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Jack Paris: “O galego é preciso que se estenda a todos os ámbitos modernos das nossas vidas mas, ao mesmo tempo, o galego tem algo agora que pode perder”

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Jjack-paris-2ack Paris nasceu nos EUA e cresceu a viajar até que deu com os seus ossos, pele e carne na Ribeira Sacra onde pretende ser auto-suficiente. A chave é precisar de menos.

Entre castelhano e galego, escolheu este último. Vai sair do prelo umha sua novela onde umha nena-trans de Londres desperta encima duma massa de gelo flutuante.

Desde que mudou para o galego internacional, com resistências, não está satisfeito com o seu nível de galego.

***

Jack Paris nasceu em Oklahoma e cresceu a viajar com pais missionários evangélicos. Como vive umha criança tantas mudanças de espaço e de sociedade?

Tenho amigxs galegxs que brincam com que eu já era galego antes de chegar porque nom sei de onde som e nom tenho país. Há umha planta em Oklahoma, salsola, que morre, seca e viaja no vento centenas de milhas até aninhar num lugar molhado onde as sementes medram, enraizando. Sinto a terra de Galiza molhando os meus pés, enraizando-me aqui. Nom seria umha má historia. Acho que a minha adolescência preparou-me para entender a inexistência que ocupa o lugar onde devemos encontrar a nossa substancia pessoal, o nosso ser. Quero dizer que umha adolescência sem raiz, atravessando os Estados Unidos, a África, o Oriente Médio e o Uniom Soviética sem lar fixo, sem amigxs fixos demanda um entendimento que, na verdade, nom permite confiar num lugar ou em pessoas para nos definir. Temos que o fazer nós mesmos. Acho que era umha boa liçom, boa preparaçom para me enraizar na Galiza, um país que sempre tem que se auto-definir, que nom pode confiar nos modelos dados polo seu estado, pola imprensa e pola cultura dominante. Temos aqui umha inexistência bela: um espaço em que é preciso criar.

Chegou a Galiza em 2011. Que, ou quem, te encaminhou para este lado do Atlántico?

De facto já estivem neste lado. Vivim na Inglaterra durante onze anos e antes, vim da Austrália. Conhecim um rapaz estupendo em Londres e decidimos procurar terra na parte verde da península ibérica para sermos auto-suficientes. Nom soubemos nada destes lugares mas pensamos no norte de Portugal, nas Astúrias e na Galiza e, por casualidade, assentamo-nos aqui, na Ribeira Sacra. Todo passou sem saber que é a Galiza. Nunca imaginei que me acabaria por apaixonar pola Galiza.

Jack mora na Ribeira Sacra, numha casa em metade do monte. Que te oferece esta forma de viver?

Silencia o ruído da vida moderna. Sem telefone, com pouca Internet, apenas tenho o trabalho das minhas mãos na horta, com as árvores, com a carpintaria e escrevendo. Tenho muito sorte de ter a vida que tenho. Umha chave é precisar menos: menos cousas e menos dinheiro. A vida que tenho nom é exatamente rural. É distinto. Nom tenho a aldeia, nom tenho vizinhas. É umha vida muita solitária, com a natureza e as minhas cadelas como companhia. Mas, gosto de compartilhar esta vida também. Sempre procuro boa gente que queira descansar através do trabalho físico por um tempo. Gosto de compartilhar a beleza deste lugar, compartilhar boa companhia, conversa, umha partida dum jogo talvez.

Em que momento decides falar galego e como é recebido polas pessoas que te rodeiam?

Desde o momento em que aprendim que há umha ‘idioma local’ tinha interesse nele. Nunca me arrependo de ter escolhido o caminho do galego em vez do espanhol. Experimentas um outra país, umha outra realidade quando falas galego. No começo muita gente arredor ria de mim — pensavam que era engraçado eu falar galego. Apenas tivem dous encontros desagradáveis com gente bem hostil ao facto de um estrangeiro valorando e falando o galego. Mas, hoje em dia, agora que falo melhor (pois, um pouco melhor), a maioria dxs galegxs nom me tratam especialmente. Som um galego-falante mais falando mal como as outras pessoas.

Jack escreve textos literários em inglês e este ano vai publicar um romance. Encoraja-nos a o ler?

Haha! Seria boa leitura para pessoas que quiserem continuar rebelando-se nestes dias de confusom e medo. É a aventura duma nena-trans de Londres que desperta encima duma massa de gelo flutuante e tem que atravessar um mundo estranho que criou sem ser consciente. Enquanto o mundo está a desfazer-se e cair no caos, ela procura o seu caminho e casa e o seu pai transfóbico.

Como foi a tua passagem para o galego internacional? Como te sentes instalado nele?

Resistim um tempo. O nosso primeiro encontro com umha realidade condiciona muito a maneira em que concebemos o que é. Assim, a normativa RAG consolidara para mim o que era o galego. E costumo ser resistente às ideias novas em geral! Tenho que ler muitos argumentos e gosto de ver dous ou mais lados antes de mudar ou decidir. Agora o meu problema é que nom estou contente com o meu nível de galego em geral. Vivo sem muita gente arredor e nom tenho quem com que praticar.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2030?

Quando cruzo ao sul do Minho visitando as terras portugueses tenho duas sensações raras. Primeiro, é um tipo de alívio ver toda as palavras escritas em galego. Nom tenho que fazer o traduçom interna e eterna de espanhol para galego. É mui lindo. Mas, segundo, vejo um idioma moderno, um instrumento de comércio com as palavras torcidas, distorcidas, e esvaziadas para vender merda que nom precisamos. Sei que, para o futuro do galego é preciso que se estenda a todos os ámbitos modernos das nossas vidas mas, ao mesmo tempo, o galego tem algo agora que pode perder. O galego está entre algumas pessoas, mui vivo, vibrante. Está autentico porque é um ato de rebeldia, de auto-definiçom, de desafio frente a umha idioma muito mais potente, o espanhol. E nunca quero perdermos este lume nas palavras. É umha contradiçom que ainda nom entendo muito bem. Que, no processo de estabilizar o idioma, seria possível perder algo da luz que leva dentro. Clarifico que nom estou tentando somar o que é o galego em geral nem o que será, apenas quero falar dum elemento lindo e frágil cara ao futuro.

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Conhecendo Jack Paris.

Um sítio web: Buf, nem ideia.

Um invento: palavras.

Umha música: Steindor Andersen: cantos tradicionais de Islândia, muitas austeras e simples mas profundas e cheias de sentido. Fascinante.

Um livro: Buf, difícil. Bem, por escolher um: Pour une morale de l’ambiguïté por Simone de Beauvoir.

Um facto histórico: Nom é um facto mas sempre me perguntava se os reis magos eram missionários budistas mandados por Ashoka, o imperador budista. Os tempos quase alinham perfeitamente. Especulaçom divertida, nada mais. Que outros sábios haveria viajando desde o leste naquele época?

Um prato na mesa: feijões e arroz do estilo de New Orleans (a cidade do meu pai).

Um desporto: Jogos de tabuleiro!

Um filme: A Torinói Ló por Bela Tar. Eu nom som um homem sombrio mas gosto dos filmes sombrios e nunca vim um filme mais sombrio que Il Torino Lo. Se alguém conhece um filme mais sombrio que este, escreva-me e saímos para tomar cervejas e conversar acerca de filmes sombrios.

Umha maravilha: O outeiro em fronte da minha casa em fevereiro ou março quando o urze está em flor.

Além de habitante da Ribeira Sacra?: Estou a aprender o acordeom e a musica tradicional galega. Quero crianças. Gosto de ler muito. Quero umha sociedade mais feminista e anti-racista. Temo a marcha de fascismo em Europa e nos estados unidos mais. É imprescindível agora lutar para termos futuro: um bom futuro.

 

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas,licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Tem realizado trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Também é académico daAGLP.
Valentim Fagim

 

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