Associaçom Galega da Língua

Roi Vilela, engenheiro: «As cousas sérias entram melhor contadas com graça»

PGL- Roi Vilela é engenheiro, pertence a um clam galeguista numeroso e brioso. A letra Q ajudou-o na sua tomada de consciência reintegracionista, fijo o seletivo em galego-português e acha que a AGAL é melhor que um grupo de terapia.

Roi Vilela é irmao do Bruno e do Bernal, sendo os três sócios da AGAL e já entrevistados nesta secçom. Haveria que somar ainda mais membros do clam, como Joám Facal, Camilo e Alba Nogueira. Que implica nascer numa família extensa tam virada para a Galiza?

De criança pensas que os diferentes som eles (“mamá, na escola ao leite chamam-lhe leche”) e depois no ambiente urbano onde nos criamos- constatas que estás em minoria, mas do lado dos “bons”, que sempre reconforta.  Suponho que nom só pola língua, mas guardo um recordo de um mundo azul em galego -com a família, os veraos na aldeia...- e outro mais cinzento (com algum caso de “bullying” por falar galego) na escola; nalgum momento passei a falar castelhano fora da casa e sem dúvida fôrom as crenças e as atitudes que via nos meus maiores as que me levárom a “regressar” ao galego ao pouco de começar o instituto.

Que lembras desses anos?

Lembro o muito que me custou voltar ao monoliguismo (para o meu assombro já que nunca deixara de falar galego), mas também o gratificante que era a reafirmaçom e o gosto de ver quanta gente -inesperada- respondia na tua língua quando te diriges a eles em galego.

Como foi a tua passagem para o galego-português? Que facilitou o percurso?

No instituto educavam-nos na normativa de mínimos ou de encontro, o que despertou o meu interesse por ver com que havia que encontrar-se.  Eu gosto de crer que caim da burra um dia que a professora, explicando o alfabeto, nos dixo “ ...e esta letra (q) é o que, que eu o cu nom o ensino na escola”, mas o determinante foi um manual de J.M. Montero Santalha que me ofereceu meu tio Joám e continha um argumentário definitivo junto de exemplos práticos para mudar a escrita sem atrapalhar-se. Também os companheiros dos “Colectivos da Mocidade de Esquerda Galega” da Corunha, os discos de José Afonso e cair na conta do fácil que era de repente ler em português.

No seletivo fizeste os exames em galego-português, para arrepio da tua mãe, costume que continuaste na Universidade. Deu para histórias interessantes?

Levava já todo o ano escrevendo em galego-português e depois de ter sido “iluminado” nom podia mudar por medo -nem próprio nem dos meus pais- e foi bem (boas qualificações nas matérias mais trabalhadas, nom tanto nas que prepara menos e devim dar com um reintegrata a corregir o meu exame de língua porque me deu um 10, e com certeza nom seria para tanto: companheiros, a discriminaçom positiva também existe para nós!).

Na universidade continuei a fazer sofrer os professores de fora -com algum mesmo cheguei a discutir sobre etimologia- mas a maioria optavam por nom encerelhar-se comigo em discusons; serviu também para deixar para a posteridade um monte de apontamentos -limpinhos e com boa letra- acugulados de lh/nh que me consta que ainda circulárom alguns anos.  Realmente, nom podo dizer que na Universidade tivesse nenhum problema pola grafia, apesar de, em toda a carreira, só tiver um professor que lecionasse  em galego (umha quadrimestral, que país!).

Já no trabalho, numha transacional do peixe com fábricas e barcos por todo o mundo, voltei à normativa de mínimos com a exceçom de quando escrevia a companheiros do grupo que trabalhavam a sul do Minho.  Algum deles dixo-me depois que, nos anos que levava na companhia, nunca ninguém da matriz (da Galiza) lhe tinha escrito antes em português, que manda nabo!.

Sentes paixão pola música, a leitura e o cinema. Em que ordem?

Até ter filhos era mais de música -inclusive de ir a vários concertos por semana (eram -umha outra vez- os anos bons de Vigo), mas agora é mais cousa de apampar com algum filme ou série diante da tele aproveitando -ehem- as facilidades que dá a Internet para ver cousas diferentes.  Desfruto muito com os três, mas com menos tempo que antes.

Por onde achas que deve caminhar o reintegracionismo para progredir socialmente?

Eu creio que vamos no bom caminho: deve fazer-se visível sem tentar impor-se, salientar que mudar a grafia nom implica fazê-lo com a forma de falar, que em todos os idiomas há distintas variedades ou sotaques e isso nada mais é o que nos diferencia dos brasileiros ou portugueses, do mesmo modo que nom é o mesmo o castelhano de Jaén que o de Buenos Aires, ou o inglês dos escoceses e o dos ianques.  As pessoas têm que saber que é umha opçom para somar, que abre portas a outras sociedades, a outras culturas (a mais possibilidades de trabalho...).

Que visão tinhas da AGAL? Por que te tornaste sócio e que esperas da associação?

Vejo-vos/nos como o referente reintegracionista de sempre e seguramente o que deveria perguntar-me é porque tardei tanto em fazer-me sócio.  O que me acabou de animar é que percebo, ademais de muito trabalho, alegria pola vida!  Sodes melhores que um grupo de terapia, fazedes os cantos mais divertidos e as melhores encenações, e penso que as cousas sérias entram melhor contadas com graça (se o “cliente” é o povo galego, ajuda que nos tenham simpatia/empatia).

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2020?

Com mais galegos usando a língua de cotio, com a possibilidade de desenvolver com normalidade qualquer atividade em galego e sem que os castelhano-falantes nos mirem raro.

 

Conhecendo Roi

  • Um sítio web: depende do dia...imprensa generalista, o blog do Pereiro... e com certeza o do meu curmao Iago: http://bailarsobrearquitectura.wordpress.com/
  • Um invento: a música (ou os reprodutores de música que a achegam a nós).
  • Umha música: o Wicked de Jeff Dahl acelera o pulso a qualquer um.
  • Um livro: Eu sou de novela mas não é fácil... desfrutei muito com A saga/fuga de JB do Torrente Ballester -tinha pinta de calhamaço e é surrealista, mesmo pop-.
  • Um facto histórico: As mobilizações contra os verteduras na Fossa Atlântica, era um neno mas recordo-o como algo Transcendente.
  • Um prato na mesa:para o inverno um bife com pataca cozida e grelos, no verao peixe frito e salada (se é o côngrio em farinha de milho do tio Ramom, melhor).
  • Um desporto: o que mais pratiquei é a nataçom (os vícios solitários som mais doados de manter no tempo), mas com os filhos toca mais futebol ou brilé (jogo do mata).
  • Um filme: Johnny Guitar, ademais de ser um grande filme, sendo esquerdeiro encantara-me aquilo de “nunca dês a mao a um tirador canhoto”
  • Umha maravilha:Toba e o seu contorno (a família, a Costa da Morte, o Pindo...).
  • Além de galego/a: de esquerdas!
 
 

Fest-AGAL n.º 4: Multiplica X100 o galego

PGL - Por quarto ano consecutivo, a Associaçom Galega da Língua (AGAL) distribui gratuitamente no Dia Nacional da Galiza umha publicaçom de 24 páginas, das quais 18 em cor: o Fest-AGAL, já um clássico. Neste ano, aliás, a tiragem incrementou de 3.000 para 4.000 exemplares, para ninguém ficar sem o seu!

A seguir, reproduzimos os conteúdos desta publicaçom, entre as quais salientam entrevistas e resenhas das novidades da ATRAVÉS|EDITORA, mas nom só.

FEST-AGAL n.º 4

1. Capa.

2. Saudaçom de Miguel R. Penas, presidente da AGAL.

3. Galego X100.

4. Crónica da manifestaçom do 17-M

5. Resumo das invertenções dos grupos parlamentares na tramitaçom da ILP Paz-Andrade

6. Resenha de Falar a Ganhar

7. Publicidade

8. Renovaçom do Conselho da AGAL

9. Entrega do Prémio Meendinho à AGAL

10-11. Ciranda, à volta do português

12. Resenhas de O Crânio de Castelão e Quem fala a minha língua?

13. Parcerias da AGAL com meios de comunicaçom e representaçom institucional da associaçom

14. Entrevista a Teresa Moure, autora de Eu violei o lobo feroz

15. Publicidade

16. Exposiçom de AGAL e BD Banda sobre as Cantigas de Santa Maria / Crónica da manifestaçom em defesa da língua do 27-J

17. Mapa de casas de turismo rural na Galiza (publicidade)

18. Mapa de livrarias da Galiza (publicidade)

19. Consultório lingüístico da AGAL

20. Entrevistas para apresentar a plataforma Falarmos.com

21. Mapa de lojas de produtos de consumo ecológico da Galiza (publicidade)

22. Novidades da ATRAVÉS | EDITORA

23. Teste de soberania (lazer)

24. Contra-capa

 

+ Ligações relacionadas:

 
 

Dia Nacional da Galiza: AGAL terá um grande posto e lançamento de novidades editoriais

PGL - Por quarto ano consecutivo, a Associaçom Galega da Língua (AGAL) participará nos festejos do Dia da Pátria Galega com um grande posto instalado na chamada "Galeria das Letras", na seqüência do Festigal, que se organiza anualmente no Campus Vida de Santiago de Compostela. As pessoas que se aproximarem do posto agálico encontrarám novidades editoriais, camisolas reivindicativas, folhas informativas sobre atividades da associaçom... e poderám levar gratuitamente umha publicaçom gratuita de 24 páginas, com a maioria delas a cor: o FEST-AGAL, já um clássico.

Quanto às novidades da ATRAVÉS | EDITORA, o público poderá conhecer de primeira mão trabalhos editados este mesmo ano e que já fôrom apresentados publicamente, como O Modelo Lexical Galego (Comissom Lingüística da AGAL), Janela Aberta (José Alberte Corral), Sete ch'iens a um posso (Sílvia Capon), Outra Vida (Mário Herrero), ou Galego, português, galego-português? (coordenado por Carlos Taibo e Arturo de Nieves). Ainda, será a estreia de novos trabalhos, como O Crânio de Castelão (coordenado por Carlos Quiroga), Falar a Ganhar (coordenado por Manuel César Vila), Eu violei o lobo feroz (Teresa Moure) e Quem fala a minha língua? (coordenado por Xemma Fernández e Valentim Fagim).

Precisamente, os dous últimos títulos serám lançados na Galeria das Letras do Festigal, no dia 25. Às 19h45, Teresa Moure apresentará seu primeiro poemário, Eu violei o lobo feroz. Já às 21h15 terá lugar o ato de lançamento de Quem fala a minha língua?, apresentado por Valentim Fagim e Xemma Fernández, da ATRAVÉS, e com intervenções de Jairo Dorado e Carmen Alén, dous dos autores.

Quarto FEST-AGAL

Como já aconteceu nos três anos anteriores, a AGAL chega a este evento com mais um número do gratuita FEST-AGAL, o quarto já. A seguir, indicamos os conteúdos desta publicaçom, com tiragem de 4.000 exemplares e 24 páginas, a maioria das quais a cor.

 

FEST-AGAL n.º 4

1. Capa.

2. Saudaçom de Miguel R. Penas, presidente da AGAL.

3. Galego X100.

4. Crónica da manifestaçom do 17-M

5. Resumo das invertenções dos grupos parlamentares na tramitaçom da ILP Paz-Andrade

6. Resenha de Falar a Ganhar

7. Publicidade

8. Renovaçom do Conselho da AGAL

9. Entrega do Prémio Meendinho à AGAL

10-11. Ciranda, à volta do português

12. Resenhas de O Crânio de Castelão e Quem fala a minha língua?

13. Parcerias da AGAL com meios de comunicaçom e representaçom institucional da associaçom

14. Entrevista a Teresa Moure, autora de Eu violei o lobo feroz

15. Publicidade

16. Exposiçom de AGAL e BD Banda sobre as Cantigas de Santa Maria / Crónica da manifestaçom em defesa da língua do 27-J

17. Mapa de casas de turismo rural na Galiza (publicidade)

18. Mapa de livrarias da Galiza (publicidade)

19. Consultório lingüístico da AGAL

20. Entrevistas para apresentar a plataforma Falarmos.com

21. Mapa de lojas de produtos de consumo ecológico da Galiza (publicidade)

22. Novidades da ATRAVÉS | EDITORA

23. Teste de soberania (lazer)

24. Contra-capa

 
   

AGAL assinou um novo convénio com a Diputación de Lugo para continuar a desenvolver Ops! em Lugo

PGL - AGAL assinou um novo convénio com o delegado de Cultura e Turismo da Deputación de Lugo, o nacionalista Mario Outeiro. Um convénio de colaboração para levar mais um ano os Ops! a centros de ensino lugueses.

Graças a este convénio de colaboração, polo que a Área de Cultura da Deputación achega 10.000 euros, vão-se desenvolver estes ateliês nos centros de ensino da província. Em 2012 já se realizaram 52 ateliês Ops! em 17 centros escolares com grande sucesso e aproveitamento.

Para Mario Outeiro, este programa é muito importante por diversos motivos, já que «a maioria dos e das estudantes, quando finalizam a educação obrigatória, desconhecem que o português pode formar parte do seu curriculum vitae e a utilidade de conhecê-lo, tanto no âmbito formativo como laboral. Ademais, através destes ateliês põe-se em valor o galego, fazendo ver a sua potencialidade e contrarrestando os preconceitos que o infravaloram». Ademais, há que ser conscientes de que o plurilinguismo vai ter cada vez mais valor, como consequência da globalização e da sua promoção por parte das instituições políticas (a começar pola União Europeia), e em épocas de crise é preciso ampliar o mais possível a formação e afinar onde depositar a atenção para investir recursos.

 
 

Arturo de Nieves, neofalante e sociólogo

PGL - Arturo de Nieves Gutiérrez de Rubalcava é neofalante, sociólogo interessado em pesquisar assuntos sobre a língua, a identidade coletiva ou o comportamento eleitoral na Galiza contemporânea. Recentemente acaba de publicar, em colaboração com Carlos Taibo, o estudo Galego, português, galego-português?

Nascido na Corunha, neofalante e dum contexto familiar e social onde o galego não existia em modo algum, com a excepção de ser a língua empregue por algum professor nalgumas poucas matérias durante o ensino secundário. Como foi o passo?

Mais doado do que poderia parecer num contexto como esse. Sabemos do tópico que nos diz que a Crunha é uma cidade de senhoritos e é certo que essa cidade existe, mas também está aí, com muita força, a sua antítese, que é a da Crunha das Irmandades, do Bravu, da Cova Céltica... No meu ambiente familiar e social coexistiam as duas versões da Crunha. Mas, quando a espanholização é completa e a Galiza desaparece, um pode perguntar-se: e que ganhamos com isto? Bom, eu creio que as os ganhos são, para o conjunto da população, escassos e de má qualidade. Acho bem mais interessante o universo que podemos construir a partir de nós mesmos: da nossa história, da nossa tradição, dos nossos mitos... Ademais, fugindo dos academicismos, nós, o meu grupo de amigos, com dezoito anos –que é quando comecei a falar galego com regularidade–, éramos uns punks, uns grunges que bouravam nos instrumentos num local que era uma casa em ruínas. Chegávamos a ele a lume de biqueira para ver quem apandava com ligar as luzes, atividade que comportava um risco real de morte por eletrocussão.

Porém pertencíamos à mesminha classe média que se passeava relutante pola rua real, como se fossem aristocratas isabelinos, e descobrir que esta gentinha se escandalizava mais por nos ouvir falar galego do que por passear um tijolo a modo de cão, foi sociologicamente interessante. Logo, uma vez mudas de língua, abre-se um universo novo e apaixonante que, por abraiante que pareça, sempre estivera aí, oculto. Descobres que companheiros teus de toda a vida falavam um galego perfeito na casa, sendo gente que durante mais de um decénio, no liceu, na rua, não ouviras falar nunca em galego. Aí começas a ver que a cousa tinha mais profundidade do que inicialmente parecia: lês, falas, estudas... e já não podes recuar, pois tomas consciência duma descomunal injustiça social que tinhas diante dos focinhos, e ti nos viosbardos... Se albergares humanidade e tomas consciência disso, é difícil optar por não fazeres nada. Mas por não fugir da pergunta direi que, previamente a esse ponto de inflexão que foi começar a empregar a língua com regularidade, é certo que existia uma reflexão galeguista, partilhada por uma parte significativa do meu entorno e isto, com certeza, foi o que propiciou a mudança. Hoje penso que o galeguismo, na Galiza, é simplesmente um sinónimo de civilização.

Quando descobriste que o galego era mais do que te ensinava a escola? Lembras os teus debates internos e externos?

Lembro muito bem, sim; não há tanto disso. Lembro os debates quando andávamos na música, há mais de dez anos. Cantávamos em galego, eu fazia as letras, e uma pessoa perguntara se íamos escrever com “nh” e essas cousas. A minha reação fora taxativa: nós cantamos em galego, não em português... ou algum razoamento semelhante. Enfim, o sistema educativo era categórico nesta questão: galego e português eram línguas diferentes, assim que por que eu ou qualquer pessoa que passara por ele ia pensar o contrário? Considero que são necessários outros inputs para além da informação subministrada na escola. Podes achar na rua, nos livros, em conversas... Eu demorei até 2007, penso. Naquele ano eu estava a estudar sociologia na Escócia, onde, a propósito, dei com um plano de estudos muito bem adaptado para qualquer galego com interesse na matéria, pois ministravam conteúdos específicos sobre identidade coletiva, cultura nacional, nacionalismo, relação entre classe e nação... Aquele conhecimento era o que eu levava anos procurando, o motivo polo qual começara a cursar estudos em Sociologia, assim que fiquei pampo e aprendi muito. Ali fiz um trabalho de fim de grau sobre identidade nacional, comparando os casos galego e escocês. Para isto tive que ler sócio-linguística galega e descobri os textos do Celso Álvarez Cáccamo, que são um cúmulo de verdades. O seu é um trabalho brilhante, produto de muitos anos de reflexões e conhecimento acumulado; não conheço nenhuma crítica convincente ao esquema sociolinguístico que ele formula, polo qual o honesto foi aceitá-lo e mesmo ter a honra de trabalhar sobre ele. Isso é a ciência.

Acaba de sair do prelo “Galego, português, galego-português. Falam 56 figuras da cultura galega”, do Carlos Taibo e teu. Este livro compõe-se  de entrevistas feitas a pessoas da cultura galega. O tema é a condição da ortografia oficial e as relações entre a Galiza e o mundo lusófono. Qual é o objetivo deste livro?

Bom, acho que o livro pode ser útil para diferentes propósitos, mas eu destacaria um deles sobre os demais, que é o da normalização do debate. A pouco que entrares no reintegracionismo/lusismo, ou como se quiser chamar a prática de escrever o galego de acordo com a sua ortografia internacional, produz-se um processo de revelação semelhante ao acontecido quando assumes a tua condição de neofalante. De súpeto aparece um mundo novo que, porém, sempre estivera aí, ainda que desta volta a descoberta seja mais desagradável. Construíram-se verdadeiros ódios entre pessoas que andavam na mesma cousa, o galeguismo, por causa de quatro letras. À margem doutras considerações, acho que não há qualquer hipótese de construção social –nacional, cultural, simbólica...– enquanto não construirmos uma esfera pública civilizada. São necessárias toneladas de debate público, honesto e livre de paternalismos. Cumpre abandonar esquemas do tipo “primeiro acordamos entre nós –galeguistas– e depois batemos na sociedade”, pois acho que encerram uma profunda concepção elitista do social. Eu sinto-me parte da sociedade, odeio o sectarismo, e devemos comunicar as nossas posições com toda a gente à que lhe podamos fazer chegar as nossas propostas e, opino, debatermos entre nós com as portas bem abertas. O debate normativo, para mim, vem tendo lugar nos últimos decénios com um espírito contrário a esta ideia; periodicamente certifica-se a sua superação, personaliza-se, emprega-se a desqualificação pessoal, etc. Um horror. Por isso este livro procura colocar argumentos por cima da mesa, abrir as portas, romper categorias simplificadoras como “isolacionsitas”. Nele a gente fala, expõe argumentos de forma honesta e isso é uma condição sine qua non para normalizar qualquer debate, já não digamos para normalizar um país.

Qual foi o critério de escolha dos entrevistados/as? Todas as pessoas com as que contatasteis acederam à entrevista?

O primeiro critério foi o de participar disso que podemos chamar o “mundo cultural galego”. Gostávamos de recolher a opinião de escritoras, editores, ativistas, políticos, artistas, professores, catedráticas, atrizes, etc. Excluímos as pessoas cuja significação social ficasse especialmente ligada ao reintegracionismo/lusismo, pois o seu parecer é bem conhecido. Apresenta-se um leque bastante amplo das visões da língua existentes na Galiza. Como pessoa que emprega o Acordo Ortográfico da lusofonia para escrever o galego, é uma satisfação comprovar que não existe uma máquina apisoadora ideológica contra o reintegracionismo e que, se houve caça às bruxas, esta não se produziu porque as nossas posições se vejam como carentes de sentido por uma imensa maioria do mundo cultural deste país.

Penso que podemos adiantar a que, para mim, é a mais importante conclusão do livro: não existe nenhuma oposição monolítica entre isolacionismo e reintegracionismo. É um truque de prestidigitador para consumar a divisão do campo cultural galego, pois o que há é um continuum ortográfico no qual as exclusões deveriam fazer parte só de distopias literárias; onde colocar o limite da exclusão? No uso do –bel? Do –vel? Do “nh”? Do “ç”? Em qualquer caso será uma decisão com um alto grau de arbitrariedade e ilustrará uma clara vocação autoritária. A realidade diz que as exclusões persistem, que escrever com “ç, nh, lh, -ão...” dá muitos problemas de diversa índole –incluindo a que para mim é mais grave, que é perseguição destas posições através dos conteúdos do sistema educativo público– mas, reitero, do livro se conclui que isto não deriva duma hegemonia ideológica “isolacionista”. Haverá outros fatores mais prosaicos que expliquem essas práticas de exclusão, práticas que qualquer democrata deveria detestar.

Sobre a resposta que tivemos por parte das pessoas inquiridas... só dizer que houve uma ampla e variada casuística. Dentre aquelas que finalmente não participam, pois houve gente que nunca chegou a responder, gente que se declarou ignorante na matéria, gente que explicou não dispor do tempo preciso... Penso que enviamos 110 convites e, finalmente, obtivemos 56 respostas e creio que está bem assim, pois se tivessem respondido todas as pessoas inquiridas estaríamos a falar dum livro talvez demasiado longo e que dificilmente fosse contribuir com novos discursos sobre a língua.

Como foi a experiência?

A experiência foi sem dúvida muito boa. Ofereceu-me a oportunidade de trabalhar com o Carlos, a quem já admirava a nível inteletual e agora posso dizer que também a nível humano. Fazer um trabalho deste tipo entre duas pessoas amiúde se pode tornar difícil: disparidade de critérios, o peso dos egos... Mas neste caso nada disso apareceu, penso que ambos estivemos muito cómodos durante todo o processo. Prova disso é que já voltamos a colaborar neste ano, com uma palestra que organizamos na Faculdade de Sociologia da UdC, em que também participou o Celso e que, se tudo for bem, poderemos ver editada junto com algum conteúdo adicional dentro de não muito.

Que linha achas que deve seguir a estratégia reintegracionista para avançar em direção à hegemonia social? Que se está a fazer bem? Que é melhorável?

Penso que se está a fazer um grande esforço por socializar a mensagem da unidade da língua e isso é a nossa melhor garantia de sucesso. Ainda persiste essa visão dos reintegratas como pouco menos que terroristas, mas a gente não é parva e, quando escuta argumentos, a reação sempre é positiva ou, polo menos, na minha experiência sempre foi assim. Portanto socializar, comunicar, é objetivo número um e penso que isso se está a fazer bem; derrubar os tópicos com a palavra. Que é melhorável? Bom, sempre se pode aspirar a conseguir uma maior difusão.

Que visão tinhas da AGAL, que te motivou a te associar e que esperas da associação?

A visão que tinha da AGAL é a dum motor social a comunicar a ideia da unidade da língua. Vinha atrasando a decisão de me associar desde havia já alguns anos e pensei que já chegara o momento. O que espero da associação é que continue a trabalhar com a mesma força e entusiasmo que vem demonstrando nos últimos anos.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2020?

Gostaria que em 2020 pudéssemos dizer que a tendência de substituição linguística do galego polo espanhol se começou a inverter. Que há um maior uso do galego entre as camadas mais jovens da população, derivado do fato de o galego começar a ser uma língua socialmente bem valorada.

 

Conhecendo Arturo de Nieves

  • Um sítio web: O PGL.
  • Um invento: A imprensa.
  • Umha música: Três: O Réquiem em re menor, de Mozart (e Süssmayr, que também choiou nele), as Cantigas de Santa Maria, de Afonso X e o MellonCollieandtheInfiniteSadness, dos SmashingPumpkins. Bom, e muitas mais... sou melómano quase patológico.
  • Um livro: Contos da Coruña, do Xurxo Souto.
  • Um facto histórico: A Revolução francesa.
  • Um prato na mesa: Uma centola bem cheia, em boa companha e com alvarinho, é claro. E, agora que o penso, creio que não me prestaria nada se a tivesse que comer eu só, é um ritual total.
  • Um desporto: A escalada desportiva.
  • Um filme: Couraçado Potemkin.
  • Umha maravilha: O amor.
  • Além de galego/a: Escuteiro.
 
   

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