Marco Martínez, engenheiro, gaiteiro e novo sócio da AGAL

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PGL – Nesta semana apresentamos novo sócio, Marco Martínez, um jovem engenheiro de 27 anos que trabalha nas Pontes. O Marco é um desses galegos internacionais que depois de ter morado em países como a Suíça, a Itália ou a Escócia, volve ao País com a conviçom clara de que a aposta certa do galego é o reintegracionismo.

PGL – Caro Marco, para que os leitores do PGL te conheçam, podes falar-nos um pouco de ti?

Bom, pois nascim há 27 anos em Basileia e lá vivim 7 anos sendo umha época curiosa, pois na casa falava-se  galego e ia a um infantário onde a língua do ensino era o italiano, seica tinha bastante graça pois mesclava as duas línguas ao falar. Quando se é pequeno nom te dás conta, mas absorves como umha esponja todo o que há ao redor teu e apanhas os sotaques próprios das línguas com muita maior naturalidade.

Com 7 anos tornei para concelho de Melom com a minha nai (meu pai ia e vinha nas férias) e nós voltávamos cada Verám alô para estarmos juntos.

Depois de rematar os estudos médios no Ribeiro, aos 18 anos fum para Vigo para fazer engenharia industrial e agora mesmo ando numha bolsa de trabalho nas Pontes.

PGL – Como foi o teu passo para a estratégia galego-luso-brasileira. Houvo algum Cicerone?

Até a Universidade nom me pugera a pensar que galego e português podiam partilhar a mesma norma ortográfica, sim que me dava conta de que eram bastante compreensíveis entre elas, mas nom reparara no código escrito.

Foi alô em Vigo, onde um amigo tomava as notas das aulas usando a norma AGAL e chamou-me a atençom esse detalhe, de feito até lhe dissera “caralho, tomas os ditados em português”, ele respostou “nom, é outra norma do galego para a escrita”.

Também, nas aulas de gaita que ia à Caniça, o tutor usava e usa esta norma com os seus alunos, polo que criou em mim umha pequena curiosidade de saber. Mas foi durante a minha estância de Erasmus em Itália, quando quigem aprofundar mais no tema, saber a origem desta norma e porquê era aplicável para o galego. Naquele tempo tivem bastante tempo para o lazer, polo que rebusquei e lim os artigos sobre o reintegracionismo que havia na rede e fum parar ao antigo portal da língua e pouco a pouco fum madurando a ideia e convencendo de que era umha estratégia muito mais inteligente a longo prazo para a língua que a actual norma isolacionista.

Creio que a norma isolacionista fracassou no seu intento de atrair mais utentes de galego entre as pessoas castelám-falantes e fijo que a perda de galego-falantes fosse muito mais alta, seguramente as políticas de normalizaçom nom ajudárom ao propósito, mas umha das possíveis causas poda estar na própria norma escrita.

PGL – Que visom tinhas da AGAL, que te motivou a te associares e que esperas da associaçom?

Para ser sinceros, nom me soava muito a AGAL, até que me pugem a ler sobre os postulados que propunham. Ao princípio pensava que o reintegracionismo e a sua luita contra a norma isolacionista, parecia-me umha guerra de desgaste que ao final prejudicava e dividia o galego. Mas a curiosidade em mim fijo que me quitasse os preconceitos e me pugesse a sério a ler e reflectir sobre esta estratégia.

Associar-me foi um passo lógico, penso que há que contribuir com as causas que pensas que som coerentes segundo o teu pensamento, polo que queria polo menos contribuir, ainda que fosse só economicamente com a AGAL. Do portal o que mais me impressionou foi o e-estraviz, sem dúvida um trabalho titânico.

O que espero dela é que continue na linha de ser pedagógica, que continue a informar sobre outra maneira de ver a nossa língua na escrita, as vantagens que tem para o galego estar dentro desse vector dos países de língua portuguesa.

Também que a informaçom esteja mais acessível, creio que o portal novo tem umha muito boa imagem, e muito mais dinâmica e com diversidade de notícias, mas falta uma secçom clara explicando os porquês do reintegracionismo, com os documentos associados explicando as teses. Creio que neste aspecto o velho portal estava muito melhor focalizado nesta tarefa.

PGL - Qual seria em tua opiniom a melhor forma de divulgar a estratégia luso-brasileira para a língua nos ambientes onde desenvolves a tua vida profissional?

No âmbito académico acho em falta mais manuais em língua portuguesa, hoje por hoje, vás à biblioteca e no âmbito da engenharia atopas mais livros em francês que em galego ou português, o qual dá mostra da miopia em que nos movemos; polo que tés que recorrer a manuais casteláns e ingleses, com a conseguinte perda dos tecnicismos próprios da profissom na tua língua, o que representa um handicap na hora de escrever documentaçom técnica em galego.

Para umha empresa, obviamente umha norma comum para ambas as línguas, só pode trazer vantagens, pois além de comunicar-te com os galegos, podes usá-la também para comunicar-te com 260 milhons de pessoas, e nunca sabes quem te pode estar a ver para comprar um produto ou para oferecer um serviço. Suponho que será um dos argumentos polos que o Brasil e Portugal unifiquem as suas respectivas normas, para fazer mais singela a comunicaçom escrita.

É comum que muitas empresas que produzem para a península ibérica costumem etiquetar em castelám e português nas suas embalagens. Creio que para muitos empresários (que nom tenham só posto o seu olhar em Madrid) veriam com bons olhos umha normativa mais achegada ao nosso sistema linguístico natural.

Para um técnico, além de ter conhecimentos na sua área, a comunicaçom internacional continua a ser maioritariamente em inglês, mas saber mais línguas sempre é um complemento a maiores, e no nosso caso é umha vantagem para as empresas, pois tés a possibilidade de comunicar-te com duas comunidades de fala (hispana e lusa) que som um grande mercado no mundo.

PGL – Há um tempo, viveche na Itália mercê a umha bolsa de estudos. Lá, o galego tivo algumha utilidade para ti?

Vivim sim, foi umha boa época, pois intentei aproveitar o tempo tanto nos estudos, como conhecendo gente e visitando o país.

Lá conhecim umhas portuguesas minhotas muito simpáticas e falávamos em galego e das diferenças que havia. Comentavam-me que o sotaque galego tinha certo parecido ao que fala a gente velha dos concelhos do norte do Portugal, e que a gente nova por influências da escola e a televisom perdiam parte dessa musiquinha. De vez, botavam algumhas pestes sobre os de Lisboa (e o seu português), suponho que será umha cousa parecida com o que se passa na França a respeito dos de Paris; que pensam que só é um “correcto” francês o que se fala na zona da Île-de-France.

Nom via tampouco grandes problemas de comunicaçom entre nós, às vezes, algumha palavra ou expressom típica que desconheces o significado. Também era curioso ver alguns galeg@s castelám-falantes empregar o galego para falar com os portugueses.

PGL – Aparte de nascer na Suíça, viveche na Escócia, nom é?

Ao acabar o curso, fum a Edimburgo. Queria ir a um sítio de fala inglesa para melhorar o meu nível de inglês e para trabalhar. A Escócia sempre me atraiu tanto pola sua história como pola sua música tradicional. Lá morei uns meses e sempre te atopas com personagens e anedotas curiosas.

Falando em inglês, conhecias gente do Brasil, e mudava a conversa para o galego. Entom saltavam “olha, mas você está a falar português?” e nom davam crédito a que na Espanha houvesse umha zona onde se falasse umha língua tam próxima ao que eles percebiam como português.

Também te atopavas casos contrários, portugueses que se surpreendiam da quantidade de palavras comuns que tínhamos como “praia ou chisqueiro” mas nom pensavam que fosse a mesma língua.

Com respeito à língua inglesa, na Escócia ainda que falem inglês tenhem um sotaque diferente, como algumhas zonas da Inglaterra a respeito do “padrão” da BBC. O sotaque de Glasgow é bastante difícil de perceber para um inglês ou americano mas ninguém pom em dúvida que isso nom seja “inglês”, esta mesma analogia poderíamos aplicá-la a galego e lisboeta, nom é?

Viajar fora sempre vês as cousas doutros pontos de vista, por isso quando tornei, decidím fazer-me sócio do AGAL.

PGL – Recentemente tivem contacto com várias pessoas que defendem o reintegracionismo mas, na escrita, nom dam o passo para a norma galego-portuguesa. O que lhes recomendarias, tu?

Eu nom me vejo muito capacitado para dar este tipo de conselhos pois ainda som um novato na escrita; cada um tem o seu ritmo e a sua maneira de aprendizagem, escrever em galego-português é questom de pôr um pouco de vontade, pois ninguém nasce aprendido.

Eu passo-me a cotio a ver as notícias do portal, e ler algo de português (livros ou imprensa electrónica). Quando tenho algo de tempo livre, boto-lhe um olho ao “Manual de iniciaçom da língua galega” ou ao “Estudo Crítico”.  Também ao novo livro do Valentim “Do ñ para o nh” será umha boa escolha de formaçom.

Ah, e o dicionário e-estraviz, que é onde consulto as minhas dúvidas do galego (tanto agálico como isolacionista). Continuo dizendo que é umha maravilha, os meus parabéns tanto para Estraviz como para todas as pessoas implicadas nesse projecto.

PGL – Muito obrigado Marco, há algo mais que queiras apontar para os leitores do PGL?

Creio que estamos num momento delicado para a nossa língua; para umha pessoa que vive no rural, o galego é a língua de comunicaçom maioritária (e muitas vezes, os nossos velhos ao falar som mais “lusistas” que os locutores de rádio e televisom galegas).

Mas nas cidades e nas novas geraçons é mais difícil escuitar galego, e nom sei o porquê dessa atitude, pois falar um bom galego (normativas aparte) permite-che comunicar-te com minhot@s, com brasileir@s, com os nossos velhos, com nós mesmos (que nom é pouco isto), e inclusive com lisboetas (risos).

Saber línguas sempre é umha vantagem.

Temos umha língua que pode ser considerada parte do português, e isso dependerá da atitude que tenha cada galeg@, de que parte da Galiza é, se sabe galego, se fala galego habitualmente, do seu nível cultural, se andou polo mundo adiante, se pensou algumha vez sobre umha estratégia “viável” a seguir para ao nosso idioma, e sobretudo dos preconceitos que tenha para ao galego e para o português.

 

Conhecendo o Marco Martínez


  • Um invento: A internet
  • Umha música: Gosto da música folque e tradicional
  • Um livro: Nom tenho um livro de cabeceira, gosto dos ensaios ou romances que cativem desde as primeiras páginas. “A sombra do vento” ou “O galego (im)possível” podem ser uns bons exemplos.
  • Um facto histórico: O Rexurdimento, sem ele quiçá nom teríamos hoje este colóquio.
  • Um prato na mesa: Ovo com grelos, patacas e umha chouriça de cebola.
  • Um desporto: o Taekwondo, ainda que leve tempo sem poder praticá-lo.
  • Um filme: “Mar adentro” do Aménabar.
  • Umha maravilha: Florença como cidade e as Rias Baixas como entorno.
  • Além de galego: Alegre e falador.

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