feira do livro de Braga. Foram convidados escritoras e escritores de todas as posições à respeito da língua, num convívio modelo e enriquecedor que tirou à luz que é muito mais o que nos une que o que nos separa. As alfândegas mentais de muitos não podem deixar de se render à evidência. Issac Alonso Estraviz leva razão: triunfaremos!

Jurjo junto a um retrato fotográfico de Fernando Pessoa

PGL: Por onde deve transitar a nossa estratégia para avançar socialmente?

JM: Devemos fugir dos debates estéreis e intermináveis. Procurar, sempre, novos caminhos e, o que eu acho mais importante, somar em vez de dividir, seduzir em vez de impor. Praticar com o exemplo, que não é só a maneira mais fácil de ensinar algo, mas também quase a única. Em definitiva: humildade nas atitudes, vontade didática e ir conseguindo objetivos concretos. Em definitiva, mais ação e menos retórica.

Por exemplo, temos conseguido entre todos/as que Compostela se tornasse numa cidade lusófona, ponto de referência mundial desta cultura; aliás Cantos na Maré , em Ponte Vedra, é um festival de referência. Há que ir avançando com passos firmes, que agora cada vez vão tornar-se mais grandes. Em Vigo, por exemplo, um grupo de pessoas teimamos até que conseguimos que este ano se ministrem no Instituto Camões aulas no nível C1, a primeira vez que acontece na Galiza. Criou-se a Academia Galega da Língua Portuguesa e Aló Irmao chegou a nº1 nas listas da RTP África... insisto, estamos numa nova etapa, só de nós depende acreditar e continuar a crescer para confirmar aquilo de que “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”.

As artes são, neste sentido, um processo de conhecimento não científico com uma força tremendamente poderosa. Nomeadamente a música, que promove a coesão social e leva a mensagem reintegracionista muito além. Sendo um povo tão ligado à expressão musical, temos a sorte de que excelentes pessoas e músicos como Aline Frazão, Fred Martins, Sérgio Tannus, Serginho Sales, Paulo Silva... morem entre nós e ajudem a espalhar não só a nossa mensagem, mas também a nossa alegria. E com certeza galegos/as como Uxía, Narf, Xoán Curiel, Ugia Pedreira... que fazem parte da história da música popular galega, mas também da lusófona. Parafraseando Castelão “a música, como os pássaros, voa sobre as fronteiras políticas”.

O cinema também reflete nestes tempos uma nova visão sobre realidades muito atuais, mas ao tempo muito antigas: Mulleres da raia (sic) da galego-minhota Diana Gonçalves; Galegos de Cá e de Lá, de Júlia Fernandes; Fronteiras, de Rubén Pardiñas; Entre línguas, de João Aveledo, Vanesa Vila-Verde e Eduardo Maragoto... Na literatura temos iniciativas inovadoras como os Cadernos Q de Vian do coletivo A porta verde do sétimo andar; no jornalismo gratas surpresas como a de Diário Liberdade; e com certeza o éMundial, que é só a primeira pegada de algo muito mais grande que está por vir...

PGL: Que visão tinhas da AGAL, que te motivou a te tornares sócio e que esperas da associação?

JM: A Internet, no meu caso, foi fundamental para terminar de me chegar à AGAL. Estando só na minha casa, sem interferências interessadas, pode-se ler, refletir, comparar, imprimir em papel, pesquisar... percebi que era o caminho mais natural, menos forçado, mais enriquecedor para, sem deixar de ser galego nem perder as nossas variedades e falas, variadas e apaixonantes, como nom podia ser menos no berço duma língua com tantas cores, reafirmar-nos culturalmente no mundo.

Mas, com certeza o contacto humano foi decisivo. Jeanne, Aline, Valentim, Miguel, Carlos, Concha, Joám, Suso, Aitana... tantas e tantos... Penso que a estratégia dos últimos anos, a abertura à sociedade, a imaginação e a criatividade em tempos em que outros só se laiam polas subvenções perdidas fizeram que tomasse partido dum jeito ativo.

Da AGAL espero que saiba continuar evoluindo e adaptando-se aos tempos, que continue a valorizar o trabalho em equipa por riba dos individualismos, que saiba escutar e dê voz às/aos sócios/as.

 

Conhecendo Jurjo Martins

  • Um sítio web: http://www.buala.org/, o site da cultura contemporânea africana
  • Um invento: ainda por chegar, a vacina contra a SIDA.
  • Uma música: impossível decidir-me... por exemplo uma que fosse uma mistura de The doors, Fuxan os ventos e Aline Frazão.
  • Um livro: qualquer um de Rosália de Castro, Hilda Hilst ou Joseba Sarrionandia
  • Um facto histórico: confio em chegar a ver como África se ergue e se liberta e que situações como as do Sudão ou Etiópia desapareçam para sempre.
  • Um prato na mesa: qualquer um com arroz, peixe ou abacate.
  • Um desporto: caminhar, nadar no mar, brincar.
  • Um filme: A Ilha, do sul-coreano Kim Ki Duk
  • Uma maravilha: a capacidade de amor, criatividade e solidariedade das pessoas, além dos nossos defeitos.
  • Além de galego/a: bicho do mato, ghalopim (com gheada).
 
   

Bieito Landeira: «A estratégia lusófona nom é contraditória com a estratégia identitária, é antes um motor para reforçar a nossa própria identidade no mundo»

Valentim R. Fagim - Bieito Landeira morou em Camarinhas e depois nas Terras de Návia-Eu e em ambas o fijo em galego.

Desembocou no reintegracionismo sem o pretender, acha os locais sociais fundamentais na difusom da nossa estratégia para a língua e é partidário da contra-imersom.

VRF: Bieito Landeira estudou em Oviedo onde o dia a dia se desenvolvia em castelhano. Que conseqüências tivo no teu código lingüístico?

Bieito Landeira: Até os 14 anos morei em Camarinhas onde quase tudo exceto o cinema decorria em galego. Estudar, falar, pensar, sonhar, jogar, amar... Passei depois a adolescência na Veiga (Terras de Návia-Eu); tudo seguia a acontecer em galego na minha vida menos a leitura, tanto de ócio como de estudos académicos. A realidade em Uvieu (Oviedo) era já completamente em castelhano (menos coa família quando voltava a casa por férias) polo que por primeira vez na minha vida comecei a sonhar ou pensar em “bilingüe”. Fum consciente disso aos dous ou três anos de vivir aló. Porém nunca deixei de falar galego com galego-falantes.

VRF: Como foi o teu contato com a realidade do asturiano?

BL: A cabra tira ao monte e na verdade a maioria dos companheiros de geraçom com os que tinha relaçom mostravam, em maior ou menor medida, um certo compromisso social e também cultural com a sua terra.

Assim que era consciente da luita que eles levavam pola defesa da língua o “asturianu”, e como galego nom era difícil sensibilizar-se para com eles. Cheguei até a cursar (e aprovar) um curso inicial de asturiano, escolhido como matéria optativa dentro da carreira universitária que estudava, que nada tinha que ver com os idiomas, já que estudei Biologia Sanitária.

VRF: O teu contato com a nossa língua começou no seio familiar. Achas que tem mudado a fotografia sócio-lingüística nos lugares onde moraste? Em que medida?

BL: Tenho vivido em diferentes vilas ao longo dos anos e desloco-me bastante falando coa gente por causa do meu trabalho. Nas zonas rurais continuo a escutar o galego a pessoas de todas as idades. Quanto mais perto está uma vila da cidade mais castelhanizadas estám as gerações mais novas. É especialmente triste nas crianças, a naturalidade coa que aceitam o galego coma uma língua menor que só serve para ler o livro de “Conhecimento do meio” ou contar o chiste do Francês o Japonês e o Galego com o seu cam de palheiro. O perigo é que cada vez mais gente nova do rural parte para as zonas urbanas, sai falando galego e volta castelhanizada de todo. Todos, quando lhe premes no orgulho, alporiçam-se e afirmam nom ter nada contra o galego. Que eles nom querem que desapareça a língua dos seus avôs. Porém, nemhum o fala já nem na casa.

Em poucas gerações, por este caminho, o galego será completamente um idioma de museu. Nom me sinto mui otimista sobre isto, porém sim que sou muito teimoso. E continuaremos a dar que fazer e sobretudo que dizer em galego enquanto nos reste uma palavra na gorja e um pouco de ar com o que a botar fora.

VRF: A tua passagem ao reintegracionismo foi através da teoria, lendo argumentários, ou da praxe, usando o galego-português?

BL: Foi uma questom de sobrevivência lingüística, que depois fum enchendo de argumentos. Quando voltei à Pátria e saim na procura da minha língua, descobrim que o que procurava só existia em galego reintegrado (Novas, Abrente Edições, Estaleiro, AGAL, Escola Popular Galega, GalizaLivre...) ou em português através da web. A mim o mesmo me dava, aceitei o português de sempre coma uma língua irmã, e pouco a pouco fum-me enchendo de razões.

VRF: Em volta da promoçom do galego costumam haver argumentos de tipo identitário – é a nossa língua- e de tipo utilitário -abre as portas da Lusofonia. Podem conviver?

BL: Devem conviver, posto que som complementares. Eu nom sou português nem aspiro ao ser. Nem penso em português mas em galego. Ora, o galego pertence à Lusofonia assim como o castelhano é a língua de Latino-América. A estratégia lusófona nom é contraditória com a estratégia identitária, é antes um motor para reforçar a nossa própria identidade no mundo. É que na Marinha e no Ocidente Astur o plural de camiom é camiois e nom é preciso ser filólogo para ver-lhe o parecido com o camiões português. Exemplos desses há milhares aló onde se conserva o idioma de maneira mais pura. Nom pode ser doutra maneira, nom é surpresa. Foram muitos anos de convivência até que nos ergueram o muro espanholista que atualmente nos separa.

VRF: Que papel devem jogar os centros sociais na difusom da estratégia luso-brasileira para a nossa língua?

BL: Para mim a maior importância dos centros sociais é a de ser um espaço físico onde dar cabimento a pensamentos que têm mui difícil tomar forma material em nenhum outro sitio. A obra social de NovaCaixa nom costuma dar fundos para o lançamento de livros em reintegrado ou fazer palestras sobre o direito de autodeterminaçom. O perigo é que se tornem em clubes privados de independentistas, há que lutar para abrir as portas e as janelas de cada um deles, para dar-lhe a normalidade que deveria ter, que se debata fora das propostas oficiais sobre a realidade que a todos nos bate a diário. É difícil, e sei que se fam esforços neste sentido. Há que continuar a os fazer.

VRF: Por onde deve caminhar o reintegracionismo para alcançar a hegemonia social?

BL: Paciência e trabalho constante. A estratégia da tartaruga. Apoiar todo o que se faga em galego seja no galego que for (incluo aqui até as gheadas e os sesseios ademais do galego RAG) e dentro disso continuar a argumentar o porquê da nossa proposta, que no fundo é uma conclusom lógica á questom de como podo ajudar melhor a minha língua. Nós pensamos que abrindo as portas ao nosso espaço cultural natural que é a Lusofonia. Para o qual tam só é preciso uma pequena mudança ortográfica, que nom mata ninguém. Basta ler livros em galego editados em diferentes décadas do último século para ver como fomos espanholizando as nossas estruturas verbais, o nosso dicionário e mesmo a nossa ortografia. Se tudo isto se fijo de maneira “natural” também se pode fazer tam naturalmente de novo em sentido inverso (ou imerso, de imersom. Seria mais preciso dizer de contra-imersom).

VRF: Que visom tinhas da AGAL antes de te associares e que esperas da associaçom nos próximos anos?

BL: Um coletivo que trabalhava por permitir-nos viver um pouco no nosso idioma e por obter cada vez maior espaço vital para nós, os galego falantes. Vou-me permitir uma pequeninha digressom. Sempre estamos e nos estám a dizer galego-falantes, penso que haveria também que reforçar que esses mesmos galego-falantes somos à sua vez também galego-cantantes, galego-insultantes, galego-denunciantes, galego-doentes, galego-amantes, galego-leitores, galego-cinéfilos... É longo de escrever e de dizer, nom proponho fazê-lo sempre, porém sim recordá-lo de quando em vez para que nom se esqueçam de que nom nos imos conformar com que nos deixem falar a nossa língua arredor do lume como nos Séculos Escuros ou baixo a ditadura de Franco. Queremos viver em galego.

O que espero, pola minha parte, é poder pôr o meu grão de areia em que a AGAL continue por muitos anos alcançando os seus objetivos. Ainda que seja aos pouquinhos.

Conhecendo Bieito Landeira

  • Um sítio web: Consulto a diário GalizaLivre e Diário Liberdade.
  • Um invento: A câmara fotográfica. Gosto muito da fotografia artística. Quedo pasmado diante duma foto, em especial de estâncias vazias ou edifícios abandonados.
  • Uma música: Sou bastante eclético, vou dizer melhor uma que nom tolero; a música comercial das rádio-fórmulas!
  • Um livro: A Fuxida, de X. M. Martínez Oca
  • Um facto histórico: A Revoluçom cubana.
  • Um prato na mesa: Dam-se-me bem umas “verdinas” (favas pequeninhas de cor verde) com berberechos e nécoras.
  • Um desporto: O ciclismo. Nom a nível profissional mas coma praticante. Esse sofrimento em silêncio que acarreta é realmente depurativo. Catártico!
  • Um filme: Tasio, de Montxo Armendáriz. Ultimamente ando com a teima ruralista como resposta integral à nossa realidade no mundo graças aos trabalhos editoriais da Escola Popular Galega (“Recessom ou Colapso”, “Arredismo e Tradiciom”, “A defesa da terra”) Este filme é um contributo mais dentro desse argumentário. É tam galega...
  • Uma maravilha: Escolher uma pedra em qualquer lugar afastado da Costa da Morte e sentar-se a admirar a imensidade do mar.
  • Além de galego/a: Animal. Ia dizer pessoa ou humano, porém animal parece-me que me situa mais em equilíbrio com a terra. Algo que deveríamos recuperar quanto antes melhor, e que boa parte do humano da nossa condiçom nom nos deixa.


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Devido à «ampla satisfação», os cursos aPorto continuarão em 2012

Valentim R. Fagim - A equipa organizadora dos aPorto, formada por membros da AGAL e de Andaime, bem como a professora Filipa Fava, responsável da coordenação, realizou vários reuniões para analisar o aPorto 2011.

A edição deste ano decorreu nas quatro semanas de agosto com um total de 10 aPortos (frente aos 4 do ano passado) e 99 alunos/as (frente aos 23 de 2010).

Para além do sucesso da inscrição, os testes de avaliação entregues polos alunos e alunas evidenciam um alto grau de satisfação quer com as aulas, centradas na expressão oral, quer com as atividades sócio-culturais. Respeito às aulas, os alunos e alunas destacaram a simpatia e profissionalidade das docentes, duas delas portuguesas e uma cabo-verdiana.

O maior atrativo das atividades sócio-culturais foi o facto de serem eventos dificilmente realizáveis em qualidade de visitantes ou turistas. Houve um percurso histórico medieval com o Prof. Doutor Luís Amara, tertúlias literárias, um percurso eco-social, visitou-se uma escola ocupada e dinamizada, dançou-se e comeu-se numa festa angolana, um workshop de música...

De resto, o ambiente criado no interior das turmas e entre as turmas foi intenso e deu lugar a enraizar novos círculos de amizade. Foram numerosas as promessas de regressar no ano vindouro.

Por sua parte, a equipa organizadora dos aPorto manifesta a sua máxima satisfação por um projeto que tem servido para dar a conhecer mais profundamente o Porto, Portugal e a língua e a história que nos une. Em 2012, mais.

 

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